Capítulos

Sônia lê a ressurreição de Lázaro para Raskólnikov à luz de uma vela

Crime e Castigo

Romance de 1866: o ex-estudante Raskólnikov mata uma velha penhorista para provar a si mesmo que é um homem "extraordinário", acima da lei moral, e desmorona sob a culpa até a prostituta Sônia, lendo a ressurreição de Lázaro, abrir-lhe o caminho da confissão e da regeneração

A Obra

Crime e Castigo é o romance que firmou Fiódor Dostoiévski como o grande romancista da consciência. Foi escrito em 1865 e 1866, sob pressão de dívidas, e saiu em capítulos mensais na revista O Mensageiro Russo ao longo de 1866. A história acompanha Rodion Raskólnikov, um ex-estudante miserável de São Petersburgo que assassina a machadadas uma velha penhorista, e por acaso também a irmã indefesa dela, para testar uma teoria: a de que certos homens "extraordinários" teriam o direito de transgredir a lei moral em nome de um bem maior. O crime ocupa a primeira das seis partes do livro. As cinco partes seguintes e o epílogo são o castigo, mas não o da polícia: é a desintegração interior de quem matou e descobre que não suporta o peso do que fez. O título russo, Prestuplénie i nakazánie, carrega no original a ideia de "transgressão" (literalmente um "passar por cima" de um limite) e de "punição", e o romance inteiro gira em torno desse limite cruzado.

O webapp publica o texto em português ao lado do inglês da tradução clássica de Constance Garnett, de 1914, hoje em domínio público. Aqui a obra está dividida em 92 capítulos de leitura, que correspondem às seis partes e ao epílogo do original: as unidades curtas facilitam a leitura em tela e a citação de passagens exatas. A obra entra na seção de filosofia não por ser um tratado, mas porque é um romance de ideias: ele encena, em carne e sangue, o que acontece quando uma teoria sobre o homem é levada às últimas consequências. Dostoiévski era cristão ortodoxo, e o livro dialoga com a fé de propósito, sobretudo pela leitura bíblica que a personagem Sônia faz a Raskólnikov. Por isso este índice, ao contrário do comentário neutro de cada capítulo, aponta também onde o romance toca o cristianismo.

Autoria e Data de Composição

A autoria é certa e documentada: Dostoiévski concebeu o romance no verão de 1865, enquanto tentava quitar dívidas de jogo no exterior, e ainda processava os anos que passara na Sibéria. Ele fora preso em 1849 por participar do círculo de Petrachévski, submetido a uma execução simulada e enviado ao presídio de Omsk, onde cumpriu quatro anos de trabalhos forçados, de 1850 a 1854, seguidos de serviço militar obrigatório. Foi ali que conviveu com criminosos comuns e leu o Novo Testamento que recebera a caminho do degredo, o único livro permitido na prisão. Essa experiência alimenta o romance inteiro e em especial o epílogo.

Os cadernos de trabalho, preservados e publicados no século XX, mostram que a primeira versão era uma confissão em primeira pessoa de Raskólnikov. Dostoiévski a abandonou e reescreveu em terceira pessoa, mas tão colada à mente do protagonista que o leitor quase nunca sai da cabeça dele. A publicação seriada em O Mensageiro Russo, revista de Mikhail Katkov, ocupou doze fascículos mensais e terminou em dezembro de 1866. No mesmo ano, preso a um contrato leonino com o editor Stellóvski, Dostoiévski teve de interromper o romance para ditar O Jogador em poucas semanas, trabalho que o levou a contratar a estenógrafa Anna Snítkina, com quem se casaria em 1867.

O sobrenome do protagonista é frequentemente ligado ao termo russo raskol, cisma, o mesmo que designa a ruptura dos Velhos Crentes com a Igreja oficial no século XVII. A leitura é plausível e comum na crítica, e casa com o tema do homem partido ao meio, mas o próprio autor não a explicou por escrito, então convém tratá-la como interpretação, não como declaração de intenção.

As fontes reais do crime

Dostoiévski era leitor voraz de crônica policial, e o romance recolhe casos concretos. Em agosto de 1865 a imprensa russa noticiou o caso de Guerássim Tchístov, filho de comerciante e Velho Crente, acusado de matar duas mulheres a machadadas para roubar a casa onde elas serviam. O paralelo com a cena central do livro é reconhecido por boa parte da crítica, embora não haja declaração do autor confirmando a dívida. Antes disso, em 1861, a revista Vrémia, que Dostoiévski dirigia com o irmão, publicara os autos do processo do criminoso francês Pierre François Lacenaire, que justificava os próprios crimes com argumentos de superioridade intelectual. Raskólnikov compartilha com Lacenaire a teoria e quase nada mais: o personagem é pobre, doente e incapaz de sustentar a frieza que a doutrina exigiria.

São Petersburgo como personagem

A cidade não é cenário decorativo. O romance se passa num verão sufocante, entre a praça do Feno, os cortiços e as pontes sobre os canais, e a geografia é tão precisa que se pode reconstruir os trajetos no mapa da época. O calor, o cheiro, as escadas escuras e os bêbados nas tavernas funcionam como extensão do estado mental do protagonista: o ar irrespirável de fora corresponde ao aperto interior. As tramas paralelas, a família Marmeládov afundando na miséria e a irmã do protagonista prestes a se vender num casamento por interesse, mostram que o dilema do livro não é abstrato. Todos os personagens estão sendo empurrados a violar a própria consciência por dinheiro, e a diferença está no que cada um decide fazer com essa pressão.

Conteúdo do Livro

As seções abaixo seguem a ordem da narrativa, parte por parte, e apontam as passagens que sustentam cada momento decisivo.

Parte I: a miséria, a carta e a teoria

Parte I: o sonho, o machado e o crime

Parte II: o pânico e a primeira delegacia

Parte II: o desafio e a morte de Marmeládov

Parte III: a família, o artigo e o primeiro duelo com Porfiry

Parte IV: Svidrigáilov, o rompimento e a leitura de Lázaro

Parte V: a calúnia, a confissão a Sônia e a morte de Katerina Ivánovna

Parte VI: a acusação aberta, Svidrigáilov e a entrega

Epílogo: a Sibéria

A Teoria do Homem Extraordinário

O motor intelectual do crime é um artigo que Raskólnikov publicou e que o juiz Porfiry desencava. Nele, a humanidade se divide em duas classes: a massa "ordinária", que existe para obedecer e se reproduzir, e os poucos "extraordinários", como Licurgo, Sólon, Maomé e sobretudo Napoleão, que têm o direito de derramar sangue e quebrar a lei se a sua ideia exige. Matar a velha penhorista, um ser que ele considera um "piolho" inútil e nocivo, seria assim um ato permitido a um homem superior, e até útil, já que o dinheiro dela poderia salvar muitas vidas. O romance não refuta essa teoria com um sermão: refuta-a pela experiência. Raskólnikov descobre, ao matar, que não é um Napoleão, mas um homem comum esmagado pela própria consciência. A teoria é uma das fontes literárias da discussão posterior sobre o "super-homem", embora seja anterior à formulação de Nietzsche.

Será que assassinei a velha? Assassinei a mim mesmo, não a ela! Esmaguei a mim mesmo de uma vez por todas, para sempre.

Dostoiévski, Crime e Castigo 70:17

Vale notar que a refutação não é limpa. Mesmo depois de confessar, no epílogo, Raskólnikov continua achando que a teoria estava certa e que só ele falhou, e só reconhece como crime o fato de ter fracassado e de ter se entregado. O romance leva o livro inteiro para desmontar a doutrina e ainda assim recusa dar o golpe final por argumento.

Os duplos de Raskólnikov

Dostoiévski cerca o protagonista de figuras que espelham partes dele. Lújin representa a versão respeitável e covarde da mesma lógica: um egoísmo racional que se apresenta como ciência econômica e que, na prática, calunia uma moça pobre para dominar uma noiva. Svidrigáilov é a versão que foi até o fim: um homem sem consciência aparente, capaz de crimes que o texto insinua sem provar, e que descobre no fim que a liberdade absoluta não dá nem prazer nem sentido. Não é acaso que ele ouça a confissão pela parede, torne-se o único a saber, ajude a família Marmeládov com o próprio dinheiro e, na mesma noite, se mate. Porfiry, do outro lado, é o interrogador que não precisa de provas porque entende a doutrina do acusado por dentro.

Seja o sol e todos te verão. O sol tem antes de tudo que ser o sol.

Porfiry Petróvitch, Crime e Castigo 77:37

A Ressurreição de Lázaro

O ponto em que o romance toca o cristianismo de modo mais direto está na Parte IV. Raskólnikov procura Sônia Marmeládova, uma moça forçada à prostituição para sustentar a família, e pede que ela leia para ele a passagem do Evangelho de João, capítulo 11, sobre a ressurreição de Lázaro, o homem que Jesus chama de volta do túmulo depois de quatro dias morto. A escolha não é casual. O Evangelho que Sônia lê pertencera a Lizavéta, a inocente que Raskólnikov assassinou, e o trecho funciona como espelho: Lázaro morto há quatro dias é a imagem de Raskólnikov morto na alma, e a pergunta de Jesus a Marta, se ela crê, é dirigida obliquamente ao próprio assassino que escuta. Dostoiévski usa a cena não como prova de doutrina, mas como imagem da única saída que ele vê para Raskólnikov: a possibilidade de uma ressurreição moral, que o orgulho da teoria havia trancado. A mesma história de Lázaro reaparece no fim do livro, com o Novo Testamento debaixo do travesseiro do condenado.

Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim nunca morrerá. Crês nisto?

Dostoiévski (citando João 11), Crime e Castigo 55:21

Sofrimento, Confissão e Regeneração

Contra a lógica fria da teoria, o romance opõe um caminho que vem da espiritualidade ortodoxa russa: o do sofrimento aceito como via de retorno. É Sônia quem o aponta, ao mandar Raskólnikov beijar a terra que ele profanou e confessar o crime diante de todos, e ao lhe dar uma cruz de cipreste para que carreguem juntos. Não é uma fórmula mágica: no fim da narrativa principal, e mesmo no início do epílogo na Sibéria, Raskólnikov confessa o crime mas ainda não se arrepende dele de verdade, só lamenta ter sido fraco demais para sustentá-lo. A virada vem depois, sem argumento, num impulso súbito de amor por Sônia, e o narrador a chama de ressurreição, deixando a conversão como promessa que começa, não como fato consumado. O livro termina exatamente nesse limiar, recusando-se a narrar a vida nova que apenas se anuncia.

Sofra e expie o seu pecado com isso, é o que você deve fazer.

Sônia Marmeládova, Crime e Castigo 70:20

Mas isso é o começo de uma nova história, a história da renovação gradual de um homem, a história de sua regeneração gradual, de sua passagem de um mundo para outro, de sua iniciação numa vida nova e desconhecida.

Dostoiévski, Crime e Castigo 92:50

Diálogo com o Cristianismo

É preciso cuidado para não ler o romance como um tratado devocional, que ele não é. Dostoiévski engaja a Escritura de propósito, mas pela boca de personagens e pela trama, não por pregação. As alusões bíblicas que aparecem ao longo do texto, e que este site liga às passagens reais, são quase sempre faladas por figuras concretas em situações concretas: o bêbado Marmeládov, na taverna, recita o Juízo final e o convite de Cristo aos pecadores; Lújin inverte o mandamento de amar o próximo para justificar o egoísmo racional; Porfiry cita o "buscai e achareis" do Sermão da Montanha; Sônia lê Lázaro. O cristianismo do livro é, sobretudo, uma aposta: a de que a regeneração de um homem não vem da teoria, do dinheiro ou da força, mas do amor humilde e do reconhecimento da própria culpa.

E Ele nos dirá: "Vocês são porcos, feitos à imagem da Besta e com a sua marca; mas venham vocês também!"

Marmeládov, na taverna, Crime e Castigo 5:7

Vale registrar também a tensão honesta: o epílogo, com sua conversão anunciada, é lido por muitos críticos como o trecho mais frágil do romance, uma resolução cristã que o resto do livro, brutalmente realista, não chega a demonstrar. Outros respondem que o epílogo não afirma conversão nenhuma, apenas o instante em que ela se torna possível, e que essa contenção é justamente o que o salva do sermão. O leitor encontra aqui as duas coisas, o realismo impiedoso do crime e a promessa de saída, e pode julgar por si.

Recepção, edições e traduções

O romance foi sucesso imediato na publicação seriada e saiu em volume único em 1867, com revisões do autor. A crítica russa da época se dividiu entre quem via ali um ataque à juventude radical e niilista e quem via um diagnóstico da miséria urbana; Dostoiévski negou que estivesse atacando os jovens em bloco. Em inglês, a tradução de Constance Garnett, de 1914, é a que fixou o livro para o público anglófono e circula em domínio público, e é a versão que este site publica ao lado do português. Traduções posteriores, como as de David Magarshack, Sidney Monas, Richard Pevear e Larissa Volokhonsky, e Oliver Ready, corrigiram vitorianismos de Garnett e recuperaram a aspereza do original. Em português há várias versões diretas do russo publicadas a partir do século XX, e é comum que a numeração de partes e capítulos varie de edição para edição.

Relevância para o Cristão de Hoje

Crime e Castigo continua atual porque expõe, antes de qualquer ideologia do século XX, aonde leva a ideia de que alguns homens estão acima da lei moral comum em nome de um bem maior. A teoria de Raskólnikov é desmentida não por uma autoridade externa, mas pela própria consciência que ele não consegue calar, e leitores cristãos costumam ver nessa consciência inquieta o lugar onde Deus age sem ser nomeado, leitura que o texto sugere mas nunca afirma. Para o leitor cristão, o livro ilumina temas centrais da fé sem suavizá-los: a realidade do pecado e do seu peso, a insuficiência da autojustificação, o valor de uma figura desprezada como Sônia, que vive de fato o Evangelho que lê, e a esperança de que ninguém está morto demais para ser chamado de volta. A imagem que organiza tudo é a de Lázaro: a de que mesmo quem já cheira a morte, quem já cruzou o limite, pode ouvir a ordem de sair do túmulo. O romance não garante que Raskólnikov a obedecerá; deixa-o, e deixa o leitor, diante da pergunta.