Crime e Castigo 56

Romance de 1866: o ex-estudante Raskólnikov mata uma velha penhorista para provar a si mesmo que é um homem "extraordinário", acima da lei moral, e desmorona sob a culpa até a prostituta Sônia, lendo a ressurreição de Lázaro, abrir-lhe o caminho da confissão e da regeneração

Parte IV, Capítulo 5: A segunda entrevista com Porfiry Petróvitch

Quando, na manhã seguinte, às onze horas em ponto, Raskólnikov entrou na repartição de investigação de crimes e mandou anunciar seu nome a Porfiry Petróvitch, surpreendeu-se de ser feito esperar tanto tempo: passaram-se pelo menos dez minutos até que o chamassem. Ele esperava que caíssem em cima dele. Mas ficou ali na sala de espera, e pessoas que aparentemente nada tinham a ver com ele passavam o tempo todo de um lado para outro à sua frente. Na sala ao lado, que parecia um escritório, vários escreventes estavam sentados escrevendo, e era óbvio que não faziam ideia de quem ou do que Raskólnikov pudesse ser. Ele olhava ao redor, inquieto e desconfiado, para ver se não havia algum guarda, alguma vigilância secreta montada sobre ele para impedir sua fuga. Mas não havia nada disso: ele via apenas os rostos dos escreventes absorvidos em detalhes insignificantes, e depois outras pessoas, ninguém parecia ter qualquer interesse nele. Por eles, podia ir aonde quisesse.
A convicção foi ficando mais forte nele de que, se aquele homem enigmático da véspera, aquele fantasma que brotara da terra, tivesse visto tudo, não o teriam deixado ali parado, esperando daquele jeito. E teriam esperado até que ele resolvesse aparecer às onze? Ou o homem ainda não tinha prestado depoimento, ou... ou simplesmente não sabia de nada, não tinha visto nada (e como poderia ter visto alguma coisa?), e então tudo o que lhe acontecera no dia anterior era de novo um fantasma exagerado pela sua imaginação doente e tensa demais. Essa conjectura começara a se firmar na véspera, no meio de todo o seu pavor e do seu desespero.
Remoendo tudo agora e se preparando para um novo embate, deu-se conta de repente de que estava tremendo, e sentiu uma onda de indignação ao pensar que estava tremendo de medo de encarar aquele odioso Porfiry Petróvitch. O que mais o apavorava era reencontrar aquele homem; ele o odiava com um ódio intenso, sem atenuantes, e temia que seu ódio o traísse. Sua indignação foi tamanha que ele parou de tremer na mesma hora; preparou-se para entrar com um ar frio e arrogante e jurou a si mesmo ficar o mais calado possível, observar e escutar e, ao menos desta vez, controlar os nervos esgotados. Nesse instante foi chamado à presença de Porfiry Petróvitch.
Encontrou Porfiry Petróvitch sozinho no gabinete. O gabinete era uma sala nem grande nem pequena, mobiliada com uma grande escrivaninha diante de um sofá estofado de tecido xadrez, uma cômoda-secretária, uma estante de livros no canto e várias cadeiras, tudo mobília do governo, de madeira amarela envernizada. Na parede do fundo havia uma porta fechada, e atrás dela sem dúvida ficavam outras salas. Quando Raskólnikov entrou, Porfiry Petróvitch logo fechou a porta por onde ele tinha vindo, e os dois ficaram a sós. Recebeu o visitante com um ar aparentemente cordial e bem-humorado, e foi depois de alguns minutos que Raskólnikov percebeu nele sinais de um certo embaraço, como se o tivessem desconcertado ou apanhado em algo muito secreto.
"Ah, meu caro! Aqui está o senhor... em nossos domínios"... começou Porfiry, estendendo-lhe as duas mãos. "Vamos, sente-se, meu velho... ou talvez o senhor não goste de ser chamado de 'meu caro' e de 'meu velho', tout court? Por favor, não ache íntimo demais... Aqui, no sofá."
Raskólnikov sentou-se, mantendo os olhos fixos nele. "Em nossos domínios", as desculpas pela familiaridade, a expressão francesa tout court, eram todos sinais característicos. "Estendeu-me as duas mãos, mas não me deu nenhuma, recolheu-a a tempo", ocorreu-lhe com desconfiança. Os dois se observavam, mas, quando seus olhares se cruzavam, desviavam um do outro com a rapidez de um raio.
"Trouxe-lhe este papel... sobre o relógio. Aqui está. Está em ordem ou devo copiá-lo de novo?" "O quê? Um papel? Sim, sim, não se preocupe, está em ordem", disse Porfiry Petróvitch como que apressado, e, depois de dizer isso, pegou o papel e olhou para ele. "Sim, está em ordem. Não é preciso mais nada", declarou com a mesma rapidez, e largou o papel sobre a mesa. Um minuto depois, quando falava de outra coisa, tornou a pegá-lo da mesa e o pôs sobre a cômoda-secretária.
"Creio que o senhor disse ontem que gostaria de me interrogar... formalmente... sobre o meu conhecimento da mulher assassinada?", recomeçou Raskólnikov. "Por que pus esse 'creio'?", passou-lhe pela mente num lampejo. "Por que estou tão inquieto por ter posto esse 'creio'?", veio num segundo lampejo. E sentiu de repente que sua inquietação, ao simples contato com Porfiry, às primeiras palavras, aos primeiros olhares, tinha crescido num instante a proporções monstruosas, e que isso era assustadoramente perigoso. Seus nervos vibravam, sua emoção aumentava. "Está ruim, está ruim! Vou falar demais de novo."
"Sim, sim, sim! Não pressa, não pressa", murmurou Porfiry Petróvitch, andando de um lado para outro em volta da mesa sem rumo aparente, como que dando arrancadas em direção à janela, à cômoda, à mesa, ora evitando o olhar desconfiado de Raskólnikov, ora parando de novo e encarando-o de frente. Sua figurinha gorda e redonda parecia muito estranha, como uma bola rolando de um lado a outro e ricocheteando de volta.
"Temos tempo de sobra. O senhor fuma? Tem cigarro seu? Tome, um cigarro!", prosseguiu, oferecendo um cigarro ao visitante. "Sabe, estou recebendo o senhor aqui, mas meus próprios aposentos são por ali, sabe, meus aposentos oficiais. Mas, por ora, estou morando fora, precisei fazer umas reformas aqui. está quase pronto... Aposentos oficiais, sabe, são uma coisa excelente. E então, o que o senhor acha?"
"É, uma coisa excelente", respondeu Raskólnikov, olhando para ele quase com ironia. "Uma coisa excelente, uma coisa excelente", repetiu Porfiry Petróvitch, como se tivesse acabado de pensar em algo completamente diferente. "É, uma coisa excelente", quase gritou por fim, fitando de repente Raskólnikov e parando a dois passos dele. Essa repetição idiota era incongruente demais, na sua inépcia, com o olhar grave, sombrio e enigmático que ele lançou sobre o visitante. Mas aquilo irritou ainda mais o fígado de Raskólnikov, e ele não resistiu a uma provocação irônica e bastante imprudente.
"Diga-me uma coisa, por favor", perguntou ele de repente, olhando para Porfiry quase com insolência e tirando uma espécie de prazer da própria insolência. "Creio que é uma espécie de regra jurídica, uma espécie de tradição forense, para todos os juízes de instrução, começar o ataque de longe, com um assunto banal, ou ao menos irrelevante, para encorajar, ou melhor, para distrair o sujeito que estão interrogando, desarmar a cautela dele e então, de uma vez, desferir um golpe inesperado e fulminante com alguma pergunta fatal. Não é assim? É uma tradição sagrada, mencionada, imagino, em todos os manuais da arte."
"Sim, sim... Ora, o senhor imagina que foi por isso que falei dos aposentos oficiais... hein?" E, ao dizer isso, Porfiry Petróvitch apertou os olhos e piscou; um ar bem-humorado e astuto perpassou-lhe o rosto. As rugas da testa se alisaram, os olhos se contraíram, as feições se alargaram, e ele de repente caiu numa risada nervosa e prolongada, sacudindo-se todo e encarando Raskólnikov de frente. Este se forçou a rir também, mas, quando Porfiry, vendo que ele ria, irrompeu numa gargalhada tal que ficou quase carmesim, a repulsa de Raskólnikov venceu toda a cautela; ele parou de rir, franziu o cenho e fitou Porfiry com ódio, mantendo os olhos cravados nele enquanto durava aquela risada deliberadamente prolongada. Houve falta de cautela dos dois lados, no entanto, pois Porfiry Petróvitch parecia estar rindo na cara do visitante e muito pouco incomodado com o aborrecimento com que o visitante recebia aquilo. Este último fato era muito significativo aos olhos de Raskólnikov: ele viu que Porfiry Petróvitch tampouco estivera embaraçado havia pouco, e que ele, Raskólnikov, talvez tivesse caído numa armadilha; que devia haver ali alguma coisa, algum motivo que lhe era desconhecido; que talvez tudo estivesse a postos e, num instante, fosse desabar sobre ele...
Foi direto ao ponto na mesma hora, levantou-se do assento e pegou o boné. "Porfiry Petróvitch", começou com decisão, ainda que com considerável irritação, "ontem o senhor manifestou o desejo de que eu viesse até aqui para algumas indagações" (carregou de modo especial na palavra "indagações"). "Vim, e, se o senhor tem algo a me perguntar, pergunte, e, se não, permita que eu me retire. Não tenho tempo a perder... Preciso estar no enterro daquele homem que foi atropelado, de quem o senhor... também sabe", acrescentou, sentindo-se logo irritado por ter feito esse acréscimo e mais irritado ainda com a própria irritação. "Estou farto de tudo isso, o senhor está me ouvindo? E faz tempo. Foi em parte o que me deixou doente. Em suma", gritou, sentindo que a frase sobre a doença estava ainda mais fora de lugar, "em suma, tenha a bondade de me interrogar ou de me deixar ir, agora mesmo. E, se tiver de me interrogar, faça-o na forma devida! Não vou permitir que o faça de outro modo, e portanto, por ora, até logo, que evidentemente não mais nada que nos prenda aqui."
"Santo Deus! Que história é essa? Interrogá-lo sobre o quê?", cacarejou Porfiry Petróvitch, mudando de tom e parando de rir num átimo. "Por favor, não se aflija", começou a se agitar de um lado para outro, fazendo Raskólnikov sentar-se com um zelo atrapalhado. "Não pressa, não pressa, é tudo bobagem. Ah, não, estou muito contente que o senhor tenha vindo me ver afinal... Encaro o senhor simplesmente como uma visita. E quanto à minha maldita risada, perdoe-me, Rodion Românovitch. Rodion Românovitch? É esse o seu nome?... São os meus nervos, o senhor me fez tanta cócega com a sua observação espirituosa; garanto, às vezes eu sacudo de tanto rir, feito uma bola de borracha, por meia hora seguida... Muitas vezes tenho medo de um ataque de paralisia. Sente-se, por favor. Sente-se, ou vou achar que o senhor está zangado..."
Raskólnikov não falou; escutava, observando-o, ainda de cenho zangado. Sentou-se, mas continuou segurando o boné. "Preciso lhe contar uma coisa sobre mim, meu caro Rodion Românovitch", prosseguiu Porfiry Petróvitch, andando pela sala e de novo evitando os olhos do visitante. "Veja, sou solteiro, um homem sem importância e pouco afeito à sociedade; além disso, não tenho nada pela frente, estou acabado, estou apodrecendo e... e o senhor reparou, Rodion Românovitch, que, nos nossos círculos de Petersburgo, se dois homens inteligentes que não são íntimos, mas se respeitam, como o senhor e eu, se encontram, levam meia hora até achar um assunto de conversa? Ficam mudos, sentam-se um diante do outro e se sentem constrangidos. Todo mundo tem assuntos de conversa, as damas, por exemplo... gente da alta sociedade sempre tem seus assuntos, c'est de rigueur, mas gente do meio-termo como nós, gente que pensa, quer dizer, está sempre de língua presa e sem jeito. Qual é a razão disso? Se é a falta de interesse público, ou se é que somos tão honestos que não queremos enganar um ao outro, não sei. O que o senhor acha? Largue esse boné, por favor, parece que o senhor está de saída, isso me deixa pouco à vontade... estou tão encantado..."
Raskólnikov largou o boné e continuou escutando em silêncio, com o rosto sério e franzido, a tagarelice vaga e oca de Porfiry Petróvitch. "Será que ele quer mesmo distrair a minha atenção com esse palavrório bobo?"
"Não posso lhe oferecer café aqui; mas por que não passar cinco minutos com um amigo?", Porfiry tagarelava, "e o senhor sabe, todos esses deveres oficiais... por favor, não se importe que eu fique andando de um lado para outro, desculpe, meu caro, tenho muito medo de ofendê-lo, mas o exercício é absolutamente indispensável para mim. Vivo sentado, e fico tão contente de me mexer por cinco minutos... sofro da minha vida sedentária... Vivo querendo me inscrever num ginásio de ginástica; dizem que funcionários de todas as patentes, até conselheiros privados, podem ser vistos saltitando alegres por lá; está, a ciência moderna... sim, sim... Mas, quanto aos meus deveres aqui, indagações e todas essas formalidades... o senhor mesmo mencionou as indagações pouco... garanto que esses interrogatórios às vezes são mais constrangedores para quem interroga do que para o interrogado... O senhor mesmo fez essa observação agora pouco, com muito acerto e espírito." (Raskólnikov não fizera observação alguma desse tipo.) "A gente se enrola! Uma enrolação completa! A gente fica martelando a mesma nota, feito um tambor! Vai haver uma reforma, e vão nos chamar por outro nome, pelo menos, he-he-he! E quanto à nossa tradição forense, como o senhor tão espirituosamente a chamou, concordo plenamente. Todo réu sob julgamento, até o camponês mais rude, sabe que começam por desarmá-lo com perguntas irrelevantes (como o senhor tão bem disse) e depois lhe desferem um golpe fulminante, he-he-he! A sua comparação feliz, he-he! Então o senhor imaginou mesmo que, com 'aposentos oficiais', eu quis dizer... he-he! O senhor é um homem irônico. Pronto. Não vou continuar! Ah, a propósito, sim! Uma palavra puxa a outra. O senhor falou de formalidade agora pouco, a respeito da indagação, sabe. Mas para que serve a formalidade? Em muitos casos é uma bobagem. Às vezes a gente tem uma conversa amigável e tira muito mais proveito dela. Sempre se pode recorrer à formalidade, permita-me garantir. E, afinal, no que ela dá? Um juiz de instrução não pode ficar limitado pela formalidade a cada passo. O trabalho de investigação é, por assim dizer, uma arte livre à sua maneira, he-he-he!"
Porfiry Petróvitch tomou fôlego um instante. Tinha simplesmente tagarelado, soltando frases ocas, deixando escapar umas poucas palavras enigmáticas e recaindo de novo na incoerência. Andava quase correndo pela sala, movendo as perninhas gordas cada vez mais depressa, olhando para o chão, com a mão direita às costas, enquanto com a esquerda fazia gestos extraordinariamente incongruentes com suas palavras. Raskólnikov de repente notou que, ao correr pela sala, ele parecia parar duas vezes por um instante perto da porta, como se estivesse escutando. "Estará esperando alguma coisa?"
"O senhor tem toda a razão", começou Porfiry alegremente, olhando para Raskólnikov com uma simplicidade extraordinária (o que o sobressaltou e logo o pôs em guarda); "toda a razão em rir com tanto espírito das nossas formas forenses, he-he! Alguns desses métodos psicológicos elaborados são extremamente ridículos e talvez inúteis, se a gente se apega de mais perto às formas. Sim... estou falando de formas de novo. Pois bem, se reconheço, ou, falando com mais rigor, se suspeito que fulano ou sicrano seja um criminoso em algum caso confiado a mim... o senhor estuda Direito, claro, Rodion Românovitch?"
"Estudava, sim..." "Pois então, isto fica como um precedente para o seu futuro. Embora não pense que eu me atreveria a instruí-lo, depois dos artigos que o senhor publica sobre o crime! Não, simplesmente tomo a liberdade de afirmá-lo a título de fato: se eu tomasse este ou aquele homem por criminoso, por que, pergunto, haveria de atormentá-lo prematuramente, ainda que tivesse provas contra ele? Num caso eu posso ser obrigado, por exemplo, a prender um homem na mesma hora; mas outro pode estar numa situação bem diferente, sabe, então por que não deixá-lo passear um pouco pela cidade? he-he-he! Mas vejo que o senhor não entendeu bem, então vou lhe dar um exemplo mais claro. Se eu o ponho na prisão cedo demais, é muito provável que eu lhe dê, por assim dizer, um apoio moral, he-he! O senhor está rindo?"
Raskólnikov não tinha a menor intenção de rir. Estava sentado de lábios comprimidos, os olhos febris cravados nos de Porfiry Petróvitch. "E no entanto é assim, com certos tipos sobretudo, pois os homens são muito diferentes uns dos outros. O senhor diz 'provas'. Pois bem, pode haver provas. Mas provas, sabe, em geral podem ser tomadas de dois modos. Sou juiz de instrução e um homem fraco, confesso. Eu gostaria de fazer uma demonstração, por assim dizer, matematicamente clara. Gostaria de montar uma cadeia de provas como dois e dois são quatro, deveria ser uma prova direta, irrefutável! E, se eu o tranco cedo demais, ainda que eu esteja convencido de que ele era o homem, é muito provável que eu me prive dos meios de obter mais provas contra ele. E como? Dando-lhe, por assim dizer, uma posição definida, eu o tiro da incerteza e lhe acalmo o espírito, de modo que ele se recolhe à sua concha."
"Dizem que em Sevastopol, logo depois de Alma, a gente esperta ficou num pavor terrível de que o inimigo atacasse abertamente e tomasse Sevastopol de uma vez. Mas, quando viram que o inimigo preferia um cerco regular, ficaram encantados, pelo que me contam, e tranquilos, pois a coisa ia se arrastar por dois meses pelo menos. O senhor está rindo, não acredita em mim de novo? Claro, o senhor também tem razão. Tem razão, tem razão. São casos especiais, admito. Mas o senhor de observar isto, meu caro Rodion Românovitch: o caso geral, o caso para o qual todas as formas e regras forenses foram pensadas, para o qual foram calculadas e fixadas nos livros, esse caso simplesmente não existe, pela razão de que todo caso, todo crime, por exemplo, assim que de fato ocorre, na mesma hora se torna um caso inteiramente especial e, às vezes, um caso diferente de tudo o que veio antes. Casos muito cômicos desse tipo às vezes acontecem."