Crime e Castigo 75
Romance de 1866: o ex-estudante Raskólnikov mata uma velha penhorista para provar a si mesmo que é um homem "extraordinário", acima da lei moral, e desmorona sob a culpa até a prostituta Sônia, lendo a ressurreição de Lázaro, abrir-lhe o caminho da confissão e da regeneração
Parte VI, Capítulo 1 (continuação)
"Era justamente o que eu queria acrescentar, só que você me interrompeu: que foi uma decisão muito boa a sua, a de não descobrir esses segredos. Deixe ao tempo, não se preocupe com isso. Você saberá de tudo no momento certo, quando tiver de ser. Ontem um homem me disse que o que um homem precisa é de ar fresco, ar fresco, ar fresco. Pretendo ir direto até ele para descobrir o que quis dizer com isso."
Razumíkhin ficou perdido em pensamentos e em agitação, chegando em silêncio a uma conclusão.
"Ele é um conspirador político! Só pode ser. E está às vésperas de algum passo desesperado, isso é certo. Só pode ser isso! E... e Dúnia sabe", pensou de repente.
"Então Avdótia Românovna vem ver você", disse ele, pesando cada sílaba, "e você vai ver um homem que diz que precisamos de mais ar, e então, é claro, aquela carta... isso também deve ter alguma relação", concluiu consigo mesmo.
"Que carta?"
"Ela recebeu uma carta hoje. Aquilo a abalou muito, muito mesmo. Demais. Comecei a falar de você, ela me implorou que não falasse. Então... então ela disse que talvez tivéssemos de nos separar muito em breve... depois começou a me agradecer calorosamente por alguma coisa; depois foi para o quarto e se trancou."
"Ela recebeu uma carta?", perguntou Raskólnikov, pensativo.
"Sim, e você não sabia? Hum..."
Ficaram ambos em silêncio.
"Adeus, Rodion. Houve um tempo, irmão, em que eu.... Deixa pra lá, adeus. Sabe, houve um tempo.... Bem, adeus! Eu também preciso ir. Não vou beber. Não há necessidade agora.... Isso é tudo bobagem!"
Saiu apressado; mas, quando já quase fechara a porta atrás de si, de repente tornou a abri-la e disse, desviando o olhar:
"Ah, a propósito, você se lembra daquele assassinato, sabe, o do Porfiry, aquela velha? Sabe que acharam o assassino, ele confessou e deu as provas. É um daqueles mesmos operários, o pintor, imagine só! Você se lembra de que eu os defendi aqui? Acredita que toda aquela cena de brigar e rir com os companheiros na escada, enquanto o porteiro e as duas testemunhas subiam, ele a armou de propósito para afastar as suspeitas?"
"Que astúcia, que presença de espírito a do jovem cão! Mal se pode acreditar; mas é a explicação dele mesmo, confessou tudo. E que tolo eu fui com isso! Bem, ele é simplesmente um gênio da hipocrisia e da esperteza em desarmar as suspeitas dos juristas, então não há muito o que estranhar, suponho! Claro, gente assim sempre existe. E o fato de ele não ter conseguido manter o personagem, mas ter confessado, torna-o mais fácil de acreditar. Mas que tolo eu fui! Eu estava furioso em defesa deles!"
"Diga-me, por favor, de quem você ouviu isso, e por que lhe interessa tanto?", perguntou Raskólnikov, com inequívoca agitação.
"Essa agora! Você me pergunta por que me interessa!... Bem, ouvi isso do Porfiry, entre outros... Foi dele que ouvi quase tudo a respeito."
"Do Porfiry?" "Do Porfiry."
"O que... o que ele disse?", perguntou Raskólnikov, consternado.
"Ele me deu uma explicação e tanto. Psicologicamente, ao modo dele."
"Ele explicou? Explicou ele mesmo?"
"Sim, sim; adeus. Conto tudo a você outra hora, mas agora estou ocupado. Houve um tempo em que imaginei... Mas não importa, outra hora!... Que necessidade tenho de beber agora? Você me embriagou sem vinho. Estou bêbado, Ródia! Adeus, estou indo. Volto muito em breve."
Saiu.
"Ele é um conspirador político, não há dúvida disso", decidiu Razumíkhin, enquanto descia devagar a escada. "E arrastou a irmã para isso; é bem, bem condizente com o caráter de Avdótia Românovna. Há encontros entre eles!... Ela também deu a entender... Tantas palavras dela.... e insinuações... carregam esse sentido! E de que outro modo explicar todo esse emaranhado? Hum! E eu quase pensei... Santo Deus, o que eu pensei! Sim, perdi o juízo e fui injusto com ele!"
"Foi obra dele, sob o lampião no corredor naquele dia. Puf! Que ideia grosseira, repugnante e vil da minha parte! Nikolai é um sujeito de ouro, por ter confessado.... E como tudo está claro agora! A doença dele naquela época, todas as suas ações estranhas... antes disso, na universidade, como ele costumava ser sombrio, como era taciturno.... Mas o que significa agora aquela carta? Talvez haja algo nisso também. De quem era? Eu suspeito...! Não, preciso descobrir!"
Pensou em Dúnia, dando-se conta de tudo o que ouvira, e o coração disparou, e de repente saiu em disparada.
Assim que Razumíkhin saiu, Raskólnikov levantou-se, virou-se para a janela, caminhou até um canto e depois até outro, como se esquecesse a pequenez do quarto, e sentou-se de novo no sofá. Sentia-se, por assim dizer, renovado; de novo a luta, então havia surgido uma saída.
"Sim, havia surgido uma saída! Tinha sido sufocante demais, apertado demais, o fardo fora angustiante demais. Uma letargia caíra sobre ele por vezes. Desde o instante da cena com Nikolai na casa de Porfiry, vinha sufocando, encurralado, sem esperança de fuga. Depois da confissão de Nikolai, naquele mesmo dia veio a cena com Sônia; seu comportamento e suas últimas palavras tinham sido completamente diferentes de tudo o que ele poderia ter imaginado de antemão; ficara mais fraco, na hora e por inteiro! E concordara, naquele momento, com Sônia, concordara no fundo do coração que não podia continuar vivendo sozinho com aquilo na consciência!"
"E Svidrigáilov era um enigma... Ele o preocupava, isso era verdade, mas de algum modo não pelo mesmo motivo. Talvez ainda tivesse pela frente uma luta com Svidrigáilov. Svidrigáilov, também, poderia ser uma saída; mas Porfiry era outra questão."
"E então o próprio Porfiry explicara aquilo a Razumíkhin, explicara psicologicamente. Voltara a meter em cena a maldita psicologia dele! Porfiry? Mas pensar que Porfiry pudesse por um instante acreditar que Nikolai era culpado, depois do que se passara entre eles antes de Nikolai aparecer, depois daquela conversa a sós, que só podia ter uma explicação?"
(Naqueles dias, Raskólnikov muitas vezes relembrara trechos daquela cena com Porfiry; não suportava deixar a mente deter-se nela.)
"Tais palavras, tais gestos haviam passado entre eles, tinham trocado tais olhares, coisas tinham sido ditas em tal tom e haviam chegado a tal ponto, que Nikolai, a quem Porfiry desvendara à primeira palavra, ao primeiro gesto, não poderia ter abalado a convicção dele."
"E pensar que até Razumíkhin começara a desconfiar! A cena no corredor, sob o lampião, produzira então o seu efeito. Ele correra até Porfiry.... Mas o que levara este a recebê-lo daquele jeito? Qual fora seu objetivo ao despistar Razumíkhin com a história de Nikolai? Devia ter algum plano; havia algum desígnio, mas qual? Era verdade que muito tempo se passara desde aquela manhã, tempo demais, e nenhum sinal nem notícia de Porfiry. Bem, isso era mau sinal...."
Raskólnikov pegou o boné e saiu do quarto, ainda matutando. Era a primeira vez em muito tempo que sentia ao menos a mente clara. "Preciso resolver o caso de Svidrigáilov", pensou, "e o mais depressa possível; ele também parece estar esperando que eu vá até ele por minha própria vontade." E naquele instante houve uma onda tão grande de ódio em seu coração cansado que ele poderia ter matado qualquer um dos dois, Porfiry ou Svidrigáilov. Ao menos sentiu que seria capaz de fazê-lo mais tarde, se não agora.
"Veremos, veremos", repetia consigo mesmo.
Mas mal abrira a porta e topou com o próprio Porfiry no corredor. Vinha justamente vê-lo. Raskólnikov ficou estarrecido por um minuto, mas só por um minuto. Por estranho que pareça, não se assustou muito ao ver Porfiry e quase não teve medo dele. Apenas se sobressaltou, mas logo, no mesmo instante, ficou em guarda. "Talvez isto signifique o fim? Mas como Porfiry pôde se aproximar tão silenciosamente, como um gato, sem que eu ouvisse nada? Será que esteve escutando à porta?"
"Você não esperava visita, Rodion Românovitch", explicou Porfiry, rindo. "Faz tempo que eu queria dar uma passada; eu estava passando e pensei: por que não entrar por cinco minutos? Você vai sair? Não vou tomar muito do seu tempo. Só me deixe fumar um cigarro."
"Sente-se, Porfiry Petróvitch, sente-se." Raskólnikov ofereceu ao visitante um assento com uma expressão tão satisfeita e amistosa que teria se espantado de si mesmo, se pudesse ter se visto.
Chegara o último momento, as últimas gotas tinham de ser bebidas! Assim um homem às vezes passa meia hora de terror mortal nas mãos de um bandido, mas, quando enfim a faca está em sua garganta, não sente medo.
Raskólnikov sentou-se bem de frente para Porfiry e olhou para ele sem vacilar. Porfiry apertou os olhos e começou a acender um cigarro.
"Fala, fala", parecia prestes a irromper do coração de Raskólnikov. "Vamos, por que você não fala?"