Crime e Castigo 16
Romance de 1866: o ex-estudante Raskólnikov mata uma velha penhorista para provar a si mesmo que é um homem "extraordinário", acima da lei moral, e desmorona sob a culpa até a prostituta Sônia, lendo a ressurreição de Lázaro, abrir-lhe o caminho da confissão e da regeneração
Parte II, Capítulo 1: A manhã seguinte ao crime e a intimação à delegacia
Assim ele ficou deitado por um tempo muito longo. De vez em quando parecia despertar, e nesses momentos percebia que a noite já ia alta, mas não lhe ocorria levantar. Por fim percebeu que começava a clarear. Estava deitado de costas, ainda atordoado pelo esquecimento recente. Gritos apavorados, desesperados, subiam estridentes da rua, sons que ele ouvia toda noite, na verdade, debaixo da janela depois das duas da madrugada. Agora o acordaram.
"Ah, os bêbados estão saindo das tabernas," pensou, "já passa das duas," e na mesma hora deu um salto, como se alguém o tivesse puxado do sofá. "O quê! Já passa das duas!"
Sentou-se no sofá, e num instante se lembrou de tudo! De repente, num clarão, lembrou-se de tudo.
No primeiro momento achou que estava enlouquecendo. Um frio terrível tomou conta dele; mas o frio vinha da febre que começara muito antes, durante o sono. Agora foi subitamente acometido por um tremor violento, a ponto de bater os dentes e de todos os seus membros estremecerem. Abriu a porta e ficou escutando: tudo na casa dormia. Com espanto, olhou para si mesmo e para tudo no quarto ao redor, sem entender como pudera entrar na noite anterior sem trancar a porta, e se jogar no sofá sem se despir, sem nem tirar o chapéu. Ele havia caído e estava no chão, perto do travesseiro.
"Se alguém tivesse entrado, o que teria pensado? Que estou bêbado, mas..."
Correu até a janela. Havia luz suficiente, e começou a se examinar às pressas de cima a baixo, toda a roupa: não havia vestígios? Mas não dava para fazer assim; tremendo de frio, começou a tirar tudo e a examinar de novo. Revirou tudo até o último fio e farrapo, e, desconfiado de si mesmo, repetiu a busca três vezes.
Mas parecia não haver nada, nenhum vestígio, exceto num lugar, onde algumas gotas grossas de sangue coagulado grudavam na barra puída da calça. Pegou um grande canivete e cortou os fios desfiados. Parecia não haver mais nada.
De repente lembrou que a bolsinha e as coisas que tirara da arca da velha ainda estavam nos seus bolsos! Até então não pensara em tirá-las e escondê-las! Não pensara nelas nem enquanto examinava a roupa! E agora? Num instante correu para tirá-las e jogá-las sobre a mesa. Quando puxou tudo, e virou o bolso do avesso para ter certeza de que não restava nada, levou o monte todo até o canto. O papel de parede tinha se soltado no rodapé e pendia ali em tiras. Começou a enfiar todas as coisas no buraco sob o papel: "Estão dentro! Tudo fora de vista, e a bolsinha também!" pensou, exultante, levantando-se e fitando com ar vazio o buraco, que se avolumava mais do que nunca. De súbito estremeceu inteiro de horror; "Meu Deus!" sussurrou em desespero, "o que há comigo? Isso é esconder? É assim que se escondem as coisas?"
Ele não tinha contado em ter joias para esconder. Pensara apenas em dinheiro, e por isso não preparara um esconderijo.
"Mas agora, agora, do que é que eu me alegro?" pensou. "Isso é esconder coisas? Minha razão está me abandonando, pura e simplesmente!"
Sentou-se no sofá, exausto, e logo foi sacudido por outro acesso insuportável de tremor. Maquinalmente puxou de uma cadeira ao lado o velho casacão de inverno dos tempos de estudante, ainda quente embora quase em farrapos, cobriu-se com ele e mais uma vez mergulhou em sonolência e delírio. Perdeu a consciência.
Não tinham passado mais de cinco minutos quando deu um pulo pela segunda vez e, na mesma hora, lançou-se feito louco de novo sobre as roupas.
"Como pude voltar a dormir sem ter feito nada? Sim, sim; não tirei a alça da cava! Esqueci, esqueci uma coisa dessas! Uma prova daquelas!"
Arrancou o laço, cortou-o às pressas em pedaços e jogou os retalhos no meio da roupa branca, debaixo do travesseiro.
"Pedaços de pano rasgado não despertariam suspeita, acontecesse o que acontecesse; acho que não, acho que não, de todo jeito!" repetia, de pé no meio do quarto, e com uma concentração dolorosa pôs-se a olhar ao redor de novo, para o chão e para todo lado, tentando se certificar de que não esquecera nada. A convicção de que todas as suas faculdades, até a memória, e a mais simples capacidade de reflexão, o estavam abandonando, começava a ser uma tortura insuportável.
"Será que já está começando! Será que é o meu castigo chegando? É isso!"
Os farrapos puídos que cortara da calça estavam mesmo no chão, no meio do quarto, onde qualquer um que entrasse os veria! "O que há comigo!" gritou de novo, como um homem fora de si.
Então uma ideia estranha lhe entrou na cabeça: que, talvez, toda a sua roupa estivesse coberta de sangue, que, talvez, houvesse muitíssimas manchas, mas que ele não as via, não as percebia, porque sua percepção estava falhando, indo aos pedaços... a razão se turvava... De repente lembrou que havia sangue na bolsinha também. "Ah! Então deve haver sangue no bolso também, pois enfiei a bolsinha molhada no bolso!"
Num relance virou o bolso do avesso e, sim! Havia vestígios, manchas no forro do bolso!
"Então a minha razão não me abandonou de todo, então ainda tenho algum juízo e memória, já que adivinhei isso sozinho," pensou, triunfante, com um profundo suspiro de alívio; "é só fraqueza da febre, um delírio de um instante," e arrancou todo o forro do bolso esquerdo da calça. Nesse instante a luz do sol caiu sobre a bota esquerda; na meia que despontava da bota, achou que havia vestígios! Atirou as botas longe; "vestígios, sim! A ponta da meia estava encharcada de sangue;" devia ter pisado, sem perceber, naquela poça... "Mas o que vou fazer com isso agora? Onde vou pôr a meia e os farrapos e o bolso?"
Juntou tudo nas mãos e ficou de pé no meio do quarto. "No fogão? Mas reviram o fogão antes de tudo. Queimar? Mas com o que vou queimar? Nem fósforos tem. Não, melhor sair e jogar tudo fora em algum lugar. Sim, melhor jogar fora," repetiu, sentando-se de novo no sofá, "e agora, neste minuto, sem demora..."
Mas a cabeça pendeu sobre o travesseiro em vez disso. De novo o tremor gélido e insuportável tomou conta dele; de novo puxou o casaco por cima. E por um longo tempo, por algumas horas, foi assombrado pelo impulso de "sair para algum lugar já, neste momento, e jogar tudo fora, para que sumisse de vista e acabasse, já, já!" Várias vezes tentou se erguer do sofá, mas não conseguiu.
Por fim acordou de vez com uma batida violenta na porta. "Abra logo, você está vivo ou morto? Ele fica dormindo aqui!" gritou Nastácia, esmurrando a porta. "Dias inteiros seguidos ele fica aqui roncando feito cachorro! E é um cachorro mesmo. Abra, estou mandando. Já passa das dez."
"Talvez ele não esteja em casa," disse uma voz de homem. "Ah! É a voz do porteiro... O que ele quer?"
Deu um pulo e sentou no sofá. As batidas do coração eram uma dor de verdade. "Então quem é que pôs a tranca na porta?" retrucou Nastácia. "Agora ele se deu de se trancar! Como se valesse a pena roubá-lo! Abra, seu bobo, acorde!"
"O que eles querem? Por que o porteiro? Está tudo descoberto. Resistir ou abrir? Aconteça o que acontecer!..."
Ergueu-se pela metade, inclinou-se para a frente e destrancou a porta. Seu quarto era tão pequeno que ele podia abrir a tranca sem sair da cama. Sim; o porteiro e Nastácia estavam ali.
Nastácia o encarou de um jeito estranho. Ele lançou um olhar desafiador e desesperado para o porteiro, que, sem uma palavra, estendeu um papel cinza dobrado e lacrado com cera de garrafa. "Uma notificação da repartição," anunciou, ao lhe entregar o papel.
"De que repartição?" "Uma intimação para a delegacia de polícia, ora. Você sabe qual repartição." "Para a polícia?... Por quê?..." "Como vou saber? Estão chamando você, então você vai."
O homem olhou para ele com atenção, correu os olhos pelo quarto e virou-se para sair. "Ele está mesmo doente!" observou Nastácia, sem tirar os olhos dele. O porteiro virou a cabeça por um instante. "Está com febre desde ontem," ela acrescentou.
Raskólnikov não respondeu e segurou o papel nas mãos, sem abri-lo. "Então não levante," continuou Nastácia, com compaixão, ao ver que ele começava a baixar os pés do sofá. "Você está doente, então não vá; não tem essa pressa toda. O que é que você tem aí?"
Ele olhou; na mão direita segurava os retalhos que cortara da calça, a meia e os farrapos do bolso. Então tinha dormido com aquilo na mão. Mais tarde, pensando no caso, lembrou que, meio acordado em meio à febre, agarrara tudo aquilo com força na mão e voltara a dormir assim.
"Olha só os trapos que ele juntou e dorme com eles, como se tivesse achado um tesouro..." E Nastácia caiu numa risadinha histérica.
Num instante ele enfiou tudo debaixo do casacão e fixou os olhos nela com intensidade. Por mais longe que estivesse de ser capaz de uma reflexão racional naquele momento, sentiu que ninguém agiria assim com uma pessoa que estava prestes a ser presa. "Mas... a polícia?"
"É melhor você tomar um chá! Quer? Eu trago, sobrou um pouco." "Não... eu vou; vou já," murmurou ele, pondo-se de pé. "Ora, você nunca vai conseguir descer a escada!" "Vou sim." "Como quiser." Ela saiu atrás do porteiro.
Na mesma hora ele correu para a luz para examinar a meia e os farrapos. "Tem manchas, mas não muito visíveis; tudo coberto de sujeira, esfregado e já descorado. Ninguém que não desconfiasse conseguiria distinguir nada. Nastácia, de longe, não poderia ter notado, graças a Deus!" Então, com um tremor, rompeu o lacre da notificação e começou a ler; levou um bom tempo lendo, antes de entender. Era uma intimação comum da delegacia do distrito para comparecer naquele dia, às nove e meia, à repartição do superintendente do distrito.
"Mas quando foi que aconteceu uma coisa dessas? Nunca tenho nada a ver com a polícia! E por que justo hoje?" pensou, numa perplexidade angustiante. "Meu Deus, que isso acabe logo!"
Estava se jogando de joelhos para rezar, mas caiu na gargalhada, não pela ideia da prece, mas de si mesmo.