Crime e Castigo 10

Romance de 1866: o ex-estudante Raskólnikov mata uma velha penhorista para provar a si mesmo que é um homem "extraordinário", acima da lei moral, e desmorona sob a culpa até a prostituta Sônia, lendo a ressurreição de Lázaro, abrir-lhe o caminho da confissão e da regeneração

Parte I, Capítulo 5: O sonho da égua espancada e o encontro na praça do Feno

“Claro, ando pensando ultimamente em procurar o Razumíkhin para pedir trabalho, pedir que ele me arranje aulas particulares ou algo assim...”, pensou Raskólnikov, “mas que ajuda ele pode me dar agora? Suponhamos que ele me consiga aulas, suponhamos que divida comigo o último tostão que tiver, se é que tem algum tostão, para eu comprar umas botas e me arrumar o suficiente para dar aulas... hum... E daí? E daí, o que eu vou fazer com os poucos copeques que ganhar? Não é disso que eu preciso agora. É realmente absurdo eu ir até o Razumíkhin....”
A pergunta sobre por que ele estava indo até o Razumíkhin agora o perturbava mais do que ele mesmo percebia; ficava, inquieto, procurando algum significado sinistro nessa ação aparentemente comum.
“Será que eu esperava resolver tudo e achar uma saída por meio do Razumíkhin?”, perguntou-se, perplexo.
Refletiu e esfregou a testa, e, por estranho que pareça, depois de longa meditação, de repente, como se fosse espontâneo e por acaso, um pensamento fantástico lhe veio à cabeça.
“Hum... ao Razumíkhin”, disse de repente, calmo, como se tivesse chegado a uma decisão final. “Vou ao Razumíkhin, claro, mas... não agora. Vou até ele... no dia seguinte Àquilo, quando Aquilo tiver acabado e tudo recomeçar do zero....”
E de repente percebeu o que estava pensando. “Depois Daquilo”, gritou, levantando-se de um salto do banco, “mas será que Aquilo vai mesmo acontecer? Será possível que mesmo acontecer?” Saiu do banco e foi embora quase correndo; pretendia voltar para casa, mas a ideia de ir para casa de repente o encheu de uma repulsa intensa; naquele buraco, naquele cubículo medonho, tudo aquilo vinha crescendo dentro dele havia um mês; e ele seguiu andando sem rumo.
Seu tremor nervoso tinha virado uma febre que o fazia tiritar; apesar do calor, sentia frio. Com certo esforço começou, quase inconscientemente, por algum impulso interior, a fitar todos os objetos diante dele, como se procurasse algo para distrair a atenção; mas não conseguia, e a cada instante recaía no devaneio. Quando, sobressaltado, erguia de novo a cabeça e olhava em volta, esquecia na hora o que acabara de pensar e até para onde estava indo.
Assim ele atravessou toda a ilha Vassílievski, saiu no Pequeno Nievá, cruzou a ponte e virou em direção às ilhas. O verde e o frescor a princípio acalmaram seus olhos cansados, depois da poeira da cidade e dos casarões enormes que o cercavam e o oprimiam. Ali não havia tavernas, nem aquele abafamento sufocante, nem fedor.
Mas logo essas sensações novas e agradáveis se transformaram numa irritação doentia. Às vezes ele parava diante de uma casa de veraneio de cores vivas plantada entre folhagens verdes, espiava por cima da cerca, via ao longe mulheres elegantes nas varandas e sacadas, e crianças correndo pelos jardins. As flores em especial chamavam sua atenção; ele as contemplava mais do que qualquer outra coisa.
Cruzavam com ele também carruagens luxuosas e homens e mulheres a cavalo; ele os observava com olhos curiosos e se esquecia deles antes mesmo que sumissem de vista. Uma vez parou e contou seu dinheiro; viu que tinha trinta copeques. “Vinte para o policial, três para a Nastácia pela carta, então devo ter dado quarenta e sete ou cinquenta aos Marmeládov ontem”, pensou, fazendo as contas por algum motivo desconhecido, mas logo esqueceu com que objetivo tirara o dinheiro do bolso.
Lembrou disso ao passar por uma casa de pasto, ou taverna, e sentiu que estava com fome.... Entrando na taverna, bebeu um copo de vodca e comeu uma espécie de torta. Terminou de comê-la enquanto se afastava. Fazia muito tempo que não tomava vodca, e o efeito veio na hora, embora tivesse bebido um cálice. As pernas de repente ficaram pesadas e uma grande sonolência tomou conta dele. Voltou para casa, mas, ao chegar à ilha Petróvski, parou completamente exausto, saiu da estrada e entrou no mato, afundou na grama e adormeceu na mesma hora.
Num estado doentio do cérebro, os sonhos muitas vezes têm uma nitidez singular, uma vivacidade e uma extraordinária aparência de realidade. Às vezes se criam imagens monstruosas, mas o cenário e o quadro inteiro são tão verossímeis e cheios de detalhes tão delicados, tão inesperados, mas tão artisticamente coerentes, que o sonhador, fosse ele um artista como Púchkin ou Turguêniev, jamais conseguiria inventá-los acordado. Sonhos doentios assim ficam sempre muito tempo na memória e causam forte impressão num sistema nervoso esgotado e perturbado.
Raskólnikov teve um sonho terrível. Sonhou que estava de volta à infância, na pequena cidade onde nascera. Era uma criança de uns sete anos, caminhando pelo campo com o pai na tarde de um feriado. Era um dia cinzento e pesado, o campo era exatamente como ele o lembrava; aliás, ele o recordava com muito mais nitidez no sonho do que jamais na memória.
A cidadezinha ficava numa planície chata, nua como a palma da mão, sem nem um salgueiro por perto; ao longe havia um bosque, uma mancha escura bem na borda do horizonte. A poucos passos da última horta ficava uma taverna, uma taverna grande, que sempre lhe despertara um sentimento de aversão, até de medo, quando passava por ela com o pai.
Sempre havia uma multidão ali, sempre gritaria, risadas e xingamentos, um canto rouco e horrível e, muitas vezes, brigas. Figuras bêbadas e de aspecto medonho rondavam a taverna. Ele costumava se agarrar bem ao pai, tremendo dos pés à cabeça quando cruzava com elas.
Perto da taverna a estrada virava uma trilha empoeirada, cuja poeira era sempre preta. Era uma estrada sinuosa e, uns cem passos adiante, virava à direita rumo ao cemitério. No meio do cemitério ficava uma igreja de pedra com uma cúpula verde, aonde ele ia à missa duas ou três vezes por ano com o pai e a mãe, quando se rezava em memória da avó, morta havia muito tempo, e que ele nunca tinha visto.
Nessas ocasiões eles costumavam levar, num prato branco amarrado num guardanapo, um tipo especial de arroz-doce com passas espetadas em forma de cruz. Ele amava aquela igreja, os ícones antigos e sem adornos e o velho padre de cabeça trêmula. Perto do túmulo da avó, marcado por uma pedra, ficava o pequeno túmulo do irmão mais novo, morto aos seis meses de idade. Ele não se lembrava dele de jeito nenhum, mas tinham lhe falado do irmãozinho, e sempre que visitava o cemitério ele, religiosa e reverentemente, fazia o sinal da cruz, se curvava e beijava o pequeno túmulo.
E agora sonhava que caminhava com o pai diante da taverna, a caminho do cemitério; segurava a mão do pai e olhava com pavor para a taverna. Uma circunstância peculiar lhe prendeu a atenção: parecia haver algum tipo de festança, havia multidões de gente da cidade vestida com alegria, camponesas, seus maridos e gentalha de toda espécie, todos cantando e todos mais ou menos bêbados. Perto da entrada da taverna havia uma carroça, mas uma carroça estranha.
Era uma daquelas carroças grandes, em geral puxadas por pesados cavalos de carga e carregadas de barris de vinho ou outras mercadorias pesadas. Ele sempre gostava de olhar aqueles grandes cavalos de carga, com suas crinas longas, pernas grossas e passo lento e regular, arrastando uma verdadeira montanha sem aparência de esforço, como se fosse mais fácil andar com carga do que sem ela. Mas agora, por estranho que pareça, nos varais de uma carroça dessas ele viu um pangaré magro e baixinho, alazão, um daqueles rocins de camponês que ele tantas vezes vira se esforçando ao máximo sob uma carga pesada de lenha ou feno, sobretudo quando as rodas atolavam na lama ou num sulco. E os camponeses os surravam com tanta crueldade, às vezes até no focinho e nos olhos, que ele sentia tanta pena, tanta pena deles, que quase chorava, e a mãe sempre o tirava da janela.
De repente houve um grande alvoroço de gritaria, canto e balalaica, e da taverna saiu um bando de camponeses grandalhões e muito bêbados, de camisas vermelhas e azuis e casacos jogados sobre os ombros.
“Subam, subam!”, gritou um deles, um camponês jovem de pescoço grosso, rosto carnudo e vermelho como uma cenoura. “Levo todo mundo, subam!”
Mas na mesma hora explodiram risadas e gritos na multidão. “Levar todo mundo com um bicho desses!” “Mikolka, você ficou louco de pôr um pangaré desses numa carroça dessas?” “E essa égua tem pelo menos vinte anos, gente!”
“Subam, levo todo mundo”, gritou Mikolka de novo, pulando primeiro para dentro da carroça, agarrando as rédeas e ficando de pé, bem reto, na frente. “O baio foi com o Matvei”, gritou de cima da carroça, “e esse animal, gente, está me partindo o coração, é como se eu pudesse matá-la. Ela come à toa. Subam, estou mandando! Vou fazer ela galopar! Ela vai galopar!” E pegou o chicote, preparando-se com gosto para açoitar a eguinha.
“Subam! Vamos!” A multidão ria. “Ouviram, ela vai galopar!” “Galopar essa daí! faz dez anos que ela não um galope!” “Ela vai é se arrastar!” “Não liguem pra ela, gente, cada um traz um chicote, preparem-se!” “Isso! Mete o pau nela!”
Todos treparam na carroça do Mikolka, rindo e fazendo piada. Seis homens subiram e ainda havia lugar para mais. Içaram uma mulher gorda, de bochechas rosadas. Estava vestida de algodão vermelho, com um toucado pontudo bordado de contas e sapatos grossos de couro; quebrava nozes e ria. A multidão em volta ria também e, afinal, como não rir? Aquele pangaré miserável é que ia arrastar toda aquela carroça lotada a galope!
Dois rapazes na carroça preparavam os chicotes para ajudar o Mikolka. Ao grito de “vai!”, a égua puxou com todas as forças, mas, longe de galopar, mal conseguia avançar; debatia-se com as pernas, ofegante, encolhendo-se sob os golpes dos três chicotes que caíam sobre ela como granizo. As risadas na carroça e na multidão dobraram, mas Mikolka entrou em fúria e açoitou a égua com violência, como se imaginasse que ela realmente podia galopar.
“Me deixem subir também, gente”, gritou um rapaz na multidão, com o apetite aguçado. “Subam, subam todos”, gritou Mikolka, “ela puxa todos vocês. Vou matá-la de tanto bater!” E batia e batia na égua, fora de si de tanta fúria.
“Pai, pai”, gritou o menino, “pai, o que eles estão fazendo? Pai, eles estão batendo no pobre cavalo!”
“Vem, vem comigo!”, disse o pai. “Estão bêbados e bobos, é brincadeira; vem embora, não olha!” E tentou puxá-lo, mas ele se desvencilhou da mão do pai e, fora de si de horror, correu até o cavalo. O pobre animal estava em mau estado. Ofegava, parado, depois puxava de novo e quase caía.
“Matem ela de tanto bater”, gritou Mikolka, “já chegou a esse ponto. Eu dou um fim nela!” “O que é isso, você é cristão ou é o diabo?”, gritou um velho na multidão.
“Alguém viu coisa igual? Um pangaré miserável desses puxando uma carga dessas”, disse outro. “Você vai matar ela”, gritou um terceiro.
“Não se metam! É minha propriedade, faço o que eu quiser. Subam, mais gente! Subam, todos vocês! Eu vou fazer ela ir a galope!...”
De repente as risadas viraram um estrondo e abafaram tudo: a égua, irritada pela chuva de golpes, começou a dar coices fracos. Até o velho não conseguiu segurar o sorriso. Imaginem uma bestinha miserável daquelas tentando dar coice!
Dois rapazes na multidão pegaram chicotes e correram até a égua para bater nas costelas dela. Um foi de cada lado. “Bate na cara, nos olhos, nos olhos!”, gritou Mikolka.