Crime e Castigo 71
Romance de 1866: o ex-estudante Raskólnikov mata uma velha penhorista para provar a si mesmo que é um homem "extraordinário", acima da lei moral, e desmorona sob a culpa até a prostituta Sônia, lendo a ressurreição de Lázaro, abrir-lhe o caminho da confissão e da regeneração
Parte V, Capítulo 5: A loucura de Katerina Ivánovna nas ruas
Lebeziátnikov parecia perturbado.
"Vim procurá-la, Sófia Semiónovna", começou ele. "Desculpe... Achei que a encontraria aqui", disse, dirigindo-se de repente a Raskólnikov, "quer dizer, eu não quis dizer nada... desse tipo... Mas pensei comigo... Katerina Ivánovna enlouqueceu", soltou de súbito, voltando-se de Raskólnikov para Sônia.
Sônia deu um grito.
"Pelo menos é o que parece. Mas... a gente não sabe o que fazer, entende! Ela voltou, parece que a expulsaram de algum lugar, talvez tenham até batido nela.... É o que parece, pelo menos.... Tinha corrido até o antigo chefe do seu pai, não o encontrou em casa: ele jantava na casa de outro general.... Imagine só, ela disparou pra lá, pra casa do outro general, e, imagine, foi tão insistente que conseguiu que o chefe a recebesse, mandou chamá-lo do jantar, parece. Você pode imaginar o que aconteceu. Foi expulsa, claro; mas, segundo ela mesma conta, xingou o homem e atirou alguma coisa nele. Dá pra acreditar.... Como é que não a prenderam, não consigo entender!"
"Agora ela está contando pra todo mundo, inclusive pra Amália Ivánovna; mas é difícil entendê-la, ela grita e se debate toda.... Ah, sim, ela berra que, já que todos a abandonaram, vai pegar as crianças e sair na rua com um realejo, e as crianças vão cantar e dançar, e ela também, e vão juntar dinheiro, e vai ficar todo dia debaixo da janela do general... 'pra que todos vejam crianças bem-nascidas, de pai funcionário, mendigando na rua.'"
"Ela vive batendo nas crianças e elas vivem chorando. Está ensinando Lida a cantar 'Minha Aldeia', o menino a dançar, Pólienka idem. Está rasgando todas as roupas e fazendo gorrinhos com elas, como os de ator; quer carregar uma bacia de lata e fazê-la tinir, no lugar de música.... Não escuta nada do que se diz.... Imagine a situação! Está além de tudo!"
Lebeziátnikov teria continuado, mas Sônia, que o ouvira quase sem fôlego, agarrou a capa e o chapéu e saiu correndo do quarto, vestindo-se pelo caminho. Raskólnikov foi atrás dela e Lebeziátnikov veio atrás dele.
"Ela enlouqueceu de vez!", disse a Raskólnikov, quando saíram para a rua. "Eu não quis assustar a Sófia Semiónovna, por isso falei que 'parecia ser', mas não há a menor dúvida. Dizem que na tísica os tubérculos às vezes se formam no cérebro; pena que eu não entenda nada de medicina. Tentei argumentar com ela, mas ela não quis ouvir."
"Você falou com ela sobre os tubérculos?"
"Não exatamente dos tubérculos. Aliás, ela nem teria entendido! Mas o que eu digo é o seguinte: se você convence uma pessoa, de forma lógica, de que ela não tem motivo pra chorar, ela para de chorar. Isso é claro. Você acha mesmo que ela não pararia?"
"A vida seria fácil demais se fosse assim", respondeu Raskólnikov.
"Desculpe, desculpe; claro que seria meio difícil pra Katerina Ivánovna entender, mas você sabe que em Paris andaram fazendo experiências sérias sobre a possibilidade de curar os loucos só pelo argumento lógico? Um professor de lá, um homem de ciência respeitado, morto há pouco, acreditava na possibilidade desse tratamento. A ideia dele era que não há nada de errado no organismo físico dos loucos, e que a loucura é, por assim dizer, um erro de lógica, um erro de julgamento, uma visão incorreta das coisas. Ele ia aos poucos mostrando ao louco o seu erro e, acredite, dizem que teve sucesso! Mas como usava duchas também, fica incerto o quanto do sucesso veio desse tratamento.... É o que parece, pelo menos."
Raskólnikov havia muito deixara de escutar. Ao chegar à casa onde morava, fez um aceno de cabeça a Lebeziátnikov e entrou pelo portão. Lebeziátnikov se sobressaltou, olhou em volta e apressou o passo.
Raskólnikov entrou no seu quartinho e ficou parado no meio dele. Por que tinha voltado pra cá? Olhou o papel de parede amarelo e esfarrapado, a poeira, o seu sofá.... Do pátio vinha uma batida alta e contínua; alguém parecia martelar algo... Foi até a janela, ficou na ponta dos pés e olhou para o pátio por um longo tempo, com um ar de atenção absorta. Mas o pátio estava vazio e ele não conseguia ver quem martelava. Na casa à esquerda viu algumas janelas abertas; nos parapeitos havia vasos de gerânios doentios. Roupas pendiam das janelas... Ele sabia tudo aquilo de cor. Virou-se e sentou no sofá.
Nunca, nunca se sentira tão pavorosamente sozinho!
Sim, sentiu mais uma vez que talvez viesse a odiar Sônia, agora que a tornara ainda mais infeliz.
"Por que foi procurá-la pra implorar pelas lágrimas dela? Que necessidade tinha de envenenar a vida dela? Ah, que baixeza!"
"Vou ficar sozinho", disse com firmeza, "e ela não irá à prisão!"
Cinco minutos depois, ergueu a cabeça com um sorriso estranho. Era um pensamento estranho.
"Talvez fosse mesmo melhor na Sibéria", pensou de repente.
Não saberia dizer quanto tempo ficou ali sentado, com pensamentos vagos rodopiando na mente. De repente a porta se abriu e Dúnia entrou. No início parou e ficou olhando pra ele da porta, exatamente como ele fizera com Sônia; depois entrou e sentou no mesmo lugar de ontem, na cadeira de frente pra ele. Ele a olhou em silêncio e quase sem expressão.
"Não fique zangado, irmão; só vim por um minuto", disse Dúnia.
O rosto dela parecia pensativo, mas não severo. Os olhos estavam claros e suaves. Ele viu que ela também viera até ele com amor.
"Irmão, agora eu sei de tudo, tudo. Dmítri Prokófitch me explicou e me contou tudo. Estão atormentando e perseguindo você por uma suspeita estúpida e desprezível.... Dmítri Prokófitch me disse que não há perigo, e que você está errado em encarar isso com tanto horror. Eu não penso assim, e entendo perfeitamente o quanto você deve estar indignado, e que essa indignação pode deixar marcas permanentes em você. É disso que eu tenho medo."
"Quanto a você ter se afastado de nós, eu não te julgo, não me atrevo a te julgar, e me perdoe por ter te censurado por isso. Sinto que eu também, se tivesse um sofrimento tão grande, me afastaria de todos. Não vou contar nada disso à mamãe, mas vou falar de você o tempo todo e vou dizer a ela, da sua parte, que você vai aparecer logo. Não se preocupe com ela; eu vou acalmá-la; mas você também não a faça sofrer demais, vá vê-la pelo menos uma vez; lembre que ela é a sua mãe."
"E agora vim só pra dizer" (Dúnia começou a se levantar) "que, se você precisar de mim ou precisar... da minha vida inteira ou de qualquer coisa... me chame, e eu venho. Adeus!"
Ela se virou bruscamente e foi em direção à porta.
"Dúnia!" Raskólnikov a deteve e foi até ela. "Esse Razumíkhin, o Dmítri Prokófitch, é um sujeito muito bom."
Dúnia corou de leve.
"E daí?", perguntou ela, esperando um instante.
"Ele é competente, trabalhador, honesto e capaz de amar de verdade.... Adeus, Dúnia."
Dúnia ficou vermelha como brasa, depois de repente se assustou.
"Mas o que isso quer dizer, irmão? Será que estamos mesmo nos separando pra sempre, pra você... me dar uma despedida dessas?"
"Não é nada.... Adeus."
Ele se virou e caminhou até a janela. Ela ficou um momento, olhou pra ele com inquietação e saiu perturbada.
Não, ele não era frio com ela. Houve um instante (o último de todos) em que desejou tomá-la nos braços e se despedir dela, e até dizer a ela, mas não ousou sequer tocar na sua mão.
"Depois ela pode estremecer ao lembrar que eu a abracei, e vai sentir que roubei o beijo dela."
"E será que ela aguentaria essa prova?", continuou pensando consigo mesmo alguns minutos depois. "Não, não aguentaria; meninas assim não suportam essas coisas! Nunca suportam."
E pensou em Sônia.
Vinha um sopro de ar fresco da janela. A luz do dia ia se apagando. Pegou o boné e saiu.