Crime e Castigo 28

Romance de 1866: o ex-estudante Raskólnikov mata uma velha penhorista para provar a si mesmo que é um homem "extraordinário", acima da lei moral, e desmorona sob a culpa até a prostituta Sônia, lendo a ressurreição de Lázaro, abrir-lhe o caminho da confissão e da regeneração

Parte II, Capítulo 6 (continuação)

"Escute, você é um homem de cultura e instrução?" "Fiz até a sexta série no ginásio", disse Zamiótov com certa dignidade. "Sexta série! Ah, meu pardalzinho! Com essa risca no cabelo e esses anéis, você é um cavalheiro de posses. Bah! que menino encantador!" Aqui Raskólnikov caiu numa risada nervosa bem na cara de Zamiótov. Este recuou, mais espantado do que ofendido. "Bah! como você está esquisito!", repetiu Zamiótov com toda a seriedade. "Não consigo deixar de achar que você ainda está delirando." "Eu, delirando? Você está mentindo, meu pardalzinho! Então estou esquisito? Você me acha curioso, é isso?"
"Acho, curioso." "Quer que eu te diga o que eu estava lendo, o que eu estava procurando? Veja quantos jornais eu mandei trazerem. Suspeito, hein?" "Bom, o que é?" "Você fica de orelha em pé?" "Como assim, 'de orelha em pé'?"
"Isso eu explico depois, mas agora, meu rapaz, declaro a você... não, melhor, 'confesso'... Não, também não é bem isso; 'presto um depoimento e você toma por escrito'. Deponho que eu estava lendo, que estava olhando e procurando...", apertou os olhos e fez uma pausa. "Eu estava procurando, e vim aqui de propósito para isso, notícias do assassinato da velha penhorista", articulou enfim, quase num sussurro, aproximando demais o rosto do rosto de Zamiótov. Zamiótov olhou-o fixamente, sem se mexer nem afastar o rosto. O que mais tarde pareceu a Zamiótov a parte mais estranha de tudo foi que se seguiu um silêncio de exatamente um minuto, e que durante todo esse tempo os dois se encararam.
"E daí se você andou lendo sobre isso?", exclamou ele enfim, perplexo e impaciente. "Não é da minha conta! E daí?" "A mesma velha", continuou Raskólnikov no mesmo sussurro, sem ligar para a explicação de Zamiótov, "de quem você falava na delegacia, lembra, quando eu desmaiei. Então, entende agora?" "Como assim? Entender... o quê?", soltou Zamiótov, quase alarmado.
O rosto sério e tenso de Raskólnikov de repente se transformou, e ele subitamente caiu na mesma risada nervosa de antes, como se fosse incapaz de se conter. E num relâmpago lembrou-se, com extraordinária vivacidade de sensação, de um momento do passado recente, aquele momento em que ele estava de com o machado atrás da porta, enquanto o trinco estremecia e os homens fora xingavam e a sacudiam, e ele teve um súbito desejo de gritar com eles, de xingá-los, de mostrar a língua, de zombar deles, de rir, e rir, e rir!
"Ou você está louco, ou...", começou Zamiótov, e parou, como atordoado pela ideia que de repente lhe relampejara na cabeça. "Ou? Ou o quê? O quê? Vamos, fale!" "Nada", disse Zamiótov, ficando irritado, tudo bobagem!"
Os dois ficaram calados. Depois do súbito acesso de riso, Raskólnikov ficou de repente pensativo e melancólico. Apoiou o cotovelo na mesa e descansou a cabeça na mão. Parecia ter esquecido Zamiótov por completo. O silêncio durou um bom tempo.
"Por que você não toma o seu chá? Está esfriando", disse Zamiótov. "O quê! Chá? Ah, sim..." Raskólnikov bebeu um gole do copo, levou um pedaço de pão à boca e, olhando de súbito para Zamiótov, pareceu lembrar de tudo e se recompôs. No mesmo instante seu rosto retomou a expressão zombeteira de antes. Continuou a tomar o chá.
"Tem havido muitos crimes desses ultimamente", disse Zamiótov. "Outro dia mesmo li no Jornal de Moscou que prenderam uma quadrilha inteira de falsários em Moscou. Era uma verdadeira sociedade. Falsificavam títulos!" "Ah, mas isso faz tempo! Li sobre isso um mês", respondeu Raskólnikov com calma. "Então você os considera criminosos?", acrescentou, sorrindo. "Claro que são criminosos." "Eles? São crianças, simplórios, não criminosos! Ora, cinquenta pessoas se reunindo para um plano desses, que ideia! Três seria gente demais, e ainda por cima precisam confiar mais um no outro do que em si mesmos! Basta um deixar escapar de bêbado e tudo desmorona. Simplórios! Contrataram gente de pouca confiança para trocar as notas, que coisa para se confiar a um estranho qualquer! Bom, vamos supor que esses simplórios deem certo e cada um ganhe um milhão; e o que resta deles pelo resto da vida? Cada um fica dependendo dos outros pelo resto da vida! Melhor se enforcar de uma vez! E nem souberam trocar as notas; o homem que trocava as notas pegou cinco mil rublos, e as mãos lhe tremeram. Contou os primeiros quatro mil, mas não contou o quinto mil, de tão apressado que estava para meter o dinheiro no bolso e fugir. Claro que despertou suspeita. E a coisa toda veio abaixo por causa de um idiota! É possível uma coisa dessas?"
"Que as mãos dele tremeram?", observou Zamiótov. "É, isso é bem possível. Disso eu tenho certeza, é possível. Às vezes a gente não aguenta certas coisas." "Não aguenta isso?" "Ora, você aguentaria? Eu não. Por cem rublos, encarar uma experiência tão terrível? Ir com notas falsas a um banco, onde o trabalho deles é justamente farejar esse tipo de coisa? Não, eu não teria cara para isso. E você teria?" Raskólnikov teve de novo um desejo intenso de "mostrar a língua". Calafrios percorriam-lhe a espinha sem parar.
"Eu faria de um jeito completamente diferente", começou Raskólnikov. "Eis como eu trocaria as notas: contaria o primeiro milheiro três ou quatro vezes, de trás para frente e de frente para trás, olhando cada nota, e passaria ao segundo milheiro; contaria até a metade dele e então levantaria alguma nota de cinquenta rublos contra a luz, depois viraria, depois levantaria contra a luz de novo, para ver se era boa. 'Tenho medo', diria eu, 'um parente meu perdeu vinte e cinco rublos outro dia por causa de uma nota falsa', e contaria a eles a história inteira. E depois de começar a contar o terceiro, 'Não, desculpe', diria eu, 'acho que me enganei na sétima centena daquele segundo milheiro, não tenho certeza'. E assim largaria o terceiro milheiro e voltaria ao segundo, e por até o fim. E quando tivesse terminado, separaria uma nota do quinto e uma do segundo milheiro e as levaria de novo à luz e perguntaria outra vez, 'Troque-as, por favor', e deixaria o funcionário em tal aperto que ele não saberia como se livrar de mim. Quando tivesse terminado e saído, eu voltaria, 'Não, desculpe', e pediria mais uma explicação. É assim que eu faria."
"Bah! que coisas terríveis você diz!", disse Zamiótov, rindo. "Mas isso tudo é conversa. Aposto que, na hora de agir, você daria um vacilo. Acho que até um homem treinado e desesperado nem sempre pode contar consigo mesmo, quanto mais nós dois. Para dar um exemplo aqui perto, aquela velha assassinada no nosso distrito. O assassino parece ter sido um sujeito desesperado, arriscou tudo em plena luz do dia, salvou-se por milagre, mas as mãos dele também tremeram. Não conseguiu roubar o lugar, não aguentou. Ficou claro pelo..."
Raskólnikov pareceu ofendido. "Claro? Então por que vocês não o pegam?", exclamou, alfinetando Zamiótov com malícia. "Bom, vão pegar." "Quem? Você? Acha que conseguiria pegá-lo? Tem trabalho duro pela frente! Para vocês o que importa é se um sujeito está gastando dinheiro ou não. Se ele não tinha dinheiro e de repente começa a gastar, tem que ser o homem. De modo que qualquer criança engana vocês."
"Mas o fato é que eles sempre fazem isso", respondeu Zamiótov. "Um homem comete um assassinato esperto, arriscando a própria vida, e logo em seguida vai beber numa taverna. São pegos gastando dinheiro, não são todos espertos como você. Você não iria a uma taverna, claro?" Raskólnikov franziu a testa e olhou fixamente para Zamiótov. "Pelo visto você gosta do assunto e gostaria de saber como eu me comportaria também nesse caso?", perguntou, contrariado. "Eu gostaria", respondeu Zamiótov, firme e sério. Uma seriedade um tanto excessiva começava a aparecer em suas palavras e em seu olhar. "Muito?" "Muito!"
"Pois bem. É assim que eu me comportaria", começou Raskólnikov, aproximando de novo o rosto do de Zamiótov, encarando-o outra vez e falando num sussurro, de modo que o outro positivamente estremeceu. "Eis o que eu teria feito. Eu teria pegado o dinheiro e as joias, teria saído dali e ido direto para algum lugar deserto, cercado de muros e com quase ninguém à vista, alguma horta ou coisa parecida. Teria localizado de antemão alguma pedra de uns cinquenta quilos ou mais, dessas que ficam num canto desde que a casa foi construída. Eu levantaria essa pedra, com certeza haveria um buraco embaixo dela, e poria as joias e o dinheiro nesse buraco. Depois rolaria a pedra de volta, para ficar como antes, apertaria com o e iria embora. E por um ano ou dois, três quem sabe, eu não tocaria nela. E aí, podiam procurar! Não haveria vestígio nenhum."
"Você é um louco", disse Zamiótov, e por algum motivo falou também num sussurro, e afastou-se de Raskólnikov, cujos olhos faiscavam. Ele tinha ficado terrivelmente pálido, e o lábio superior se contraía e tremia. Inclinou-se o mais perto possível de Zamiótov, e seus lábios começaram a se mover sem dizer palavra. Isso durou meio minuto; ele sabia o que estava fazendo, mas não conseguia se conter. A palavra terrível tremia em seus lábios, como o trinco daquela porta; em mais um instante ela vai irromper, em mais um instante ele vai soltá-la, vai dizê-la.
"E se fui eu que matei a velha e a Lizavéta?", disse de repente, e percebeu o que tinha feito.
Zamiótov olhou-o com espanto e ficou branco como a toalha da mesa. Seu rosto esboçou um sorriso contorcido. "Mas é possível?", soltou debilmente. Raskólnikov olhou-o com fúria. "Confesse que você acreditou, sim, acreditou?" "Nem um pouco, agora acredito menos do que nunca", exclamou Zamiótov às pressas.
"Peguei meu pardalzinho! Então você acreditava antes, que agora acredita menos do que nunca?" "De jeito nenhum", exclamou Zamiótov, claramente constrangido. "Você esteve me assustando esse tempo todo para chegar nisso?" "Então você não acredita? E do que você estava falando pelas minhas costas quando saí da delegacia? E por que o tenente Pólvora me interrogou depois que desmaiei? Ei, você aí", gritou para o garçom, levantando-se e pegando o boné, "quanto é?" "Trinta copeques", respondeu o outro, vindo correndo. "E aqui vão vinte copeques de gorjeta. Veja quanto dinheiro!" Estendeu a Zamiótov a mão trêmula com as notas. "Notas vermelhas e azuis, vinte e cinco rublos. De onde tirei isto? E de onde vieram minhas roupas novas? Você sabe que eu não tinha um copeque. Aposto que interrogou minha senhoria... Bom, chega! Assez causé! Até a próxima!"
Saiu, tremendo dos pés à cabeça numa espécie de sensação histérica e selvagem, na qual havia um elemento de arrebatamento insuportável. Mesmo assim estava sombrio e terrivelmente cansado. Seu rosto estava crispado como depois de um ataque. O cansaço crescia rapidamente. Qualquer choque, qualquer sensação irritante estimulava e reanimava suas energias na hora, mas suas forças cediam com a mesma rapidez assim que o estímulo passava.
Zamiótov, deixado sozinho, ficou muito tempo no mesmo lugar, mergulhado em pensamentos. Sem querer, Raskólnikov tinha provocado uma revolução em sua cabeça num certo ponto, e decidira a questão por ele de uma vez por todas. "Iliá Petróvitch é um cabeça-dura", concluiu.
Mal Raskólnikov tinha aberto a porta do restaurante, esbarrou em Razumíkhin na escada. se viram quando quase trombaram um no outro. Por um instante ficaram parados, medindo-se de alto a baixo. Razumíkhin ficou estupefato, e então a raiva, raiva de verdade, faiscou ferozmente em seus olhos. "Então é aqui que você está!", gritou a plenos pulmões. "Você fugiu da cama! E eu te procurando embaixo do sofá! Subimos até o sótão. Quase bati na Nastácia por sua causa. E ele está aqui, afinal. Ródia! O que significa isso? Me conte toda a verdade! Confesse! Está me ouvindo?"
"Significa que estou de saco cheio de todos vocês e quero ficar sozinho", respondeu Raskólnikov com calma. "Sozinho? Você nem consegue andar, está com o rosto branco feito um lençol e ofegando! Idiota!... O que você foi fazer no Palais de Cristal? Confessa agora mesmo!" "Me deixa em paz!", disse Raskólnikov, e tentou passar por ele. Foi demais para Razumíkhin; agarrou-o com firmeza pelo ombro. "Te deixar em paz? Você se atreve a me mandar te deixar em paz? Sabe o que vou fazer com você agora mesmo? Vou te pegar no colo, te amarrar feito uma trouxa, te carregar para casa debaixo do braço e te trancar!"