Crime e Castigo 1
Romance de 1866: o ex-estudante Raskólnikov mata uma velha penhorista para provar a si mesmo que é um homem "extraordinário", acima da lei moral, e desmorona sob a culpa até a prostituta Sônia, lendo a ressurreição de Lázaro, abrir-lhe o caminho da confissão e da regeneração
Parte I, Capítulo 1: Um rapaz em farrapos faz um ensaio na casa da velha penhorista
Numa tarde excepcionalmente quente do começo de julho, um rapaz saiu do cubículo que alugava na travessa S. e caminhou devagar, como que hesitante, em direção à ponte K.
Conseguira evitar com sucesso encontrar a senhoria na escada. Seu sótão ficava bem embaixo do telhado de um prédio alto, de cinco andares, e mais parecia um armário do que um quarto. A senhoria, que lhe fornecia o sótão, as refeições e o serviço, morava no andar de baixo, e toda vez que ele saía era obrigado a passar pela cozinha dela, cuja porta vivia invariavelmente aberta.
E a cada vez que passava, o rapaz tinha uma sensação doentia, assustada, que o fazia franzir a testa e sentir vergonha. Estava irremediavelmente endividado com a senhoria e temia encontrá-la.
Não era por ser covarde e mesquinho, muito pelo contrário; mas havia algum tempo vivia num estado de irritação excessiva, beirando a hipocondria. Mergulhara tão por completo em si mesmo, tão isolado dos semelhantes, que temia encontrar não só a senhoria, mas qualquer pessoa que fosse.
A pobreza o esmagava, mas ultimamente as angústias da sua situação tinham deixado de pesar sobre ele. Abandonara os assuntos de importância prática; perdera toda vontade de cuidar deles. Nada que uma senhoria pudesse fazer lhe causava verdadeiro pavor.
Mas ser interceptado na escada, ser forçado a ouvir a tagarelice trivial e descabida dela, as cobranças insistentes, as ameaças e as queixas, e ter de torturar a cabeça em busca de desculpas, de evasivas, de mentiras: não, em vez disso, melhor descer a escada de mansinho como um gato e escapulir sem ser visto.
Naquela tarde, no entanto, ao sair para a rua, ele se deu conta com nitidez dos seus medos.
"Quero tentar uma coisa daquele tipo e me assusto com essas ninharias", pensou ele, com um sorriso estranho. "Hum... sim, tudo está nas mãos do homem, e ele deixa tudo escapar por covardia, isso é um axioma. Seria interessante saber o que os homens mais temem. Dar um passo novo, pronunciar uma palavra nova: é disso que eles mais têm medo... Mas estou falando demais. É porque tagarelo que não faço nada. Ou talvez seja que tagarelo porque não faço nada. Aprendi a tagarelar neste último mês, deitado dias a fio no meu covil, pensando... no João Matador de Gigantes. Por que estou indo lá agora? Sou capaz daquilo? Aquilo é sério? Não é nada sério. É só uma fantasia para me divertir; um brinquedo! Sim, talvez seja um brinquedo."
O calor na rua estava terrível, e a falta de ar, o reboliço, o gesso, os andaimes, os tijolos e a poeira por toda parte, e aquele fedor especial de Petersburgo, tão familiar a todos os que não conseguem deixar a cidade no verão: tudo isso atuava de modo doloroso sobre os nervos já esgotados do rapaz. O fedor insuportável das tabernas, especialmente numerosas naquela parte da cidade, e os bêbados que ele cruzava sem parar, embora fosse dia de trabalho, completavam a repugnante miséria do quadro.
Uma expressão do mais profundo nojo reluziu por um instante no rosto fino do rapaz. Aliás, ele era excepcionalmente bonito, acima da altura média, esguio, bem constituído, com belos olhos escuros e cabelos castanho-escuros.
Logo afundou num pensamento profundo, ou, falando com mais exatidão, num completo vazio mental; caminhava sem observar o que havia à sua volta, e sem nenhuma vontade de observar. De tempos em tempos murmurava algo, pelo hábito de falar consigo mesmo que ele acabara de admitir. Nesses momentos se dava conta de que suas ideias às vezes se embaralhavam e de que estava muito fraco; havia dois dias mal provara comida.
Estava tão mal vestido que até um homem acostumado a roupas surradas teria vergonha de ser visto na rua com tais trapos. Naquele bairro, no entanto, dificilmente algum desleixo no traje causaria espanto. Por causa da proximidade da praça do Feno, do número de estabelecimentos de má reputação, da predominância da população de comerciantes e trabalhadores amontoada nessas ruas e vielas no coração de Petersburgo, viam-se tipos tão variados que nenhuma figura, por mais esquisita, provocaria surpresa.
Mas havia tamanha amargura acumulada e tamanho desprezo no coração do rapaz que, apesar de toda a vaidade própria da juventude, os trapos eram o que menos o incomodava na rua. Outra coisa era quando ele se deparava com conhecidos ou antigos colegas de faculdade, que, na verdade, ele não gostava de encontrar em momento algum.
E, no entanto, quando um bêbado que, por algum motivo desconhecido, estava sendo levado a algum lugar numa enorme carroça puxada por um pesado cavalo de carga, de repente gritou para ele ao passar: "Ei, você aí, chapeleiro alemão!", berrando a plenos pulmões e apontando para ele, o rapaz parou de súbito e agarrou o chapéu, trêmulo. Era um chapéu alto e redondo da Zimmerman, mas completamente gasto, encardido pelo tempo, todo rasgado e respingado de sujeira, sem aba e amassado de um lado de um jeito de todo impróprio. Não foi vergonha, e sim um sentimento bem diverso, próximo do terror, que se apoderou dele.
"Eu sabia", murmurou ele, confuso, "eu já imaginava! Isso é o pior de tudo! Ora, uma coisa boba como essa, o detalhe mais trivial, pode estragar o plano inteiro. Sim, meu chapéu é chamativo demais... Parece absurdo, e isso o torna chamativo... Com estes trapos eu devia usar um boné, um trambolho velho qualquer, mas não esta coisa grotesca. Ninguém usa um chapéu assim, ele seria notado a um quilômetro de distância, ficaria na memória... O que importa é que as pessoas iam se lembrar dele, e isso lhes daria uma pista. Para este assunto, é preciso chamar o mínimo de atenção possível... Ninharias, são as ninharias que importam! Ora, são justamente essas ninharias que sempre estragam tudo..."
Não tinha muito o que andar; sabia até quantos passos havia do portão da sua pensão: exatamente setecentos e trinta. Contara-os uma vez, quando estava perdido em devaneios. Na ocasião, ele não dava nenhum crédito àqueles devaneios, e apenas se atormentava com a temeridade deles, hedionda mas audaciosa.
Agora, um mês depois, começara a encará-los de outro modo e, apesar dos monólogos em que zombava da própria impotência e indecisão, passara involuntariamente a ver aquele devaneio "hediondo" como um feito a ser tentado, embora ainda nem ele próprio percebesse isso. Estava de fato indo agora a um "ensaio" do seu projeto, e a cada passo a sua agitação crescia, mais e mais violenta.
Com o coração apertado e um tremor nervoso, aproximou-se de uma casa enorme que de um lado dava para o canal e do outro para a rua. A casa era dividida em minúsculos apartamentos e habitada por gente trabalhadora de toda espécie: alfaiates, serralheiros, cozinheiros, alemães variados, moças que se viravam como podiam para sobreviver, funcionários de baixo escalão, e por aí vai. Havia um vaivém contínuo pelos dois portões e nos dois pátios da casa. Três ou quatro porteiros trabalhavam no prédio.
O rapaz ficou muito contente de não cruzar com nenhum deles e logo se esgueirou, despercebido, pela porta da direita e escada acima. Era uma escada dos fundos, escura e estreita, mas ele já a conhecia bem, sabia o caminho, e gostava de todo aquele ambiente: numa escuridão dessas, nem os olhos mais curiosos eram de temer.
"Se estou com tanto medo agora, como seria se de algum modo chegasse de fato a fazer aquilo?", não pôde deixar de se perguntar ao alcançar o quarto andar.
Ali o caminho foi bloqueado por alguns carregadores que tiravam móveis de um apartamento. Ele sabia que o apartamento fora ocupado por um funcionário público alemão e sua família. Esse alemão estava de mudança, então, e assim o quarto andar daquela escada ficaria desabitado, a não ser pela velha.
"Isso pelo menos é uma boa coisa", pensou consigo ao tocar a campainha do apartamento da velha. A campainha deu um tilintar fraco, como se fosse de lata e não de cobre. Os apartamentos pequenos dessas casas sempre têm campainhas que soam assim.
Ele tinha esquecido o som daquela campainha, e agora o seu tilintar peculiar pareceu lhe lembrar algo e trazê-lo nítido diante dele... Estremeceu, os nervos já estavam terrivelmente esgotados a essa altura.
Pouco depois, a porta se abriu numa frestinha: a velha examinou o visitante com evidente desconfiança através da fresta, e nada se podia ver além dos olhinhos dela, brilhando na escuridão. Mas, vendo várias pessoas no patamar, ela ganhou coragem e abriu a porta de par em par. O rapaz entrou no vestíbulo escuro, separado por uma divisória da minúscula cozinha.
A velha ficou parada diante dele, em silêncio, olhando-o com ar interrogativo. Era uma velhinha diminuta e ressequida, de uns sessenta anos, com olhos agudos e maldosos e um narizinho afilado. O cabelo descolorido, meio grisalho, estava bem untado de óleo, e ela não usava lenço na cabeça. Em volta do pescoço fino e comprido, parecido com perna de galinha, trazia atado um trapo de flanela qualquer e, apesar do calor, pendia frouxa sobre os ombros uma capa de pele sarnenta, amarelada pelo tempo. A velha tossia e gemia a cada instante. O rapaz devia tê-la encarado com uma expressão um tanto peculiar, pois um lampejo de desconfiança voltou a aparecer nos olhos dela.
"Raskólnikov, estudante, estive aqui faz um mês", apressou-se a murmurar o rapaz, com uma meia-reverência, lembrando-se de que devia ser mais educado.
"Eu me lembro, meu caro senhor, lembro muito bem da sua vinda aqui", disse a velha com clareza, mantendo ainda os olhos inquisitivos no rosto dele.
"E aqui... aqui estou de novo, no mesmo intuito", prosseguiu Raskólnikov, um pouco desconcertado e surpreso com a desconfiança da velha. "Mas talvez ela seja sempre assim, só que da outra vez eu não reparei", pensou ele, com uma sensação incômoda.
A velha fez uma pausa, como que hesitando; depois deu um passo para o lado e, apontando para a porta do quarto, disse, deixando o visitante passar à frente: "Entre, meu caro senhor."
O quartinho em que o rapaz entrou, com papel amarelo nas paredes, gerânios e cortinas de musselina nas janelas, estava naquele momento bem iluminado pelo sol poente.
"Então o sol vai brilhar assim naquela hora também!", passou como que por acaso pela cabeça de Raskólnikov, e com um olhar rápido ele varreu tudo no quarto, tentando, na medida do possível, notar e memorizar a disposição das coisas.