Crime e Castigo 13
Romance de 1866: o ex-estudante Raskólnikov mata uma velha penhorista para provar a si mesmo que é um homem "extraordinário", acima da lei moral, e desmorona sob a culpa até a prostituta Sônia, lendo a ressurreição de Lázaro, abrir-lhe o caminho da confissão e da regeneração
Parte I, Capítulo 6 (continuação)
Comeu um pouco, três ou quatro colheradas, sem apetite, como que mecanicamente. A cabeça doía menos.
Depois de comer, esticou-se de novo no sofá, mas agora não conseguia dormir; ficou deitado sem se mexer, o rosto no travesseiro. Era assombrado por devaneios, e que devaneios estranhos; num deles, que se repetia, imaginava estar na África, no Egito, numa espécie de oásis. A caravana descansava, os camelos jaziam tranquilos; as palmeiras formavam um círculo completo ao redor; todos estavam jantando. Mas ele bebia água de uma fonte que corria borbulhando ali perto. E era tão fresca, era maravilhosa, maravilhosa, azul, água fria correndo entre as pedras de várias cores e sobre a areia limpa que aqui e ali brilhava como ouro...
De repente ouviu um relógio bater. Sobressaltou-se, despertou, ergueu a cabeça, olhou pela janela e, vendo como era tarde, deu um pulo de repente, completamente desperto, como se alguém o tivesse arrancado do sofá. Foi na ponta dos pés até a porta, abriu-a sem ruído e ficou escutando a escada. O coração batia terrivelmente. Mas estava tudo quieto na escada, como se todos dormissem...
Pareceu-lhe estranho e monstruoso ter dormido num esquecimento tão grande desde o dia anterior, sem ter feito nada, sem ter preparado nada ainda... E enquanto isso talvez já tivesse batido seis horas. E à sonolência e ao torpor seguiu-se uma pressa extraordinária, febril, como que desvairada. Mas eram poucos os preparativos a fazer. Concentrou todas as energias em pensar em tudo e não esquecer nada; e o coração continuava batendo e martelando, a ponto de ele mal conseguir respirar.
Primeiro tinha que fazer uma alça e costurá-la no sobretudo, trabalho de um instante. Remexeu debaixo do travesseiro e escolheu, entre as roupas amontoadas ali, uma camisa velha, gasta e por lavar. Dos trapos dela rasgou uma tira comprida, uns cinco centímetros de largura e uns quarenta de comprimento. Dobrou a tira em dois, tirou o sobretudo de verão, largo e resistente, de um algodão grosso (sua única peça de cima) e começou a costurar as duas pontas do trapo por dentro, embaixo da cava do braço esquerdo. As mãos tremiam enquanto costurava, mas deu conta, de modo que nada aparecia por fora quando vestia o casaco de novo.
A agulha e a linha ele preparara muito antes, e estavam sobre a mesa, dentro de um pedaço de papel. Quanto à alça, era um engenho muito esperto, dele próprio; a alça era para o machado. Era impossível carregar o machado pela rua nas mãos. E, se escondido sob o casaco, ele ainda teria que segurá-lo com a mão, o que se notaria. Agora bastava enfiar a cabeça do machado na alça, e ela ficaria pendurada quietinha sob o braço, por dentro. Pondo a mão no bolso do casaco, podia segurar a ponta do cabo o tempo todo, para que não balançasse; e como o casaco era muito folgado, um verdadeiro saco, de fora não dava para ver que ele segurava alguma coisa com a mão que estava no bolso. Essa alça também ele tinha bolado duas semanas antes.
Quando terminou isso, enfiou a mão numa pequena fresta entre o sofá e o assoalho, tateou no canto esquerdo e tirou o penhor, que preparara muito antes e escondera ali. Esse penhor, no entanto, não passava de um pedaço de madeira lixado e liso, do tamanho e da espessura de uma cigarreira de prata. Ele apanhara essa madeira numa de suas andanças por um pátio onde havia uma espécie de oficina. Depois acrescentara à madeira uma chapa fina e lisa de ferro, que também recolhera, na mesma ocasião, na rua.
Pondo o ferro, que era um pouco menor, sobre a madeira, prendeu os dois com firmeza, cruzando e recruzando a linha em volta; depois embrulhou tudo com cuidado e capricho num papel branco e limpo e amarrou o pacote de modo que fosse bem difícil de desatar. Isso era para distrair a velha por algum tempo, enquanto ela tentasse desfazer o nó, e assim ganhar um instante. A chapa de ferro fora acrescentada para dar peso, para que a mulher não percebesse no primeiro minuto que a "coisa" era feita de madeira. Tudo isso ele guardara de antemão embaixo do sofá. Mal acabara de tirar o penhor quando ouviu alguém de repente no pátio.
"Bateu seis faz tempo."
"Faz tempo! Meu Deus!"
Correu para a porta, escutou, agarrou o chapéu e começou a descer seus treze degraus com cautela, sem ruído, como um gato. Ainda lhe faltava o mais importante: roubar o machado da cozinha. Que o ato tinha que ser feito com um machado, ele decidira fazia tempo. Tinha também um podão de bolso, mas não podia confiar na faca, e menos ainda na própria força, e por isso se decidiu afinal pelo machado.
Vale notar de passagem uma peculiaridade de todas as resoluções definitivas que ele tomava nesse assunto; tinham uma característica estranha: quanto mais definitivas, mais horrendas e mais absurdas se tornavam de imediato aos olhos dele. Apesar de toda a sua angustiante luta interior, ele em nenhum instante, durante todo aquele tempo, conseguiu acreditar que poria os planos em prática.
E, de fato, se algum dia tivesse acontecido de tudo, até o menor detalhe, ter sido considerado e resolvido de vez, sem que restasse incerteza de qualquer tipo, ele, ao que parece, teria renunciado a tudo como algo absurdo, monstruoso e impossível. Mas restava uma massa inteira de pontos por resolver e de incertezas. Quanto a conseguir o machado, essa insignificância não lhe causava ansiedade, pois nada poderia ser mais fácil. Nastácia vivia fora de casa, sobretudo à noite; saía correndo até os vizinhos ou até uma loja, e sempre deixava a porta encostada. Era a única coisa pela qual a senhoria sempre a repreendia.
Assim, quando chegasse a hora, ele só teria que entrar de mansinho na cozinha e pegar o machado, e uma hora depois (quando tudo estivesse terminado) entrar e devolvê-lo. Mas esses eram pontos duvidosos. Suponhamos que voltasse uma hora depois para devolvê-lo e Nastácia tivesse voltado e estivesse ali. Claro que ele teria que passar reto e esperar até ela sair de novo. Mas e se, nesse meio-tempo, ela desse pela falta do machado, fosse procurá-lo, gritasse, isso significaria suspeita, ou pelo menos motivo de suspeita.
Mas eram tudo ninharias em que ele nem começara a pensar e, de fato, não tinha tempo. Pensava no ponto principal, e adiava os detalhes insignificantes, até poder acreditar em tudo aquilo. Mas isso parecia totalmente inalcançável. Pelo menos parecia a ele mesmo. Não conseguia imaginar, por exemplo, que um dia deixaria de pensar, se levantaria e simplesmente iria até lá...
Até o seu experimento recente (isto é, a visita com o objetivo de inspecionar o lugar pela última vez) fora apenas uma tentativa de experimento, longe de ser a coisa real, como se alguém dissesse "vamos lá, vamos tentar, para que ficar sonhando com isso!", e na hora ele tinha desmoronado e fugido praguejando, num frenesi contra si mesmo. Enquanto isso, no que tocava à questão moral, parecia que sua análise estava completa; sua casuística se tornara afiada como uma navalha, e ele não encontrava em si objeções racionais. Mas no fim das contas ele simplesmente deixava de acreditar em si mesmo e, obstinado, servil, buscava argumentos em todas as direções, tateando à procura deles, como se alguém o forçasse e o arrastasse para aquilo.
No começo, muito antes, na verdade, ele se ocupara bastante de uma questão: por que quase todos os crimes são tão mal escondidos e tão facilmente descobertos, e por que quase todos os criminosos deixam rastros tão óbvios? Aos poucos chegara a muitas conclusões diferentes e curiosas e, na opinião dele, a razão principal não estava tanto na impossibilidade material de esconder o crime, mas no próprio criminoso. Quase todo criminoso está sujeito a uma falência da vontade e da razão, por um descuido infantil e fenomenal, justo no instante em que a prudência e a cautela são mais necessárias.
Era convicção dele que esse eclipse da razão e essa falência da vontade atacavam o homem como uma doença, desenvolviam-se aos poucos e chegavam ao auge justo antes da perpetração do crime, continuavam com igual violência no momento do crime e por mais ou menos tempo depois, conforme o caso, e então passavam como qualquer outra doença. A questão de saber se é a doença que dá origem ao crime, ou se o crime, por sua própria natureza peculiar, vem sempre acompanhado de algo da natureza de doença, ele ainda não se sentia capaz de decidir.
Ao chegar a essas conclusões, ele decidiu que, no seu próprio caso, não poderia haver tal reação mórbida, que a sua razão e a sua vontade permaneceriam intactas na hora de executar o plano, pela simples razão de que o seu plano "não era um crime...". Vamos omitir todo o processo pelo qual ele chegou a essa última conclusão; já nos adiantamos demais...
Acrescentemos apenas que as dificuldades práticas, puramente materiais, do assunto ocupavam um lugar secundário na mente dele. "Basta manter toda a força de vontade e a razão para lidar com elas, e todas serão vencidas, uma vez que a pessoa se familiarize com os mínimos detalhes do serviço..." Mas essa preparação nunca tinha começado. As suas decisões definitivas eram o que ele menos chegava a confiar e, quando soou a hora, tudo aconteceu de um jeito bem diferente, como que por acaso e sem se esperar.
Uma circunstância insignificante atrapalhou os cálculos dele antes mesmo de deixar a escada. Ao chegar à cozinha da senhoria, cuja porta estava aberta como de costume, espiou com cautela para ver se, na ausência de Nastácia, a própria senhoria estaria lá, ou, se não, se a porta do quarto dela estaria fechada, para que não desse uma olhada quando ele entrasse atrás do machado.
Mas qual não foi o espanto dele ao ver de repente que Nastácia não só estava em casa, na cozinha, como estava ocupada ali, tirando roupa de um cesto e pendurando num varal. Ao vê-lo, ela parou de pendurar a roupa, virou-se para ele e ficou encarando-o o tempo todo em que ele passava. Ele desviou os olhos e passou como se não notasse nada. Mas era o fim de tudo; ele estava sem o machado! Ficou esmagado.
"O que me fez pensar", refletiu ele, ao passar sob o portão, "o que me fez pensar que ela com certeza não estaria em casa naquele momento! Por que, por que, por que eu supus isso com tanta certeza?"
Estava esmagado e até humilhado. De raiva, teria sido capaz de rir de si mesmo... Uma fúria animal e surda fervia dentro dele.
Ficou parado, hesitando, sob o portão. Sair para a rua, dar uma volta por mera aparência, era repugnante; voltar para o quarto, mais repugnante ainda. "E que chance eu perdi para sempre!", murmurou, parado sem rumo sob o portão, bem em frente ao quartinho escuro do porteiro, que também estava aberto.
De repente sobressaltou-se. Do quartinho do porteiro, a dois passos dele, algo que brilhava sob o banco à direita chamou-lhe o olhar... Olhou ao redor: ninguém. Aproximou-se do quarto na ponta dos pés, desceu dois degraus para dentro e, em voz fraca, chamou o porteiro. "É, não está em casa! Mas deve estar por perto, no pátio, porque a porta está escancarada." Lançou-se ao machado (era um machado) e o puxou de baixo do banco, onde estava entre dois toros de lenha; na hora, antes de sair, prendeu-o na alça, enfiou as duas mãos nos bolsos e saiu do quarto; ninguém o tinha notado! "Quando a razão falha, o diabo ajuda!", pensou, com um sorriso estranho. Esse acaso lhe ergueu o ânimo de modo extraordinário.
Caminhou em silêncio e com compostura, sem pressa, para não despertar suspeita. Mal olhava para os passantes, tentava evitar de todo olhar para os rostos deles e ser o menos notado possível. De repente se lembrou do chapéu. "Santo Deus! Anteontem eu estava com o dinheiro e não comprei um boné para usar no lugar!" Uma praga subiu do fundo da alma dele.
Olhando de esguelha para dentro de uma loja, viu por um relógio na parede que eram sete e dez. Tinha que se apressar e, ao mesmo tempo, dar uma volta, para se aproximar da casa pelo outro lado...
Quando lhe acontecera de imaginar tudo isso de antemão, às vezes pensara que ficaria com muito medo. Mas agora não estava com muito medo, na verdade não estava com medo nenhum. A mente dele estava até ocupada com assuntos irrelevantes, mas com nenhum por muito tempo. Ao passar pelo jardim Iussúpov, ficou profundamente absorto em considerar a construção de grandes chafarizes e o efeito refrescante deles sobre o ar de todas as praças. Aos poucos chegou à convicção de que, se o Jardim de Verão fosse estendido até o Campo de Marte e talvez ligado ao jardim do Palácio Mikháilovski, seria uma coisa esplêndida e de grande proveito para a cidade.
Depois se interessou pela questão de por que, em todas as grandes cidades, os homens, não só levados pela necessidade mas de algum modo peculiar inclinados a isso, vão morar justo nas partes da cidade onde não há jardins nem chafarizes; onde há mais sujeira, mau cheiro e toda sorte de imundície. Então as suas próprias caminhadas pela praça do Feno lhe voltaram à mente e, por um momento, ele despertou para a realidade. "Que bobagem!", pensou. "Melhor não pensar em nada!"
"Então é provável que os homens levados à execução se agarrem mentalmente a cada objeto que encontram pelo caminho", passou-lhe pela cabeça, mas só passou, como um relâmpago; ele se apressou em afastar esse pensamento... E agora já estava perto; ali estava a casa, ali estava o portão. De repente um relógio em algum lugar bateu uma vez. "O quê! será que são sete e meia? Impossível, deve estar adiantado!"
Por sorte dele, tudo correu bem de novo no portão. Naquele exato momento, como que de propósito em seu benefício, uma enorme carroça de feno acabara de entrar pelo portão, encobrindo-o por completo enquanto ele passava por baixo, e a carroça mal tivera tempo de entrar no pátio quando ele já se esgueirara num átimo para a direita. Do outro lado da carroça dava para ouvir gritaria e bate-boca; mas ninguém o notou e ninguém o encontrou.
Muitas janelas que davam para aquele enorme pátio quadrangular estavam abertas naquele momento, mas ele não ergueu a cabeça, não teve forças para isso. A escada que levava ao quarto da velha ficava perto, logo à direita do portão. Ele já estava na escada...
Respirando fundo, apertando a mão contra o coração que pulsava, e mais uma vez apalpando o machado e ajeitando-o, começou a subir a escada de leve e com cautela, escutando a cada minuto. Mas a escada também estava bem deserta; todas as portas estavam fechadas; não encontrou ninguém. É verdade que um apartamento no primeiro andar estava escancarado e pintores trabalhavam nele, mas não lhe deram a menor olhada. Ele parou, pensou um instante e seguiu em frente. "Claro que seria melhor se eles não estivessem aqui, mas... é dois andares acima deles."
E lá estava o quarto andar, ali estava a porta, ali estava o apartamento em frente, o vazio. O apartamento embaixo do da velha aparentemente também estava vazio; o cartão de visita pregado na porta tinha sido arrancado, foram embora!... Ele estava sem fôlego. Por um instante o pensamento flutuou pela cabeça dele: "Será que volto?" Mas não se deu resposta e começou a escutar à porta da velha, um silêncio de morte.
Depois escutou de novo na escada, escutou longa e atentamente... então olhou ao redor pela última vez, recompôs-se, endireitou o corpo e mais uma vez testou o machado na alça. "Será que estou muito pálido?", perguntava-se. "Será que não estou visivelmente agitado? Ela é desconfiada... Será melhor esperar um pouco mais... até o coração parar de martelar?"
Mas o coração dele não parou. Pelo contrário, como que para irritá-lo, pulsava cada vez mais violentamente. Ele não aguentou mais, esticou devagar a mão até a sineta e tocou. Meio minuto depois tocou de novo, mais forte.
Nenhuma resposta. Continuar tocando era inútil e fora de propósito. A velha estava, claro, em casa, mas era desconfiada e estava sozinha. Ele conhecia um pouco dos hábitos dela... e mais uma vez encostou o ouvido na porta. Ou os sentidos dele estavam particularmente aguçados (o que é difícil de supor), ou o som era mesmo muito nítido. De todo modo, ouviu de repente algo como o toque cauteloso de uma mão na fechadura e o farfalhar de uma saia bem junto à porta.
Alguém estava furtivamente junto à fechadura e, assim como ele fazia do lado de fora, escutava em segredo do lado de dentro, e parecia estar com o ouvido na porta... Ele se mexeu um pouco de propósito e resmungou algo em voz alta para não ter o ar de quem se esconde, depois tocou uma terceira vez, mas com calma, sobriamente, sem impaciência. Lembrando-se disso mais tarde, aquele momento se destacava na mente dele com nitidez, vividamente, para sempre; ele não conseguia entender como tivera tamanha astúcia, pois a sua mente como que se turvava por instantes e ele quase não tinha consciência do próprio corpo... Um instante depois ouviu o ferrolho ser destrancado.