Crime e Castigo 89
Romance de 1866: o ex-estudante Raskólnikov mata uma velha penhorista para provar a si mesmo que é um homem "extraordinário", acima da lei moral, e desmorona sob a culpa até a prostituta Sônia, lendo a ressurreição de Lázaro, abrir-lhe o caminho da confissão e da regeneração
Parte VI, Capítulo 8: A despedida de Sônia e a confissão na delegacia
Quando entrou no quarto de Sônia, já escurecia. O dia inteiro Sônia o esperara numa ansiedade terrível. Dúnia esperara com ela. Tinha ido procurá-la naquela manhã, lembrando as palavras de Svidrigáilov de que Sônia sabia. Não vamos descrever a conversa e as lágrimas das duas moças, nem como ficaram amigas.
Daquele encontro Dúnia tirou ao menos um consolo: o irmão não estaria sozinho. Fora a ela, a Sônia, que ele procurara primeiro com sua confissão; fora a ela que buscara o calor humano de que precisava; ela o acompanharia para onde o destino o levasse. Dúnia não perguntou, mas sabia que era assim.
Olhava para Sônia quase com reverência, e a princípio quase a constrangeu com isso. Sônia estava a ponto de chorar. Sentia-se, ao contrário, mal digna de erguer os olhos para Dúnia. A imagem gentil de Dúnia, quando se curvara para ela com tanta atenção e respeito no primeiro encontro, no quarto de Raskólnikov, ficara em sua mente como uma das visões mais belas de sua vida.
Por fim Dúnia perdeu a paciência e, deixando Sônia, foi para o quarto do irmão esperá-lo ali; não parava de pensar que ele apareceria lá primeiro. Quando ela saiu, Sônia começou a se torturar com o medo de que ele se matasse, e Dúnia também temia isso. Mas tinham passado o dia tentando convencer uma à outra de que aquilo não podia acontecer, e juntas as duas ficavam menos angustiadas.
Assim que se separaram, cada uma não pensava em mais nada. Sônia se lembrou de como Svidrigáilov lhe dissera, no dia anterior, que Raskólnikov tinha duas saídas, a Sibéria ou... Além disso, ela conhecia a vaidade dele, o orgulho dele e a falta de fé dele.
"Será possível que só lhe reste a covardia e o medo da morte para fazê-lo viver?", pensou enfim, em desespero.
Enquanto isso, o sol se punha. Sônia estava de pé, abatida, olhando fixamente pela janela, mas dela só conseguia ver a parede cega e sem caiação da casa vizinha. Por fim, quando começou a ter certeza da morte dele, ele entrou no quarto.
Ela soltou um grito de alegria, mas, examinando com atenção o rosto dele, empalideceu.
"Pois é", disse Raskólnikov, sorrindo. "Vim buscar a sua cruz, Sônia. Foi você quem me mandou ir até a encruzilhada; por que está assustada agora que chegou a hora?"
Sônia o fitou, espantada. O tom dele lhe pareceu estranho; um arrepio frio percorreu seu corpo, mas num instante ela percebeu que o tom e as palavras eram uma máscara. Ele falava com ela olhando para o lado, como para evitar encontrar seus olhos.
"Veja só, Sônia, decidi que vai ser melhor assim. Há um fato... Mas é uma longa história, não há por que discutir. Sabe o que me dá raiva? Me irrita que todas aquelas caras estúpidas e brutas vão ficar me encarando logo de cara, me importunando com suas perguntas idiotas, que eu vou ter que responder, vão apontar o dedo para mim... Tfoo! Sabe, não vou procurar Porfiry, estou farto dele. Prefiro ir até meu amigo, o Tenente Explosivo; como vou surpreendê-lo, que sensação eu vou causar!"
"Mas preciso ficar mais calmo; ando irritado demais ultimamente. Sabe, quase sacudi o punho para a minha irmã agora há pouco, porque ela se virou para me dar uma última olhada. É um estado brutal! Ah! aonde é que eu vou parar! Bom, onde estão as cruzes?"
Ele mal parecia saber o que estava fazendo. Não conseguia ficar parado nem concentrar a atenção em coisa alguma; as ideias pareciam galopar uma atrás da outra, falava de modo incoerente, as mãos tremiam de leve.
Sem dizer palavra, Sônia tirou da gaveta duas cruzes, uma de cipreste e uma de cobre. Fez o sinal da cruz sobre si mesma e sobre ele, e pôs a cruz de madeira no pescoço dele.
"É o símbolo de eu tomar a minha cruz", riu. "Como se eu já não tivesse sofrido bastante até agora! A cruz de madeira, essa é a do camponês; a de cobre, essa era a de Lizavéta, você fica com ela, mostre! Então ela estava com a cruz... naquele momento? Eu também me lembro de duas coisas assim, uma de prata e um pequeno ícone. Joguei de volta no pescoço da velha. Essas é que seriam apropriadas agora, de verdade, essas é que eu deveria pôr agora..."
"Mas estou falando bobagem e esquecendo o que importa; ando esquecido por algum motivo... Veja, vim avisar você, Sônia, para que você soubesse... é só isso, foi só para isso que vim. Mas eu achava que tinha mais a dizer. Foi você mesma que quis que eu fosse. Pois bem, agora vou para a prisão e você vai ter o seu desejo realizado. Bom, por que está chorando? Você também? Não. Pare com isso! Ah, como eu odeio tudo isto!"
Mas o sentimento dele se comoveu; o coração doeu ao olhar para ela. "Por que ela também está sofrendo?", pensou consigo. "O que sou eu para ela? Por que chora? Por que cuida de mim, como minha mãe ou Dúnia? Vai ser minha enfermeira."
"Faça o sinal da cruz, reze ao menos uma oração", implorou Sônia, com voz tímida e embargada.
"Ah, claro, o quanto você quiser! E com sinceridade, Sônia, com sinceridade..." Mas ele queria dizer algo bem diferente.
Persignou-se várias vezes. Sônia pegou o xale e o pôs sobre a cabeça. Era o xale verde de drap de dames de que Marmeládov falara, "o xale da família". Raskólnikov pensou nisso ao olhá-lo, mas não perguntou. Começou a sentir que de fato estava esquecendo as coisas e que estava agitado de um jeito repugnante. Isso o assustou. De repente também o atingiu o pensamento de que Sônia pretendia ir com ele.
"O que você está fazendo? Aonde vai? Fique aqui, fique! Eu vou sozinho", gritou numa irritação covarde e, quase ressentido, foi em direção à porta. "Para que ir em procissão?", murmurou ao sair.
Sônia ficou de pé no meio do quarto. Ele nem se despedira dela; tinha se esquecido dela. Uma dúvida pungente e rebelde subiu em seu coração.
"Estava certo, estava certo, tudo isto?", pensou de novo enquanto descia a escada. "Será que ele não podia parar e desfazer tudo... e não ir?"
Mas mesmo assim foi. Sentiu de repente, de uma vez por todas, que não devia fazer perguntas a si mesmo. Ao dobrar para a rua, lembrou que não se despedira de Sônia, que a deixara no meio do quarto com seu xale verde, sem ousar se mexer depois que ele gritara com ela, e parou de súbito por um instante. No mesmo instante, outro pensamento lhe ocorreu, como se estivesse à espreita para golpeá-lo justo ali.
"Afinal, com que objetivo eu fui até ela agora há pouco? Disse a ela que era a negócios; que negócios? Eu não tinha negócio nenhum! Para dizer a ela que eu ia; mas qual era a necessidade? Será que eu a amo? Não, não, eu a enxotei agora há pouco como a um cachorro. Será que eu queria as cruzes dela? Ah, como eu me rebaixei! Não, eu queria as lágrimas dela, queria ver o terror dela, ver como o coração dela doía! Eu precisava de algo a que me agarrar, de algo que me retivesse, de um rosto amigo para ver! E eu ousei acreditar em mim mesmo, sonhar com o que eu faria! Sou um miserável desprezível e mendigo, desprezível!"
Caminhou pela margem do canal, e já não tinha muito mais a percorrer. Mas, ao chegar à ponte, parou e, desviando do caminho, seguiu por ela até a praça do Feno.
Olhava ávido para a direita e para a esquerda, fitava intensamente cada objeto e não conseguia fixar a atenção em nada; tudo lhe escapava. "Daqui a uma semana, daqui a um mês, vão me levar numa carroça de presos por cima desta ponte; como vou olhar para o canal então? Eu queria me lembrar disto!", passou-lhe pela cabeça. "Olhe esta placa! Como vou ler estas letras então? Está escrito aqui 'Companhia', isso é coisa para se lembrar, aquela letra a, e olhar para ela de novo daqui a um mês; como vou olhar para ela então? O que estarei sentindo e pensando então?... Que trivial deve ser tudo aquilo com que me aflijo agora!"
"É claro que tudo deve ser interessante... a seu modo... (Ha-ha-ha! Em que é que eu estou pensando?) Estou virando criança, estou me exibindo para mim mesmo; por que sinto vergonha? Foo! como o povo empurra! aquele homem gordo, deve ser um alemão, que esbarrou em mim, será que ele sabe em quem esbarrou? Tem uma camponesa com um bebê, pedindo esmola. É curioso que ela me ache mais feliz do que ela. Eu podia dar algo a ela, pela incongruência da coisa. Tem uma moeda de cinco copeques aqui no bolso, de onde será que eu tirei? Tome, tome... pegue, minha boa mulher!"
"Que Deus a abençoe", entoou a mendiga com voz lacrimosa.
Entrou na praça do Feno. Era desagradável, muito desagradável estar no meio da multidão, mas ele caminhava justamente onde via mais gente. Daria tudo no mundo para ficar sozinho; mas sabia que não suportaria ficar sozinho por um instante sequer. Havia um homem bêbado e desordeiro no meio do povo; ele tentava dançar e caía. Formara-se uma roda em volta dele. Raskólnikov abriu caminho aos empurrões pela multidão, ficou alguns minutos olhando para o bêbado e de repente soltou uma risada curta e seca. Um minuto depois já o esquecera e não o via mais, embora continuasse olhando. Por fim afastou-se, sem se lembrar de onde estava; mas, quando chegou ao meio da praça, uma emoção de súbito o tomou, dominando-lhe o corpo e a mente.
De repente lembrou-se das palavras de Sônia: "Vá até a encruzilhada, curve-se diante do povo, beije a terra, porque você também pecou contra ela, e diga em voz alta, para o mundo inteiro: 'Eu sou um assassino.'" Ele tremeu, lembrando-se disso. E a aflição sem esperança e a ansiedade de todo aquele tempo, sobretudo das últimas horas, tinham pesado tanto sobre ele que ele literalmente se agarrou à chance dessa nova sensação completa e sem mistura. Aquilo o tomou como um acesso; foi como uma única faísca acesa em sua alma, espalhando fogo por ele todo. Tudo nele se abrandou de uma vez e as lágrimas brotaram em seus olhos. Caiu por terra ali mesmo...
Ajoelhou-se no meio da praça, curvou-se até o chão e beijou aquela terra imunda com deleite e arrebatamento. Levantou-se e curvou-se uma segunda vez.
"Esse aí tá de pileque", observou um rapaz perto dele. Houve uma explosão de risadas.
"Ele vai para Jerusalém, irmãos, e está se despedindo dos filhos e da pátria. Está se curvando diante do mundo inteiro e beijando a grande cidade de São Petersburgo e o seu calçamento", acrescentou um operário que estava um pouco bêbado.
"E é bem jovem, ainda por cima!", observou um terceiro. "E é um cavalheiro", observou alguém com seriedade. "Hoje em dia não dá para saber quem é cavalheiro e quem não é."
Essas exclamações e comentários contiveram Raskólnikov, e as palavras "Eu sou um assassino", que talvez estivessem a ponto de escapar de seus lábios, morreram. Ainda assim, ele suportou os comentários em silêncio e, sem olhar em volta, virou por uma rua que levava à delegacia. Teve um vislumbre de algo no caminho que não o surpreendeu; sentira que tinha de ser assim.
Na segunda vez em que se curvara na praça do Feno, vira, parada a uns cinquenta passos dele, à esquerda, Sônia. Ela se escondia dele atrás de um dos barracões de madeira da praça do mercado. Então ela o seguira em seu caminho doloroso! Naquele momento Raskólnikov sentiu e soube, de uma vez por todas, que Sônia estava com ele para sempre e o seguiria até os confins da terra, para onde quer que o destino o levasse. Aquilo lhe apertou o coração... mas ele estava justamente chegando ao lugar fatal.
Entrou no pátio com bastante decisão. Tinha de subir até o terceiro andar. "Vou demorar um pouco para subir", pensou. Sentia como se o momento fatídico ainda estivesse longe, como se ainda lhe sobrasse bastante tempo para refletir.
De novo o mesmo lixo, as mesmas cascas de ovo espalhadas pela escada em espiral, de novo as portas abertas dos apartamentos, de novo as mesmas cozinhas e a mesma fumaça e o mesmo fedor saindo delas. Raskólnikov não estivera ali desde aquele dia. As pernas estavam dormentes e cediam sob ele, mas ainda assim avançavam. Parou um instante para tomar fôlego, para se recompor, para entrar como um homem. "Mas por quê? para quê?", indagou-se, refletindo. "Se tenho de beber o cálice, que diferença faz? Quanto mais repugnante, melhor."
Imaginou por um instante a figura do "tenente explosivo", Iliá Petróvitch. Será que ia mesmo procurá-lo? Não podia procurar outra pessoa? Nikodim Fómitch? Não podia voltar atrás e ir direto aos aposentos de Nikodim Fómitch? Ao menos assim seria feito em particular... Não, não! Ao "tenente explosivo"! Se tinha de beber, que bebesse tudo de uma vez.
Gelado e quase inconsciente, abriu a porta da delegacia. Havia pouquíssima gente dessa vez, só um porteiro e um camponês. O guarda nem espiou de trás de seu biombo. Raskólnikov entrou na sala seguinte. "Talvez eu ainda não precise falar", passou-lhe pela cabeça. Uma espécie de escrevente, sem uniforme, ajeitava-se diante de uma escrivaninha para escrever. Num canto, outro escrevente se acomodava. Zamiótov não estava ali, nem, é claro, Nikodim Fómitch.
"Não tem ninguém?", perguntou Raskólnikov, dirigindo-se ao homem da escrivaninha. "Quem o senhor procura?"
"A-ah! Não se ouviu um som, não se viu um vivente, mas eu farejo o russo... como é mesmo que continua no conto de fadas... esqueci! 'Às suas ordens!'", gritou de repente uma voz conhecida.
Raskólnikov estremeceu. O Tenente Explosivo estava diante dele. Acabava de entrar vindo da terceira sala. "É a mão do destino", pensou Raskólnikov. "Por que ele está aqui?"
"Veio nos visitar? Por causa de quê?", exclamou Iliá Petróvitch. Estava nitidamente de excelente humor e talvez um tanto alegre. "Se for a negócios, está um pouco cedo. É só por acaso que estou aqui... de todo modo, farei o que puder. Confesso que eu... o que é? o que é? Com licença..."
"Raskólnikov."