Crime e Castigo 12
Romance de 1866: o ex-estudante Raskólnikov mata uma velha penhorista para provar a si mesmo que é um homem "extraordinário", acima da lei moral, e desmorona sob a culpa até a prostituta Sônia, lendo a ressurreição de Lázaro, abrir-lhe o caminho da confissão e da regeneração
Parte I, Capítulo 6: A conversa na taverna e os preparativos para o crime
Mais tarde Raskólnikov acabou descobrindo por que o mascate e a mulher tinham chamado Lizavéta. Era uma coisa muito comum, sem nada de excepcional. Uma família que tinha chegado à cidade e caído na pobreza estava vendendo os móveis e as roupas, tudo de mulher. Como aquilo renderia pouco no mercado, procuravam uma intermediária.
Era esse o ofício de Lizavéta. Ela aceitava esse tipo de trabalho e era muito requisitada, porque era honesta e sempre marcava um preço justo e o mantinha. Em geral falava pouco e, como já dissemos, era muito submissa e tímida.
Mas Raskólnikov tinha ficado supersticioso nos últimos tempos. Os traços dessa superstição permaneceram nele por muito tempo depois, quase impossíveis de arrancar. E em tudo isso ele sempre se inclinou, mais tarde, a ver algo estranho e misterioso, como que a presença de influências e coincidências peculiares.
No inverno anterior, um estudante que ele conhecia, chamado Pokoriev, que tinha ido embora para Khárkov, lhe dera por acaso, numa conversa, o endereço de Aliôna Ivánovna, a velha penhorista, caso ele quisesse empenhar alguma coisa. Por muito tempo não foi procurá-la, pois tinha as aulas particulares e ia se virando de algum jeito. Seis semanas antes lembrara do endereço; tinha dois objetos que podiam ser empenhados: o velho relógio de prata do pai e um pequeno anel de ouro com três pedras vermelhas, presente da irmã na despedida. Decidiu levar o anel.
Quando encontrou a velha, sentiu por ela uma repulsa insuperável já no primeiro olhar, embora não soubesse nada de especial a seu respeito. Conseguiu dela dois rublos e entrou numa tavernazinha miserável no caminho de casa. Pediu chá, sentou-se e mergulhou em pensamentos profundos. Uma ideia estranha bicava o cérebro dele como um pinto dentro do ovo, e o absorvia muito, muito.
Quase ao lado dele, na mesa seguinte, estava sentado um estudante, que ele não conhecia e nunca tinha visto, e com ele um jovem oficial. Os dois tinham jogado uma partida de bilhar e agora bebiam chá. De repente ouviu o estudante mencionar ao oficial a penhorista Aliôna Ivánovna e lhe dar o endereço dela. Aquilo por si já pareceu estranho a Raskólnikov; ele acabava de sair de lá e ali, de imediato, ouvia o nome dela. Claro que era acaso, mas não conseguia se livrar de uma impressão muito fora do comum, como se alguém ali estivesse falando de propósito para ele; o estudante começou a contar ao amigo vários detalhes sobre Aliôna Ivánovna.
"Ela é de primeira", disse ele. "Sempre dá para conseguir dinheiro com ela. É rica como um judeu, pode te dar cinco mil rublos de uma vez e não despreza um penhor de um rublo só. Um monte dos nossos já fez negócio com ela. Mas é uma velha harpia terrível..."
E começou a descrever como ela era rancorosa e imprevisível, como, se você atrasasse só um dia os juros, perdia o penhor; como dava um quarto do valor de um objeto e cobrava cinco e até sete por cento ao mês em cima, e por aí vai. O estudante tagarelava, dizendo que ela tinha uma irmã, Lizavéta, em quem aquela criaturinha desgraçada batia sem parar e que mantinha em completa servidão, como uma criancinha, embora Lizavéta tivesse pelo menos um metro e oitenta.
"Aí está um fenômeno para você", exclamou o estudante, e riu.
Começaram a falar de Lizavéta. O estudante falava dela com um prazer peculiar e ria o tempo todo, e o oficial escutava com grande interesse e pediu que mandasse Lizavéta fazer uns consertos para ele. Raskólnikov não perdia uma palavra e ficou sabendo tudo sobre ela. Lizavéta era mais nova que a velha e era meia-irmã dela, filha de outra mãe. Tinha trinta e cinco anos. Trabalhava dia e noite para a irmã e, além de cozinhar e lavar, costurava e fazia faxina e entregava à irmã tudo o que ganhava. Não ousava aceitar nenhuma encomenda ou serviço sem a permissão da irmã.
A velha já tinha feito testamento, e Lizavéta sabia disso, e por esse testamento não receberia nem um vintém; nada além dos trastes, cadeiras e coisas assim; todo o dinheiro ficaria para um mosteiro na província de N., para que rezassem por ela em perpétuo. Lizavéta era de condição mais baixa que a irmã, solteira e de aparência terrivelmente desajeitada, espantosamente alta, com pés compridos que pareciam virados para fora. Andava sempre com sapatos surrados de pele de cabra, e era asseada. O que mais espantava e divertia o estudante era o fato de Lizavéta viver grávida.
"Mas você disse que ela é horrorosa?", observou o oficial.
"É, ela é tão morena e parece um soldado fantasiado, mas, sabe, não é nada horrorosa. Tem um rosto e olhos de tanta bondade. De uma maneira impressionante. E a prova é que muita gente se sente atraída por ela. É uma criatura tão branda, tão dócil, pronta a aguentar qualquer coisa, sempre disposta, disposta a tudo. E o sorriso dela é mesmo muito doce."
"Parece que você mesmo a acha atraente", riu o oficial.
"Pela esquisitice dela. Não, vou te dizer uma coisa. Eu podia matar aquela velha maldita e sumir com o dinheiro dela, te garanto, sem o menor remorso na consciência", acrescentou o estudante com calor. O oficial riu de novo, enquanto Raskólnikov estremeceu. Que coisa estranha!
"Escuta, quero te fazer uma pergunta séria", disse o estudante, acalorado. "Eu estava brincando, claro, mas olha só: de um lado temos uma velha estúpida, sem sentido, inútil, rancorosa, doente, horrenda, não só inútil como fazendo mal de verdade, que nem ela mesma faz ideia do que vive para fazer, e que vai morrer num dia ou dois de qualquer jeito. Você entende? Você entende?"
"Sim, sim, entendo", respondeu o oficial, observando com atenção o companheiro exaltado.
"Pois então escuta. Do outro lado, vidas jovens e viçosas jogadas fora por falta de ajuda, aos milhares, por todo lado! Cem mil boas ações poderiam ser feitas e amparadas com o dinheiro daquela velha, que vai ser enterrado num mosteiro! Centenas, talvez milhares, poderiam ser postas no caminho certo; dezenas de famílias salvas da miséria, da ruína, do vício, dos hospitais de doenças venéreas, e tudo com o dinheiro dela.
Mata ela, pega o dinheiro dela e, com isso, dedica-se a servir a humanidade e ao bem de todos. O que você acha, um crime minúsculo não seria apagado por milhares de boas ações? Por uma vida, milhares seriam salvas da corrupção e da decadência. Uma morte, e cem vidas em troca: é aritmética simples!
Além do mais, que valor tem a vida daquela velha doentia, estúpida e maldosa na balança da existência! Não mais que a vida de um piolho, de uma barata, menos até, porque a velha faz mal. Ela consome a vida dos outros; outro dia mordeu o dedo de Lizavéta por pura maldade; quase precisaram amputar."
"Claro que ela não merece viver", comentou o oficial, "mas é assim mesmo, é a natureza."
"Ah, mas, irmão, nós temos que corrigir e dirigir a natureza, senão a gente se afogaria num oceano de preconceito. Sem isso, nunca teria existido um único grande homem. Falam em dever, consciência, e eu não quero dizer nada contra o dever e a consciência, mas a questão é: o que entendemos por eles? Espera, tenho outra pergunta para te fazer. Escuta!"
"Não, espera você, eu é que vou te fazer uma pergunta. Escuta!"
"Bem?"
"Você fala e discursa, mas me diz: você mataria a velha você mesmo?"
"Claro que não! Eu só estava argumentando sobre a justiça da coisa... Não tem nada a ver comigo..."
"Mas eu acho que, se você não faria isso você mesmo, então não há justiça nenhuma nisso... Vamos jogar outra partida."
Raskólnikov estava violentamente agitado. Claro, era tudo conversa e pensamento comuns de gente jovem, do tipo que ele já ouvira muitas vezes antes, sob outras formas e sobre outros temas. Mas por que justo a ele tinha calhado ouvir tal discussão e tais ideias bem no momento em que o seu próprio cérebro acabava de conceber... exatamente as mesmas ideias?
E por que, justo no momento em que trazia da casa da velha o embrião de sua ideia, tinha caído de imediato numa conversa sobre ela? Essa coincidência sempre lhe pareceu estranha. Aquela conversa banal numa taverna teve uma influência imensa sobre o que ele fez depois; como se realmente houvesse nela algo predestinado, alguma indicação que o guiava...
Ao voltar da praça do Feno, ele se atirou no sofá e ficou uma hora inteira sem se mexer. Enquanto isso escureceu; não tinha vela e, de fato, nem lhe ocorreu acender. Ele nunca conseguiu lembrar se tinha pensado em alguma coisa naquele tempo. Por fim percebeu de novo a febre e os calafrios de antes, e deu-se conta, com alívio, de que podia se deitar no sofá. Logo um sono pesado, de chumbo, o tomou, como que esmagando-o.
Ele dormiu um tempo extraordinariamente longo e sem sonhar. Nastácia, entrando no quarto dele às dez da manhã seguinte, teve dificuldade para acordá-lo. Trouxe chá e pão. O chá era de novo a segunda infusão e de novo no bule dela mesma.
"Meu Deus, como ele dorme!", exclamou ela, indignada. "E está sempre dormindo."
Ele se levantou com esforço. A cabeça doía, ficou de pé, deu uma volta no quartinho e desabou de novo no sofá.
"Vai dormir de novo", exclamou Nastácia. "Você está doente, hein?"
Ele não respondeu.
"Quer um chá?"
"Depois", disse ele com esforço, fechando os olhos de novo e virando-se para a parede.
Nastácia ficou parada em cima dele.
"Talvez ele esteja doente mesmo", disse, virou-se e saiu. Voltou às duas horas com uma sopa. Ele estava deitado como antes. O chá continuava intocado. Nastácia se sentiu de fato ofendida e começou a sacudi-lo com raiva.
"Por que você fica aí deitado feito um toco?", gritou ela, olhando para ele com repulsa.
Ele se levantou e tornou a se sentar, mas não disse nada e ficou encarando o chão.
"Você está doente ou não?", perguntou Nastácia, e de novo não recebeu resposta. "Era melhor você sair e tomar um ar", disse depois de uma pausa. "Vai comer ou não?"
"Depois", disse ele com fraqueza. "Pode ir."
E fez sinal para que ela saísse.
Ela ficou mais um pouco, olhou para ele com compaixão e saiu.
Poucos minutos depois, ele ergueu os olhos e ficou um longo tempo olhando para o chá e a sopa. Então pegou o pão, pegou uma colher e começou a comer.