Crime e Castigo 84

Romance de 1866: o ex-estudante Raskólnikov mata uma velha penhorista para provar a si mesmo que é um homem "extraordinário", acima da lei moral, e desmorona sob a culpa até a prostituta Sônia, lendo a ressurreição de Lázaro, abrir-lhe o caminho da confissão e da regeneração

Parte VI, Capítulo 5 (continuação)

"Onde está a chave? Abra a porta agora, agora mesmo, homem vil!" "Perdi a chave e não consigo encontrá-la."
"Isto é um ultraje", gritou Dúnia, ficando pálida como a morte. Correu para o canto mais distante, onde se apressou a se entrincheirar atrás de uma mesinha.
Não gritou, mas cravou os olhos no seu algoz e vigiava cada movimento que ele fazia.
Svidrigáilov continuou de na outra ponta do cômodo, de frente para ela. Estava positivamente sereno, ao menos na aparência, mas o rosto continuava pálido como antes. O sorriso zombeteiro não deixava o seu rosto.
"Você falou em ultraje agora pouco, Avdótia Românovna. Nesse caso, pode ter certeza de que tomei as minhas providências. Sófia Semiónovna não está em casa. Os Kapernaúmov estão longe, cinco cômodos trancados de permeio. Sou pelo menos duas vezes mais forte que você e, além disso, nada tenho a temer. Pois você não poderia se queixar depois. Com certeza você não estaria disposta a entregar o próprio irmão de verdade, não é? Além disso, ninguém acreditaria em você. Como é que uma moça teria vindo sozinha visitar um homem solitário em seus aposentos? De modo que, mesmo que sacrifique o seu irmão, você não poderia provar nada. É muito difícil provar um atentado, Avdótia Românovna."
"Canalha!" sussurrou Dúnia, indignada.
"Como quiser, mas repare que eu falava a título de proposição geral. É minha convicção pessoal que você tem toda a razão: a violência é odiosa. Eu falei para lhe mostrar que você não teria nenhum remorso, mesmo que... estivesse disposta a salvar o seu irmão por vontade própria, como lhe proponho. Você estaria simplesmente cedendo às circunstâncias, à violência, na verdade, se temos que usar essa palavra. Pense nisso. O destino do seu irmão e da sua mãe está nas suas mãos. Eu serei seu escravo... a vida inteira... Vou esperar aqui."
Svidrigáilov sentou-se no sofá, a uns oito passos de Dúnia. Ela não tinha a menor dúvida da determinação inabalável dele. Aliás, ela o conhecia. De repente, tirou do bolso um revólver, engatilhou-o e o pousou, na mão, sobre a mesa. Svidrigáilov levantou-se de um salto.
"Ah-há! Então é isso, é?" exclamou, surpreso, mas sorrindo com malícia. "Bom, isso altera completamente o aspecto das coisas. Você facilitou tudo maravilhosamente para mim, Avdótia Românovna. Mas onde você arranjou o revólver? Foi o senhor Razumíkhin? Ora, é o meu revólver, um velho amigo! E como procurei por ele! As aulas de tiro que lhe dei no campo não foram em vão."
"Não é o seu revólver, pertencia a Marfa Petrovna, que você matou, miserável! Não havia nada de seu na casa dela. Eu o peguei quando comecei a desconfiar do que você era capaz. Se você ousar dar um passo, juro que mato você." Ela estava fora de si.
"Mas e o seu irmão? Pergunto por curiosidade", disse Svidrigáilov, ainda parado onde estava.
"Denuncie, se quiser! Não se mexa! Não chegue mais perto! Eu atiro! Você envenenou a sua esposa, eu sei; você mesmo é um assassino!" Ela mantinha o revólver pronto.
"Você tem tanta certeza de que envenenei Marfa Petrovna?"
"Envenenou! Você mesmo deu a entender; falou comigo de veneno... Sei que você foi buscá-lo... que o tinha à mão... Foi obra sua... pode ter sido obra sua... Canalha!"
"Mesmo que fosse verdade, teria sido por sua causa... você teria sido o motivo."
"Você está mentindo! Eu sempre odiei você, sempre..."
"Oho, Avdótia Românovna! Parece que você esqueceu como se enterneceu por mim no calor da propaganda. Eu vi nos seus olhos. Você se lembra daquela noite de luar, quando o rouxinol cantava?"
"Isso é mentira", houve um lampejo de fúria nos olhos de Dúnia, "isso é mentira e calúnia!"
"Mentira? Bom, se você quiser, é mentira. Eu inventei. Não se deve lembrar as mulheres dessas coisas", sorriu ele. "Sei que você vai atirar, sua criaturinha selvagem e bonita. Pois bem, atire!"
Dúnia ergueu o revólver e, pálida como a morte, fixou os olhos nele, medindo a distância e aguardando o primeiro movimento dele. O lábio inferior dela estava branco e tremia, e os grandes olhos negros faiscavam como fogo. Ele nunca a tinha visto tão bela. O fogo que ardia nos olhos dela no instante em que ergueu o revólver pareceu inflamá-lo, e houve uma pontada de angústia em seu coração. Deu um passo à frente e ressoou um tiro. A bala roçou-lhe os cabelos e foi se cravar na parede atrás. Ele ficou imóvel e riu baixinho.
"A vespa me ferroou. Mirou bem na minha cabeça. O que é isto? Sangue?" Puxou o lenço para limpar o sangue, que escorria num fio fino pela têmpora direita. A bala parecia ter apenas raspado a pele.
Dúnia baixou o revólver e olhou para Svidrigáilov não tanto com terror, mas com uma espécie de assombro selvagem. Parecia não entender o que estava fazendo e o que estava acontecendo.
"Pois bem, você errou! Atire de novo, eu espero", disse Svidrigáilov baixinho, ainda sorrindo, mas sombrio. "Se continuar assim, vou ter tempo de agarrá-la antes que você engatilhe de novo."
Dúnia teve um sobressalto, engatilhou depressa a pistola e ergueu-a de novo.
"Deixe-me em paz", gritou ela, desesperada. "Juro que atiro de novo. Eu... eu mato você."
"Bom... a três passos é quase impossível errar. Mas se você não... então." Os olhos dele faiscaram e ele deu dois passos à frente. Dúnia atirou de novo: o tiro falhou.
"Você não carregou direito. Não tem problema, ainda tem outra carga aí. Prepare-a, eu espero."
Ele ficou de frente para ela, a dois passos, esperando e fitando-a com determinação selvagem, com olhos febrilmente apaixonados, obstinados, fixos. Dúnia viu que ele preferiria morrer a deixá-la ir. "E... agora, claro que ela o mataria, a dois passos!" De repente, atirou o revólver para longe.
"Ela largou!" disse Svidrigáilov, surpreso, e respirou fundo. Um peso pareceu rolar de seu coração, talvez não o medo da morte; na verdade, talvez ele mal o tivesse sentido naquele instante. Era a libertação de um outro sentimento, mais escuro e mais amargo, que ele mesmo não saberia definir.
Ele foi até Dúnia e, com delicadeza, pôs o braço em volta da cintura dela. Ela não resistiu, mas, tremendo como uma folha, olhou para ele com olhos suplicantes. Ele tentou dizer algo, mas os lábios se moveram sem conseguir emitir som.
"Deixe-me ir", implorou Dúnia. Svidrigáilov estremeceu. A voz dela agora era completamente diferente.
"Então você não me ama?" perguntou ele baixinho. Dúnia balançou a cabeça.
"E... e você não pode? Nunca?" sussurrou ele, desesperado. "Nunca!"
Seguiu-se um momento de terrível, mudo combate no coração de Svidrigáilov. Ele a olhou com um olhar indescritível. De repente, retirou o braço, voltou-se rápido para a janela e ficou de frente para ela. Passou mais um instante.
"Aqui está a chave." Ele a tirou do bolso esquerdo do casaco e a pousou sobre a mesa atrás de si, sem se virar nem olhar para Dúnia.
"Pegue! Depressa!" Ele olhava obstinadamente pela janela. Dúnia foi até a mesa pegar a chave.
"Depressa! Depressa!" repetiu Svidrigáilov, ainda sem se virar nem se mexer. Mas parecia haver um significado terrível no tom daquele "depressa".
Dúnia entendeu, agarrou a chave, voou até a porta, destrancou-a depressa e saiu correndo do cômodo. Um minuto depois, fora de si, correu para a margem do canal, na direção da ponte X.
Svidrigáilov ficou três minutos parado junto à janela. Por fim, virou-se devagar, olhou ao redor e passou a mão pela testa. Um sorriso estranho contorceu-lhe o rosto, um sorriso lastimável, triste, fraco, um sorriso de desespero. O sangue, que secava, manchou-lhe a mão. Ele o olhou com raiva, depois molhou uma toalha e lavou a têmpora. O revólver que Dúnia havia atirado para longe estava perto da porta e de repente lhe chamou a atenção. Ele o apanhou e o examinou. Era um pequeno revólver de bolso, de três canos, de construção antiquada. Ainda restavam nele duas cargas e uma espoleta. Dava para disparar de novo. Pensou um pouco, pôs o revólver no bolso, pegou o chapéu e saiu.