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Evangelho Árabe da Infância
Coletânea oriental da infância de Jesus, conhecida em árabe e siríaco, que expande os anos no Egito com curas pela água do banho do menino, exorcismos, a fonte do bálsamo de Matarea e o encontro com os ladrões da cruz. Junta o nascimento virginal aos milagres do Tomé e foi uma das pontes entre as tradições cristãs e o Oriente
Autoria e Data de Composição
O Evangelho Árabe da Infância é uma coletânea anônima sobre a infância de Jesus. Ela ficou conhecida pelo texto árabe que lhe deu nome, mas a maioria dos estudiosos a considera tradução de um original siríaco perdido, razão pela qual também é chamada de Evangelho Siríaco da Infância. A datação é debatida: o material reunido é antigo, e parte dele depende do Protoevangelho de Tiago e do Evangelho da Infância de Tomé, mas a forma da compilação costuma ser situada entre os séculos V e VI, ou depois. A obra não tem autor único; o nome se refere à língua do principal testemunho, não a uma autoria.
O próprio texto se apresenta como achado no livro de José, sumo sacerdote, que alguns identificariam com Caifás. Essa atribuição não tem valor histórico e segue o hábito da literatura apócrifa de ancorar a narrativa num nome antigo. Ela serve, porém, como indício do que a obra pretende ser: um registro suplementar dos anos sobre os quais Mateus e Lucas silenciam.
Encontramos o que se segue no livro de José, o sumo sacerdote, que viveu no tempo de Cristo. Alguns dizem que ele é Caifás.
Conteúdo Principal
A coletânea costura três blocos. O primeiro é o nascimento e a primeira infância, próximo do Protoevangelho de Tiago. O segundo é um longo ciclo de milagres durante a estada no Egito, próprio desta obra. O terceiro reúne os prodígios do menino já de volta a Israel, herdados em boa parte do Evangelho da Infância de Tomé. A tradução aqui disponível segue a edição latina de Henry Sike, base do texto que circulou no Ocidente.
A proporção entre os blocos é reveladora. Dos 55 capítulos, os nove primeiros cobrem o nascimento e a visita dos magos, os dezessete seguintes narram a viagem ao Egito e o retorno, e a maior parte do restante se passa em Belém e Nazaré. Praticamente todo episódio termina do mesmo modo: uma cura, um exorcismo ou um prodígio, seguido de louvor a Deus por parte das testemunhas.
O nascimento, a apresentação e os magos
Nascimento e primeiros dias
- Ainda deitado no berço, Jesus fala a Maria e se declara o Filho de Deus, o Logos, enviado para a salvação do mundo — (Evangelho Árabe da Infância 1:2)
- A caminho do recenseamento, Maria diz a José que não pode entrar na cidade, e ambos entram numa caverna ao pôr do sol — (Evangelho Árabe da Infância 2:3)
- A gruta se enche de luzes mais esplêndidas do que a luz do sol — (Evangelho Árabe da Infância 3:1)
- A anciã paralítica é curada ao pôr as mãos sobre a criança e se declara serva dela por toda a vida — (Evangelho Árabe da Infância 3:5)
- Os pastores e os exércitos do céu, e a caverna que se torna semelhante a um templo do mundo superior — (Evangelho Árabe da Infância 4:2)
- A circuncisão no oitavo dia, feita na gruta segundo a lei — (Evangelho Árabe da Infância 5:1)
- O frasco de nardo guardado pela anciã, que a obra identifica com o unguento comprado e derramado por Maria, a pecadora — (Evangelho Árabe da Infância 5:3)
- A apresentação no templo no quadragésimo dia, segundo a lei de Moisés — (Evangelho Árabe da Infância 5:4)
- Simeão o vê resplandecer como coluna de luz nos braços de Maria — (Evangelho Árabe da Infância 6:1)
- Simeão toma a palavra e repete o cântico do Nunc dimittis — (Evangelho Árabe da Infância 6:3)
- Hana, profetisa, se aproxima e chama Maria de bem-aventurada — (Evangelho Árabe da Infância 6:5)
Os magos e a fuga para o Egito
- Os magos do oriente chegam com ouro, incenso e mirra, conforme havia predito Zaratustra — (Evangelho Árabe da Infância 7:1)
- Maria lhes dá uma das faixas do menino, por causa da pequenez de seus recursos — (Evangelho Árabe da Infância 7:2)
- Em sua terra, os magos lançam a faixa ao fogo do culto, e ela sai intacta — (Evangelho Árabe da Infância 8:4)
- Herodes decide matar o menino, e o anjo ordena a José que parta para o Egito — (Evangelho Árabe da Infância 9:3)
O ciclo do Egito
A marca da obra é a expansão dos anos no Egito, sobre os quais os evangelhos canônicos silenciam. Um motivo se repete dezenas de vezes: a água em que o menino Jesus foi banhado cura leprosos, expulsa demônios e desfaz feitiços, refletindo uma sensibilidade oriental em que o corpo de Cristo santifica tudo o que toca. Junto dela funcionam outros objetos de contato: as roupas lavadas, as faixas e o pano de embrulhar. A lógica é sempre a mesma, e é a mesma que sustenta o culto às relíquias no cristianismo antigo.
Ídolos, demônios e a estrada egípcia
- O ídolo de uma cidade egípcia declara aos sacerdotes que chegou o verdadeiro Deus, o Filho de Deus — (Evangelho Árabe da Infância 10:4)
- Na mesma hora o ídolo cai, e a população acorre ao lugar — (Evangelho Árabe da Infância 10:5)
- O filho possesso do sacerdote é curado ao pôr sobre a cabeça uma roupa lavada do menino, e os demônios saem em forma de corvos e serpentes — (Evangelho Árabe da Infância 11:3)
- A narrativa aplica ao episódio a profecia: Do Egito chamei o meu filho — (Evangelho Árabe da Infância 12:1)
- Um estrondo como o de um rei em marcha faz os ladrões abandonarem o saque, e os cativos são libertados — (Evangelho Árabe da Infância 13:2)
- Satanás deixa a mulher endemoninhada e foge em forma de jovem, lamentando-se de Maria e de seu filho — (Evangelho Árabe da Infância 14:4)
- A noiva emudecida por feitiço recupera a fala e a audição, e dá graças a Deus — (Evangelho Árabe da Infância 15:3)
- A mulher atormentada por Satanás em forma de serpente é libertada ao segurar a criança — (Evangelho Árabe da Infância 16:5)
- O noivo impedido por feitiçaria de consumar o casamento é desligado do encantamento — (Evangelho Árabe da Infância 19:1)
A menina leprosa e a cadeia de curas
- A água em que Jesus foi lavado é derramada sobre uma menina de corpo branco de lepra — (Evangelho Árabe da Infância 17:1)
- Purificada, a menina pede para acompanhar a família e parte com ela — (Evangelho Árabe da Infância 17:3)
- A menina revela seu segredo à esposa do príncipe, cujo filho leproso havia sido rejeitado pelo pai — (Evangelho Árabe da Infância 18:8)
- O filho do príncipe é purificado com a mesma água — (Evangelho Árabe da Infância 18:10)
- Três mulheres em luto contam que o irmão foi transformado em mula por feitiçaria — (Evangelho Árabe da Infância 20:7)
- Maria põe o menino sobre o dorso da mula e o irmão recobra a forma humana — (Evangelho Árabe da Infância 21:9)
- As irmãs casam o irmão restaurado com a menina que fora leprosa — (Evangelho Árabe da Infância 22:2)
Os ladrões, Matarea e o regresso
- No deserto encontram os ladrões Tito e Dumaco, e Tito paga a Dumaco para deixá-los passar — (Evangelho Árabe da Infância 23:3)
- Jesus anuncia que em trinta anos os dois serão crucificados a seu lado, e que Tito irá adiante dele para o Paraíso — (Evangelho Árabe da Infância 23:5)
- A fonte que Jesus faz brotar em Matarea, onde Maria lava a túnica dele — (Evangelho Árabe da Infância 24:1)
- Do suor de Jesus aspergido ali brota o bálsamo daquela região do Egito — (Evangelho Árabe da Infância 24:2)
- A descida a Mênfis, o encontro com o Faraó e os três anos passados no Egito — (Evangelho Árabe da Infância 25:1)
- A obra admite que houve milagres no Egito não registrados nem por ela nem pelo Evangelho perfeito — (Evangelho Árabe da Infância 25:2)
- Morto Herodes e temendo Arquelau, José é enviado por um anjo a Nazaré — (Evangelho Árabe da Infância 26:2)
De volta a Belém: curas, vinganças e nomes conhecidos
O bloco seguinte concentra episódios domésticos em Belém, quase todos protagonizados por mulheres que procuram Maria. É a parte em que a coletânea mais se aproxima de um conjunto de relatos de santuário, com a água do banho funcionando como remédio distribuído. É também onde a obra insere identificações retroativas: crianças curadas ou tocadas pelo menino são apresentadas como apóstolos futuros, e um menino possesso é identificado com Judas Iscariotes.
Belém: a água, o forno e o poço
- Maria manda borrifar um menino doente dos olhos com a água em que lavou Jesus, e ele sara — (Evangelho Árabe da Infância 27:3)
- Uma vizinha repete o gesto e o filho quase cego é curado, com a ordem de não contar a ninguém — (Evangelho Árabe da Infância 28:4)
- O menino Cleofas, lançado ao forno pela rival da mãe, é achado rindo dentro do forno frio — (Evangelho Árabe da Infância 29:6)
- A rival cai no próprio poço em que tentara afogar o menino, e o texto aplica o ditado da cova cavada — (Evangelho Árabe da Infância 29:12)
- Um menino moribundo revive ao ser posto na cama de Jesus, e a obra o identifica com Bartolomeu — (Evangelho Árabe da Infância 30:4)
- Uma mulher leprosa é purificada com a água do banho — (Evangelho Árabe da Infância 31:5)
- Curada a moça rejeitada por causa da marca de lepra entre os olhos, o marido a leva para casa e refaz o casamento — (Evangelho Árabe da Infância 32:10)
O dragão, o pano e o menino Judas
- Uma jovem é atacada repetidamente por Satanás em forma de dragão enorme, que lhe suga o sangue — (Evangelho Árabe da Infância 33:1)
- Maria lhe dá um pano de embrulhar do menino, para mostrar ao inimigo sempre que ele aparecer — (Evangelho Árabe da Infância 33:11)
- Ao tirar o pano e cobrir os olhos com ele, a menina vê chamas e brasas saírem do pano contra o dragão — (Evangelho Árabe da Infância 34:3)
- O dragão grita "que tenho eu a ver contigo, ó Jesus?" e foge para nunca mais voltar — (Evangelho Árabe da Infância 34:5)
- Um menino possesso golpeia Jesus no lado direito, e o texto o identifica com Judas Iscariotes e liga o golpe à lança da crucificação — (Evangelho Árabe da Infância 35:6)
O menino prodigioso em Nazaré
A partir do capítulo 36 a obra muda de tom. Os episódios passam a ser os do Evangelho da Infância de Tomé, com um menino de poder incontrolado que anima barro, transforma companheiros, corrige o trabalho do pai e fulmina quem o agride. A coletânea preserva também as reações negativas: os pais proíbem os filhos de brincar com ele e o chamam de feiticeiro. Essa ambivalência ajuda a explicar a desconfiança com que o material foi lido, embora as razões da exclusão dos cânones sejam mais amplas e envolvam data tardia e falta de uso litúrgico reconhecido.
Prodígios da oficina e da rua
- Aos sete anos, Jesus manda andar as figuras de barro que modelara, e os meninos perguntam se ele é o filho do Criador — (Evangelho Árabe da Infância 36:2)
- Os pais proíbem os filhos de brincar com ele e o chamam de feiticeiro — (Evangelho Árabe da Infância 36:4)
- Os panos do tintureiro Salém, lançados todos numa tina de índigo, saem cada um com a cor pedida — (Evangelho Árabe da Infância 37:5)
- Jesus estende a mão sobre as peças de José e elas ficam na medida desejada, mais longas ou mais curtas — (Evangelho Árabe da Infância 38:2)
- O trono do rei de Jerusalém, curto dois palmos de cada lado, é esticado à medida exata — (Evangelho Árabe da Infância 39:6)
- Os meninos escondidos num forno, dados como cabritos, saem em forma de cabritos e depois são restituídos — (Evangelho Árabe da Infância 40:6)
- No mês de Adar os meninos o coroam de flores e obrigam os que passam a saudá-lo como rei — (Evangelho Árabe da Infância 41:3)
Serpentes, quedas e o poder que fere
- A serpente é obrigada a sugar de volta o veneno que injetou no menino picado, e o curado é identificado com Simão, o Cananeu — (Evangelho Árabe da Infância 42:10)
- Tiago, mordido por uma víbora ao juntar lenha, é curado por um sopro de Jesus — (Evangelho Árabe da Infância 43:3)
- Acusado de derrubar um menino do telhado, Jesus chama o morto pelo nome, e o menino responde que não foi ele quem o lançou — (Evangelho Árabe da Infância 44:6)
- Quebrado o cântaro no poço, Jesus recolhe a água no lenço e a leva à mãe — (Evangelho Árabe da Infância 45:3)
- Ele bate as mãos e os pardais de barro que modelara voam chilreando, em dia de sábado — (Evangelho Árabe da Infância 46:3)
- O menino que corre contra ele e o derruba cai por terra e expira — (Evangelho Árabe da Infância 47:2)
A escola, o templo e o fim da narrativa
- Diante do mestre Zaqueu, Jesus exige o significado de Álefe antes de pronunciar Bete — (Evangelho Árabe da Infância 48:3)
- Ameaçado de açoite, ele expõe os significados das letras e o traçado de cada uma — (Evangelho Árabe da Infância 48:4)
- O segundo mestre que levanta a mão para açoitá-lo tem a mão seca e morre — (Evangelho Árabe da Infância 49:3)
- Aos doze anos, no templo, ele pergunta aos mestres de quem é filho o Messias e cita o Salmo do Senhor que fala ao meu senhor — (Evangelho Árabe da Infância 50:2)
- A um astrônomo ele expõe o número das esferas, seus aspectos e seus cursos direto e retrógrado — (Evangelho Árabe da Infância 51:2)
- A um filósofo que lhe pergunta sobre medicina, ele expõe humores, membros, ossos e veias — (Evangelho Árabe da Infância 52:2)
- Depois de ouvir sobre a operação da alma sobre o corpo, o filósofo se declara seu discípulo e servo — (Evangelho Árabe da Infância 52:4)
- Maria o encontra depois de três dias, e ele responde que deve ocupar-se na casa de seu Pai — (Evangelho Árabe da Infância 53:3)
- Daquele dia em diante ele oculta os milagres e se dedica à lei até os trinta anos — (Evangelho Árabe da Infância 54:1)
- A narrativa termina no batismo no Jordão, com a voz do céu e o Espírito em forma de pomba branca — (Evangelho Árabe da Infância 54:2)
- O livro se fecha com uma doxologia litúrgica, sinal do uso devocional a que servia — (Evangelho Árabe da Infância 55:3)
A água do banho: o motivo que organiza o livro
Nenhum outro elemento aparece com tanta frequência. A água em que Jesus foi lavado cura lepra em pelo menos quatro episódios distintos, sara olhos doentes, e o mesmo papel é cumprido pelas roupas, pelas faixas e pelo pano de embrulhar. A obra chega a formular a lógica pela boca de uma personagem curada, que pergunta se ele purifica pela água do próprio banho aqueles que compartilham da mesma natureza que ele.
Bendita é a mãe que te deu a luz, ó Jesus! Tu purificas assim, com a água em que o teu corpo foi lavado, aqueles que compartilham da mesma natureza que tu?
A obra também fixa tradições geográficas, como a fonte de Matarea, perto do Cairo, que ela associa à origem do bálsamo do Egito. E identifica os dois ladrões crucificados com Jesus, Tito e Dumaco, já encontrados por ele em criança no deserto. Essa identificação circulou depois em outras obras e na iconografia oriental, com variações de nome.
Onde a obra se apoia e onde ela inventa
A coletânea reescreve cenas conhecidas dos evangelhos canônicos e as amplia com material próprio. A tabela abaixo resume as três camadas mais visíveis. O alinhamento é literário: mostra de onde vem o motivo, não afirma dependência textual direta em cada caso.
| Bloco | Origem provável do material | O que a obra acrescenta |
|---|---|---|
| Nascimento, caverna, parteira, magos (caps. 1 a 9) | Lucas, Mateus e o Protoevangelho de Tiago | A luz na gruta, a cura da anciã, a faixa dada aos magos e o fogo que não a queima |
| Estada no Egito (caps. 10 a 25) | Material próprio, sem paralelo canônico | O ciclo inteiro: ídolo derrubado, exorcismos, água do banho, a mula, Matarea, Tito e Dumaco |
| Menino em Nazaré (caps. 36 a 53) | Evangelho da Infância de Tomé | O tintureiro Salém, o trono do rei, os meninos-cabritos e as identificações apostólicas |
Jesus que fala no berço e o paralelo no Alcorão
A obra abre com Jesus falando ainda recém-nascido para declarar sua missão. O mesmo motivo aparece no Alcorão, na Surata 19 (Maryam, vv. 29 a 33), onde o menino Jesus fala do berço para defender a honra de Maria. Há um segundo ponto de contato: a animação de aves de barro, que aqui aparece nos prodígios do menino e no Alcorão é atribuída a Jesus nas Suratas 3 e 5. As conclusões teológicas divergem: o texto cristão afirma a divindade de Cristo, e o Alcorão enfatiza sua condição de servo de Deus.
Eu sou Jesus, o Filho de Deus, o Logos, a quem tu deste à luz, como o anjo Gabriel te anunciou; e meu Pai me enviou para a salvação do mundo.
A relação entre as duas tradições é discutida e não há consenso sobre a direção da influência. Parte dos estudiosos aponta a coletânea como precedente possível do relato corânico; outra parte duvida que a compilação, na forma em que a conhecemos, seja pré-islâmica, e prefere falar de um fundo comum de tradições. O que se pode afirmar com segurança é que tradições desta coletânea, e da literatura de infância em geral, circulavam no Oriente Médio cristão e árabe antes e depois do surgimento do islã. Isso faz da obra um documento útil para o estudo do contato entre as duas tradições, mais do que uma fonte sobre a vida histórica de Jesus.
Recepção e manuscritos
A obra circulou amplamente no cristianismo oriental, em siríaco e árabe, e influenciou a arte e a devoção coptas e siríacas. No Ocidente tornou-se conhecida pela edição de Henry Sike, publicada em 1697 com tradução latina, feita a partir de um manuscrito árabe hoje perdido, atribuído ao século XV. É desse texto que descendem quase todas as traduções modernas que circulam, inclusive a base desta.
Existe outro testemunho importante: o Codex Orientalis 387 da Biblioteca Laurenziana, em Florença, cujo colofão o data de 1299 e o situa em Mardin. É o único exemplar ilustrado conhecido de um evangelho da infância, com dezenas de desenhos inacabados, e foi publicado por Mario E. Provera. Ele diverge da edição de Sike na ordem e na seleção dos episódios, o que reflete o caráter de coletânea aberta, ampliada e reorganizada ao longo do tempo. Parte da bibliografia recente questiona até o rótulo "árabe", por entender que ele obscurece a origem siríaca do material.
A obra ficou fora dos cânones cristãos e foi recebida como leitura devocional, não como Escritura, ainda que com prestígio nas igrejas orientais. Seu valor hoje é documental: ela mostra o que comunidades cristãs do Oriente contavam sobre a infância de Jesus, quais objetos tratavam como veículos de graça, e como a devoção mariana se articulava com a memória do Egito.