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Testamentos dos Doze Patriarcas
Os discursos de despedida dos doze filhos de Jacó (Rúben a Benjamim), pseudepígrafo judaico do séc. II a.C. com camadas cristãs
Os Testamentos dos Doze Patriarcas são um pseudepígrafo em que cada um dos doze filhos de Jacó faz um discurso de despedida aos seus descendentes, no gênero literário do "testamento". Cada patriarca recorda sua vida, confessa seus erros e tira deles uma lição moral. A obra é anônima e atribuída ficcionalmente aos próprios patriarcas, não escrita por eles.
Autoria e Data de Composição
O núcleo da obra é judaico. A datação é debatida: R. H. Charles propôs uma origem no período hasmoneu, no fim do segundo século antes de Cristo, com camadas acrescentadas depois. Sobre esse núcleo há interpolações cristãs, com passagens messiânicas explícitas. Esse é o ponto central da discussão acadêmica de mais de um século: para Charles, trata-se de uma obra judaica com acréscimos cristãos; Marinus de Jonge, a partir da sua tese de 1953, defendeu que o texto que temos é uma composição cristã que reaproveita fontes judaicas. Não há consenso fechado. H. C. Kee, na coletânea de Charlesworth, voltou a defender um original judaico por volta de 100 a.C.; Hollander e de Jonge, no comentário de 1985, mantiveram a leitura cristã.
A favor de fontes pré-cristãs pesam achados externos. Em Qumran apareceram fragmentos do Documento Aramaico de Levi (1Q21, 4Q213-214), datados paleograficamente dos séculos segundo e primeiro antes de Cristo, aparentados ao Testamento de Levi, e um Testamento de Naftali em hebraico (4Q215). Folhas do mesmo material sobre Levi já haviam surgido na Genizá do Cairo, hoje divididas entre Cambridge e a Bodleian de Oxford, e um trecho grego do mesmo texto sobrevive interpolado no manuscrito Koutloumousiou 39, do Monte Atos. Esses materiais mostram que pelo menos parte da tradição por trás dos Testamentos circulava em meio judaico antes do cristianismo. O que eles não resolvem é a questão do conjunto: uma fonte antiga sobre Levi não prova que os doze discursos, na forma grega em que os lemos, sejam judaicos.
A leitura mais comum hoje trabalha com uma base judaica retocada por mãos cristãs, sem pretender separar as camadas com precisão. A tradução usada neste site marca com colchetes vários trechos que os editores consideram acréscimos, o que dá ao leitor uma amostra de onde a suspeita recai.
Estrutura e conteúdo
Cada testamento liga um patriarca a uma virtude ou a um vício, tomados como tema do discurso. Rúben fala da devassidão, Simeão da inveja, Levi do sacerdócio, Judá do vinho e da luxúria, Issacar da simplicidade, Zabulom da compaixão, Dã da ira, Naftali da ordem da natureza, Gade do ódio, Aser dos dois caminhos, José da castidade e Benjamim da mente pura. A estrutura típica se repete: o patriarca recorda a própria história, expõe o pecado ou a virtude, exorta os filhos e termina com uma previsão sobre o futuro de Israel, quase sempre seguida da ordem de levar seus ossos para Hebrom.
A obra está organizada aqui em cento e quarenta e dois capítulos sequenciais, que reúnem os doze testamentos nesta ordem: Rúben (1 a 7), Simeão (8 a 16), Levi (17 a 35), Judá (36 a 61), Issacar (62 a 68), Zabulom (69 a 78), Dã (79 a 85), Naftali (86 a 94), Gade (95 a 102), Aser (103 a 110), José (111 a 130) e Benjamim (131 a 142).
Rúben: a devassidão e os sete espíritos
- Rúben confessa ter profanado o leito de seu pai Jacó — (Testamentos dos Doze Patriarcas 1:7)
- Sete anos de arrependimento, sem vinho nem carne nem alimento agradável — (Testamentos dos Doze Patriarcas 1:10)
- Sete espíritos do erro designados contra o homem, condutores das obras da juventude — (Testamentos dos Doze Patriarcas 2:2)
- O oitavo espírito, o do sono, que produz o transe da natureza e a imagem da morte — (Testamentos dos Doze Patriarcas 3:1)
- Bila vista se banhando, e a queda que veio do olhar — (Testamentos dos Doze Patriarcas 3:11)
- A devassidão como poço da alma, que separa de Deus e aproxima dos ídolos — (Testamentos dos Doze Patriarcas 4:6)
- As mulheres que atraíram os Vigilantes antes do dilúvio e geraram gigantes — (Testamentos dos Doze Patriarcas 5:6)
- A ordem de ouvir Levi, porque ele conhecerá a lei do Senhor — (Testamentos dos Doze Patriarcas 6:8)
- Rúben morre e é levado do Egito para ser sepultado em Hebrom — (Testamentos dos Doze Patriarcas 7:1)
Simeão: a inveja e o ciúme de José
- Simeão fala aos filhos aos cento e vinte anos, no tempo em que José morreu — (Testamentos dos Doze Patriarcas 8:2)
- O príncipe do engano envia o espírito do ciúme e cega a mente de Simeão — (Testamentos dos Doze Patriarcas 9:7)
- A mão direita fica meio mirrada por sete dias, castigo por causa de José — (Testamentos dos Doze Patriarcas 9:13)
- Quem inveja definha enquanto o invejado prospera — (Testamentos dos Doze Patriarcas 10:3)
- Quem foge para o Senhor vê o espírito mau correr para longe dele — (Testamentos dos Doze Patriarcas 10:5)
- José não guarda rancor e trata os irmãos com misericórdia — (Testamentos dos Doze Patriarcas 11:4)
- A devassidão apresentada como mãe de todos os males — (Testamentos dos Doze Patriarcas 12:3)
- O Senhor Deus aparecerá sobre a terra e ele mesmo salvará os homens — (Testamentos dos Doze Patriarcas 13:5)
- De Levi virá um sumo sacerdote e de Judá um rei — (Testamentos dos Doze Patriarcas 14:2)
- Os ossos de José guardados pelos egípcios nos túmulos dos reis — (Testamentos dos Doze Patriarcas 15:4)
- Os filhos de Simeão permanecem no Egito até a partida pela mão de Moisés — (Testamentos dos Doze Patriarcas 16:1)
Levi: as visões celestes e a investidura sacerdotal
- Levi anuncia aos filhos o que lhes aconteceria até o dia do juízo — (Testamentos dos Doze Patriarcas 17:2)
- Levi adormece sobre um monte alto e os céus se abrem para ele — (Testamentos dos Doze Patriarcas 18:6)
- Por meio de Levi e de Judá o Senhor aparecerá entre os homens — (Testamentos dos Doze Patriarcas 18:11)
- No mais alto dos céus habita a Grande Glória, acima de toda santidade — (Testamentos dos Doze Patriarcas 19:4)
- A oração de Levi é ouvida, e ele é feito filho, servo e ministro da presença — (Testamentos dos Doze Patriarcas 20:2)
- O Altíssimo lhe entrega as bênçãos do sacerdócio até que venha habitar em Israel — (Testamentos dos Doze Patriarcas 21:2)
- A vingança de Siquém: Levi mata Siquém e Simeão mata Hamor — (Testamentos dos Doze Patriarcas 22:4)
- Levi diz a Jacó que por meio dele o Senhor despojará os cananeus — (Testamentos dos Doze Patriarcas 23:1)
- Sete homens de vestes brancas o revestem e o fazem sacerdote — (Testamentos dos Doze Patriarcas 24:3)
- A descendência de Levi se dividirá em três ofícios — (Testamentos dos Doze Patriarcas 24:12)
- Isaque lhe ensina a lei do sacerdócio, dos sacrifícios e das primícias — (Testamentos dos Doze Patriarcas 25:7)
- A casa que o Senhor escolher se chamará Jerusalém, conforme o livro de Enoque — (Testamentos dos Doze Patriarcas 26:5)
- Levi se casa com Melca e nasce Gérson, o primeiro filho — (Testamentos dos Doze Patriarcas 27:1)
- A cronologia da própria vida: aos dezoito matou Siquém, aos dezenove tornou-se sacerdote — (Testamentos dos Doze Patriarcas 28:5)
Levi: a denúncia do sacerdócio e o sacerdote novo
- A ordem de ensinar letras aos filhos e ler sem cessar a lei de Deus — (Testamentos dos Doze Patriarcas 29:2)
- A sabedoria como bem que o cativeiro não tira — (Testamentos dos Doze Patriarcas 29:7)
- Sacerdotes que roubarão as ofertas do Senhor e as comerão com prostitutas — (Testamentos dos Doze Patriarcas 30:5)
- O templo escolhido pelo Senhor será devastado por causa da impureza deles — (Testamentos dos Doze Patriarcas 31:1)
- Por setenta semanas os sacerdotes se desviarão e profanarão o sacerdócio — (Testamentos dos Doze Patriarcas 32:1)
- A sequência dos sacerdócios, um em cada jubileu, do primeiro ao sétimo — (Testamentos dos Doze Patriarcas 33:2)
- O sacerdote novo abre as portas do paraíso e remove a espada contra Adão — (Testamentos dos Doze Patriarcas 34:10)
- A escolha final proposta aos filhos: a luz ou as trevas — (Testamentos dos Doze Patriarcas 35:1)
- Levi morre com cento e trinta e sete anos e é sepultado em Hebrom — (Testamentos dos Doze Patriarcas 35:5)
Judá: as guerras da juventude
- Jacó abençoa Judá e lhe anuncia que será rei — (Testamentos dos Doze Patriarcas 36:6)
- Judá mata um leão e arranca um cabrito da sua boca — (Testamentos dos Doze Patriarcas 37:4)
- Jacó mata Beelesate, um gigante de doze côvados de altura — (Testamentos dos Doze Patriarcas 38:7)
- A tomada de Hazor, com a escalada da muralha e a divisão do despojo — (Testamentos dos Doze Patriarcas 39:2)
- A cidade murada de Aretã tomada ao fio da espada — (Testamentos dos Doze Patriarcas 40:5)
- As mulheres da cidade rolam pedras do alto da colina sobre os irmãos — (Testamentos dos Doze Patriarcas 41:5)
- Judá e Dã fingem ser amorreus para entrar na cidade de Gaás — (Testamentos dos Doze Patriarcas 42:2)
- Aquecido pelo vinho, Judá recebe Bate-Suá, a cananeia, por esposa — (Testamentos dos Doze Patriarcas 43:3)
- Jacó fere Esaú com uma flecha, e ele morre a caminho de Seir — (Testamentos dos Doze Patriarcas 44:3)
- Um anjo do Senhor fere Er, o filho perverso de Judá — (Testamentos dos Doze Patriarcas 45:3)
- A embriaguez que cegou Judá quanto à esposa cananeia — (Testamentos dos Doze Patriarcas 46:2)
- Judá se desvia para Tamar e lhe entrega o cajado e o cinto como penhor — (Testamentos dos Doze Patriarcas 47:4)
Judá: o vinho, o dinheiro e o cetro
- O vinho desvia os olhos e o prazer cega o coração no banquete do rei — (Testamentos dos Doze Patriarcas 48:6)
- A ordem direta: não se embriaguem com vinho — (Testamentos dos Doze Patriarcas 49:1)
- O rei que comete devassidão é despojado da própria realeza — (Testamentos dos Doze Patriarcas 50:2)
- Os quatro espíritos malignos que habitam o vinho — (Testamentos dos Doze Patriarcas 51:1)
- Não amar o dinheiro nem fixar o olhar na beleza das mulheres — (Testamentos dos Doze Patriarcas 52:1)
- As duas paixões que cegam a alma e fazem o homem andar de dia como na noite — (Testamentos dos Doze Patriarcas 53:6)
- O amor ao dinheiro apresentado como caminho para a idolatria — (Testamentos dos Doze Patriarcas 54:1)
- O sacerdócio colocado acima da realeza, como o céu acima da terra — (Testamentos dos Doze Patriarcas 56:3)
- Reis comparados a monstros marinhos que engolem os homens como peixes — (Testamentos dos Doze Patriarcas 56:7)
- Guerras contínuas em Israel até que venha a salvação — (Testamentos dos Doze Patriarcas 57:1)
- Fome, peste, espada e cativeiro anunciados aos descendentes — (Testamentos dos Doze Patriarcas 58:3)
- Abraão, Isaque e Jacó se levantarão para a vida, e as tribos terão seus chefes — (Testamentos dos Doze Patriarcas 60:1)
- Judá recusa sepultamento em trajes custosos e pede para ser levado a Hebrom — (Testamentos dos Doze Patriarcas 61:3)
Issacar: a simplicidade e a lavoura
- Issacar nasce como pagamento pelas mandrágoras trocadas entre Lia e Raquel — (Testamentos dos Doze Patriarcas 62:2)
- Um anjo anuncia a Jacó que Raquel dará à luz dois filhos — (Testamentos dos Doze Patriarcas 63:1)
- Issacar se torna lavrador e leva os frutos do campo ao pai — (Testamentos dos Doze Patriarcas 64:1)
- Retrato do homem de coração simples, que não cobiça ouro — (Testamentos dos Doze Patriarcas 65:2)
- Curvar as costas sobre a lavoura e oferecer dádivas com ação de graças — (Testamentos dos Doze Patriarcas 66:3)
- Nos últimos tempos os filhos abandonarão a simplicidade e a lavoura — (Testamentos dos Doze Patriarcas 67:1)
- O balanço de uma vida: exceto a esposa, não conheci nenhuma mulher — (Testamentos dos Doze Patriarcas 68:2)
- Issacar pede para ser sepultado na caverna de Hebrom, com seus pais — (Testamentos dos Doze Patriarcas 68:8)
Zabulom: a compaixão e a venda de José
- Zabulom suplica aos irmãos, com lágrimas, que não matem José — (Testamentos dos Doze Patriarcas 69:7)
- Rúben propõe lançar José na cisterna em vez de matá-lo — (Testamentos dos Doze Patriarcas 70:7)
- Os irmãos compram sandálias com o preço da venda de José — (Testamentos dos Doze Patriarcas 71:1)
- A túnica mergulhada no sangue de um cabrito e enviada a Jacó — (Testamentos dos Doze Patriarcas 72:10)
- A ordem de mostrar misericórdia ao próximo e compaixão a todos — (Testamentos dos Doze Patriarcas 73:1)
- Zabulom se apresenta como o primeiro a construir um barco para navegar — (Testamentos dos Doze Patriarcas 74:1)
- A veste tirada às escondidas de casa e dada a um homem nu no inverno — (Testamentos dos Doze Patriarcas 75:1)
- Nos últimos dias Deus enviará a sua compaixão sobre a terra — (Testamentos dos Doze Patriarcas 76:2)
- A parábola das águas: juntas arrastam pedras, divididas a terra as engole — (Testamentos dos Doze Patriarcas 77:1)
- Zabulom diz que se levantará de novo no meio da sua tribo — (Testamentos dos Doze Patriarcas 78:2)
Dã: a ira e a mentira
- Dã confessa ter resolvido no coração a morte de José — (Testamentos dos Doze Patriarcas 79:5)
- Um espírito de Beliar o incita a matar José com a espada — (Testamentos dos Doze Patriarcas 79:7)
- A ira definida como cegueira, que não deixa ver o rosto de ninguém com verdade — (Testamentos dos Doze Patriarcas 80:2)
- A ira perturba a própria alma e toma o corpo para si — (Testamentos dos Doze Patriarcas 81:1)
- O poder da ira é vão: primeiro provoca pela palavra, depois fortalece pelos atos — (Testamentos dos Doze Patriarcas 82:1)
- Os santos descansarão no Éden e os justos se alegrarão na Nova Jerusalém — (Testamentos dos Doze Patriarcas 83:12)
- O anjo que intercede por Israel, chamado mediador entre Deus e os homens — (Testamentos dos Doze Patriarcas 84:1)
- Dã morre em boa velhice e seus ossos são levados para junto dos patriarcas — (Testamentos dos Doze Patriarcas 85:1)
Naftali: a ordem da natureza e as duas visões
- Naftali conta o próprio nascimento, filho de Bila sobre os joelhos de Raquel — (Testamentos dos Doze Patriarcas 86:6)
- A imagem do oleiro que conhece o vaso e mede o barro conforme ele — (Testamentos dos Doze Patriarcas 87:2)
- O sol, a lua e as estrelas não mudam a sua ordem, e nem os homens devem mudar a lei — (Testamentos dos Doze Patriarcas 88:2)
- Os Vigilantes que mudaram a ordem da sua natureza e foram amaldiçoados no dilúvio — (Testamentos dos Doze Patriarcas 88:5)
- A primeira visão, no Monte das Oliveiras, a leste de Jerusalém — (Testamentos dos Doze Patriarcas 90:1)
- Levi agarra o sol e Judá alcança a lua, e ambos são erguidos com eles — (Testamentos dos Doze Patriarcas 90:3)
- A segunda visão: o navio de Jacó, sem marinheiros nem piloto — (Testamentos dos Doze Patriarcas 91:2)
- A tempestade despedaça o navio e todos são dispersos até os confins da terra — (Testamentos dos Doze Patriarcas 91:7)
- Jacó diz crer que José ainda vive, e chora por ele — (Testamentos dos Doze Patriarcas 92:2)
- A ordem de se unir a Levi e a Judá, de quem virá a salvação de Israel — (Testamentos dos Doze Patriarcas 93:2)
- Naftali cobre o rosto e morre depois de comer e beber com o coração alegre — (Testamentos dos Doze Patriarcas 94:3)
Gade: o ódio e o perdão
- Gade, pastor valente, mata leão e lobo para defender o rebanho — (Testamentos dos Doze Patriarcas 95:3)
- O espírito do ódio nasce da queixa que José levou ao pai — (Testamentos dos Doze Patriarcas 95:9)
- Gade e Simeão vendem José aos ismaelitas por trinta peças de ouro — (Testamentos dos Doze Patriarcas 96:3)
- A advertência contra o espírito do ódio, que se opõe a toda ação alheia — (Testamentos dos Doze Patriarcas 97:1)
- O amor faria reviver até os mortos, e o ódio mataria os vivos — (Testamentos dos Doze Patriarcas 98:6)
- O ódio se une à mentira e transforma a luz em trevas — (Testamentos dos Doze Patriarcas 99:1)
- A doença do fígado como castigo medido pela própria transgressão — (Testamentos dos Doze Patriarcas 99:9)
- Orar por quem prospera mais do que você, em vez de se irritar — (Testamentos dos Doze Patriarcas 101:1)
- Gade recolhe os pés, adormece em paz e é levado a Hebrom cinco anos depois — (Testamentos dos Doze Patriarcas 102:4)
Aser: a dupla face e os dois caminhos
- Dois caminhos, duas inclinações e dois modos de ação dados aos homens — (Testamentos dos Doze Patriarcas 103:3)
- A alma que se inclina para o bem se arrepende depressa quando peca — (Testamentos dos Doze Patriarcas 103:7)
- O homem que rouba e defrauda, mas se compadece do pobre — (Testamentos dos Doze Patriarcas 104:5)
- Os de dupla face comparados às lebres, aparentemente limpas e na verdade imundas — (Testamentos dos Doze Patriarcas 104:9)
- A ordem de não usar duas faces, de bondade e de maldade — (Testamentos dos Doze Patriarcas 105:1)
- Os bons comparados a veados e corças, que parecem imundos e são limpos — (Testamentos dos Doze Patriarcas 106:5)
- Há dois em todas as coisas, um escondido pelo outro — (Testamentos dos Doze Patriarcas 107:1)
- A alma em paz encontra o anjo da paz, que a conduz para a vida eterna — (Testamentos dos Doze Patriarcas 108:6)
- A advertência para não se tornarem como Sodoma, que pecou contra os anjos — (Testamentos dos Doze Patriarcas 109:1)
- Aser adormece em boa velhice e é sepultado em Hebrom — (Testamentos dos Doze Patriarcas 110:2)
José: a provação na casa do egípcio
- O resumo da vida: lançado numa cova, e o Altíssimo o trouxe de volta — (Testamentos dos Doze Patriarcas 111:4)
- Em dez provações Deus o mostrou aprovado — (Testamentos dos Doze Patriarcas 112:7)
- Sete anos de jejum escondidos sob a aparência de quem vivia em delícias — (Testamentos dos Doze Patriarcas 113:4)
- A egípcia se oferece a abandonar os ídolos em troca do adultério — (Testamentos dos Doze Patriarcas 114:5)
- A ameaça de matar o próprio marido caso José não ceda — (Testamentos dos Doze Patriarcas 115:1)
- A comida misturada com feitiços, recusada depois de um aviso angélico — (Testamentos dos Doze Patriarcas 116:1)
- O espírito de Beliar perturbando a mulher, e a oração de José por ela — (Testamentos dos Doze Patriarcas 117:4)
- José deixa a veste nas mãos dela e foge nu — (Testamentos dos Doze Patriarcas 118:3)
- Preso, ele dá graças e canta louvores na morada das trevas — (Testamentos dos Doze Patriarcas 118:5)
- Deus ama quem une o jejum à castidade num covil de maldade — (Testamentos dos Doze Patriarcas 119:2)
- A lição tirada da provação: a paciência, a oração e o jejum — (Testamentos dos Doze Patriarcas 120:1)
José: escravidão, venda e a visão final
- José se diz escravo nascido em casa para não envergonhar os irmãos — (Testamentos dos Doze Patriarcas 121:3)
- A mulher de Mênfis ouve falar do jovem hebreu e pede ao marido que o compre — (Testamentos dos Doze Patriarcas 122:2)
- Pentefri manda despi-lo e espancá-lo por suspeitar de mentira — (Testamentos dos Doze Patriarcas 123:9)
- A mulher observa o espancamento pela janela e intercede por interesse — (Testamentos dos Doze Patriarcas 124:1)
- Os ismaelitas descobrem que ele é filho de um homem poderoso em Canaã — (Testamentos dos Doze Patriarcas 125:2)
- O eunuco paga oitenta peças de ouro e declara ter pago cem — (Testamentos dos Doze Patriarcas 126:5)
- Deus se alegra na união dos irmãos e no coração que se compraz no amor — (Testamentos dos Doze Patriarcas 127:3)
- A quem procurar fazer mal a vocês, façam o bem e orem por ele — (Testamentos dos Doze Patriarcas 128:3)
- A visão dos doze cervos a pastar, dos quais nove são dispersos — (Testamentos dos Doze Patriarcas 129:2)
- Os doze touros mamando de uma só vaca que produzia um mar de leite — (Testamentos dos Doze Patriarcas 129:5)
- A ordem de levar os seus ossos ao sair do Egito — (Testamentos dos Doze Patriarcas 130:2)
Benjamim: a mente pura e o homem bom
- O nome Benjamim explicado como filho dos dias — (Testamentos dos Doze Patriarcas 131:6)
- José conta a Benjamim a versão da túnica manchada de sangue — (Testamentos dos Doze Patriarcas 132:2)
- A exortação a seguir o exemplo do homem bom e santo, José — (Testamentos dos Doze Patriarcas 133:1)
- Quem teme a Deus e ama o próximo não pode ser ferido por Beliar — (Testamentos dos Doze Patriarcas 133:4)
- O homem bom não tem olho sombrio e mostra misericórdia a todos — (Testamentos dos Doze Patriarcas 134:3)
- Quem faz o bem afugenta até os espíritos imundos — (Testamentos dos Doze Patriarcas 135:3)
- O anjo da paz guia a alma do homem de boa inclinação — (Testamentos dos Doze Patriarcas 136:1)
- A espada de Beliar apresentada como mãe de sete males — (Testamentos dos Doze Patriarcas 137:2)
- Caim entregue a sete vinganças, uma praga a cada cem anos — (Testamentos dos Doze Patriarcas 137:3)
- A imagem do sol que brilha sobre o esterco e não se contamina — (Testamentos dos Doze Patriarcas 138:3)
- O último templo anunciado como mais glorioso que o primeiro — (Testamentos dos Doze Patriarcas 139:2)
- Enoque, Noé, Sem, Abraão, Isaque e Jacó ressuscitando à direita em alegria — (Testamentos dos Doze Patriarcas 140:6)
- Benjamim deixa de ser chamado lobo voraz e vira trabalhador do Senhor — (Testamentos dos Doze Patriarcas 141:1)
- A ordem final: levar os ossos para fora do Egito e sepultá-los em Hebrom — (Testamentos dos Doze Patriarcas 142:1)
Os dois espíritos e os dois caminhos
A obra descreve a vida moral como um conflito entre duas forças que disputam a mente. Aser desenvolve a doutrina dos dois caminhos, Judá fala de dois espíritos que aguardam o homem, e vários testamentos atribuem os vícios a espíritos nomeados: o do ciúme, o da ira, o do ódio, os quatro que habitam o vinho. O adversário aparece com o nome Beliar, e um anjo intercessor ou anjo da paz aparece do lado oposto. Essa mesma gramática moral, com dois caminhos e dois espíritos, aparece na Regra da Comunidade de Qumran e na Didaqué, o que situa a obra num ambiente judaico do período do Segundo Templo em que essas categorias eram correntes.
A doutrina dos dois caminhos ao longo da obra
- Sete espíritos do erro atuando sobre a juventude — (Testamentos dos Doze Patriarcas 2:2)
- Dois espíritos aguardam o homem, o da verdade e o do erro — (Testamentos dos Doze Patriarcas 55:1)
- Entre eles está o espírito do entendimento, livre para se voltar aonde quiser — (Testamentos dos Doze Patriarcas 55:2)
- Beliar foge de quem guarda a lei e se afasta da ira — (Testamentos dos Doze Patriarcas 83:1)
- Dois caminhos, o do bem e o do mal, e as duas inclinações no peito — (Testamentos dos Doze Patriarcas 103:5)
- A alma perturbada é atormentada pelo espírito mau a quem serviu — (Testamentos dos Doze Patriarcas 108:5)
Saibam, portanto, meus filhos, que dois espíritos aguardam o homem: o espírito da verdade e o espírito do erro.
Ética que antecipa o Novo Testamento
Vários temas dos Testamentos reaparecem no Novo Testamento. O texto resume a lei no duplo amor a Deus e ao próximo, próximo do mandamento que Jesus apresenta em Mateus. O Testamento de Dã manda guardar-se da ira, ideia que ecoa o "não se ponha o sol sobre a vossa ira" de Efésios. O Testamento de Gade insiste no amor mútuo e no perdão de coração de quem peca contra você, e o Testamento de José recomenda fazer o bem a quem procura fazer o mal. O Testamento de Aser, como a Didaqué, desenvolve a doutrina dos dois caminhos. Esses contatos indicam um ambiente ético comum entre o judaísmo do período e o cristianismo nascente. Como parte da obra passou por mãos cristãs, é difícil dizer, caso a caso, se a semelhança é herança judaica compartilhada ou retoque posterior.
Passagens de contato com o ensino cristão
- Amar o Senhor e o próximo, próximo do duplo mandamento de Jesus — (Testamentos dos Doze Patriarcas 66:2)
- Mostrar misericórdia ao próximo e compaixão a todos, não só aos da própria casa — (Testamentos dos Doze Patriarcas 73:1)
- Deus habita onde encontra entranhas de misericórdia — (Testamentos dos Doze Patriarcas 76:3)
- Guardar-se do espírito da ira, tema que ecoa Efésios 4:26 — (Testamentos dos Doze Patriarcas 80:1)
- Perdoar de coração quem peca contra você e deixar a vingança a Deus — (Testamentos dos Doze Patriarcas 100:7)
- Orar por quem prospera, em vez de invejar — (Testamentos dos Doze Patriarcas 101:1)
- Fazer o bem e orar por quem procura fazer o mal — (Testamentos dos Doze Patriarcas 128:3)
Amem, portanto, uns aos outros de coração; e se um homem pecar contra você, lance fora o veneno do ódio e fale em paz com ele, e na sua alma não guarde engano; e se ele confessar e se arrepender, perdoe-o.
Enoque citado como escritura
Um detalhe importante para quem estuda a formação do cânon: os Testamentos citam repetidamente "o escrito de Enoque" ou "o livro de Enoque, o justo" como autoridade. Isso mostra que a literatura enóquica circulava com estatuto de texto sagrado em parte do judaísmo do período, o mesmo pano de fundo que explica a citação de Enoque na carta de Judas. As referências não permitem identificar com certeza qual porção do corpus enóquico o autor tinha em mãos, e alguns dos conteúdos atribuídos a Enoque não são encontrados no 1 Enoque que sobreviveu.
Onde Enoque e os Vigilantes aparecem
- As mulheres que atraíram os Vigilantes e geraram gigantes — (Testamentos dos Doze Patriarcas 5:6)
- Simeão diz ter visto no escrito de Enoque a corrupção dos descendentes — (Testamentos dos Doze Patriarcas 12:4)
- O nome de Jerusalém apoiado no livro de Enoque, o justo — (Testamentos dos Doze Patriarcas 26:5)
- Dã diz ter lido no livro de Enoque que Satanás é o príncipe deles — (Testamentos dos Doze Patriarcas 83:6)
- Naftali apela ao escrito de Enoque para anunciar o afastamento futuro — (Testamentos dos Doze Patriarcas 89:1)
- Os Vigilantes que mudaram a ordem da sua natureza — (Testamentos dos Doze Patriarcas 88:5)
- Benjamim invoca as palavras de Enoque contra a fornicação de Sodoma — (Testamentos dos Doze Patriarcas 139:1)
Profecias messiânicas e camadas cristãs
Dois eixos atravessam a obra: o sacerdote novo anunciado no Testamento de Levi e o rei que se levanta no Testamento de Judá. Esse par, um messias sacerdotal e um messias régio, lembra a expectativa de dois ungidos atestada em Qumran, um de Aarão e um de Israel. No plano judaico isso reflete uma esperança real do período, e a insistência da obra em mandar as demais tribos obedecerem a Levi e a Judá aponta na mesma direção.
Outras passagens, porém, são difíceis de ler como judaicas. O Testamento de Benjamim fala de um sem culpa entregue por homens sem lei e levantado sobre uma árvore, e do véu do templo que se rasga; o Testamento de José descreve uma virgem da qual sai um Cordeiro. Nesses trechos a tradução usada aqui marca colchetes, sinalizando o que os editores consideram acréscimo cristão. Convém tratar essas profecias com cautela e não usá-las isoladas como prova de uma tese ou de outra, porque a datação de cada frase depende justamente da questão em disputa.
As passagens messiânicas
- De Levi um sumo sacerdote e de Judá um rei, para a salvação de Israel — (Testamentos dos Doze Patriarcas 14:2)
- Um novo sacerdote a quem todas as palavras do Senhor serão reveladas — (Testamentos dos Doze Patriarcas 34:2)
- A estrela do sacerdote novo se levantando no céu como a de um rei — (Testamentos dos Doze Patriarcas 34:3)
- Uma estrela de Jacó e um homem que se levanta como sol da justiça — (Testamentos dos Doze Patriarcas 59:1)
- A salvação de Israel surgindo pelas tribos de Levi e de Judá — (Testamentos dos Doze Patriarcas 93:2)
- A virgem de túnica de muitas cores da qual sai um Cordeiro — (Testamentos dos Doze Patriarcas 129:8)
- A profecia do sem culpa entregue por homens sem lei — (Testamentos dos Doze Patriarcas 133:8)
- O véu do templo que se rasga e o Espírito que passa aos gentios — (Testamentos dos Doze Patriarcas 139:4)
- O amado do Senhor que surgirá da semente de Benjamim nos últimos tempos — (Testamentos dos Doze Patriarcas 141:2)
Então o Senhor levantará um novo sacerdote. E a ele todas as palavras do Senhor serão reveladas.
Relação com Gênesis
Os Testamentos pressupõem a narrativa de Gênesis e a ampliam. O leitor reconhece o episódio de Rúben com Bila, a vingança de Siquém, o caso de Judá com Tamar, a venda de José e a resistência de José à mulher do egípcio. Mas o texto acrescenta muito: guerras inteiras entre os filhos de Jacó e reis cananeus, diálogos internos, motivações psicológicas, e uma cronologia detalhada da vida de cada patriarca. Em pontos concretos a obra diverge do texto bíblico, por exemplo ao dar o preço da venda de José como trinta peças de ouro, enquanto Gênesis fala de vinte peças de prata. Esse tipo de ampliação narrativa aproxima a obra do Livro dos Jubileus e da literatura judaica de reescrita bíblica do período.
Manuscritos e transmissão
O texto completo sobreviveu em grego, em manuscritos cristãos medievais, distribuídos pelos editores em duas famílias textuais. Há ainda versões antigas em armênio, com numerosos manuscritos, e em eslavo. Nenhum manuscrito grego é anterior à Idade Média, o que é um dado central do debate sobre autoria: tudo o que temos por inteiro nos chega por mãos cristãs.
No Ocidente latino a obra ficou conhecida por um caminho documentado. O cronista Mateus Paris conta que João de Basingstoke havia visto em Atenas, na biblioteca de Miguel Coniates, um manuscrito grego dos Testamentos. Roberto Grosseteste, bispo de Lincoln, mandou buscá-lo e concluiu em 1242 uma tradução latina, feita com a ajuda de Nicolau, o Grego. O códice usado por ele, hoje na Biblioteca da Universidade de Cambridge (MS Ff.1.24), traz anotações de sua própria mão. Grosseteste e seus contemporâneos acreditavam estar diante da tradução de um original hebraico com as palavras autênticas dos filhos de Jacó, e a versão latina teve grande circulação na Europa medieval.
A edição crítica de referência do texto grego é a preparada por Marinus de Jonge e colaboradores, publicada pela Brill em 1978. A tradução em português deste site parte da versão inglesa de domínio público de R. H. Charles, publicada em 1908 a partir do seu próprio texto grego, modernizada para o leitor brasileiro.
Recepção e por que não é canônica
Orígenes cita os Testamentos pelo nome nas suas Homilias sobre Josué, o que atesta a circulação da obra entre cristãos já no terceiro século. Não há, porém, uso litúrgico estável nem inclusão em lista canônica de tradição alguma: nem judaica, nem católica, nem ortodoxa, nem etíope, nem protestante. Pesaram contra a obra a pseudepigrafia declarada, a presença reconhecida de interpolações cristãs sobre um fundo judaico e a transmissão por vias secundárias.
Sua importância hoje é histórica e não canônica. Os Testamentos documentam a ética, a demonologia e a expectativa messiânica de parte do judaísmo do período do Segundo Templo, ajudam a explicar o ambiente em que nasceu o cristianismo e servem de caso exemplar do problema de separar camadas judaicas e cristãs num texto transmitido por copistas cristãos.
Comparativo com a Bíblia
A tabela abaixo alinha trechos dos Testamentos com passagens bíblicas de tema semelhante, para o leitor comparar diretamente. O alinhamento é temático e não afirma dependência de um texto sobre o outro.