Capítulos

Jacó moribundo abençoa os doze filhos

Testamentos dos Doze Patriarcas

Os discursos de despedida dos doze filhos de Jacó (Rúben a Benjamim), pseudepígrafo judaico do séc. II a.C. com camadas cristãs

Os Testamentos dos Doze Patriarcas são um pseudepígrafo em que cada um dos doze filhos de Jacó faz um discurso de despedida aos seus descendentes, no gênero literário do "testamento". Cada patriarca recorda sua vida, confessa seus erros e tira deles uma lição moral. A obra é anônima e atribuída ficcionalmente aos próprios patriarcas, não escrita por eles.

Autoria e Data de Composição

O núcleo da obra é judaico. A datação é debatida: R. H. Charles propôs uma origem no período hasmoneu, no fim do segundo século antes de Cristo, com camadas acrescentadas depois. Sobre esse núcleo há interpolações cristãs, com passagens messiânicas explícitas. Esse é o ponto central da discussão acadêmica de mais de um século: para Charles, trata-se de uma obra judaica com acréscimos cristãos; Marinus de Jonge, a partir da sua tese de 1953, defendeu que o texto que temos é uma composição cristã que reaproveita fontes judaicas. Não há consenso fechado. H. C. Kee, na coletânea de Charlesworth, voltou a defender um original judaico por volta de 100 a.C.; Hollander e de Jonge, no comentário de 1985, mantiveram a leitura cristã.

A favor de fontes pré-cristãs pesam achados externos. Em Qumran apareceram fragmentos do Documento Aramaico de Levi (1Q21, 4Q213-214), datados paleograficamente dos séculos segundo e primeiro antes de Cristo, aparentados ao Testamento de Levi, e um Testamento de Naftali em hebraico (4Q215). Folhas do mesmo material sobre Levi já haviam surgido na Genizá do Cairo, hoje divididas entre Cambridge e a Bodleian de Oxford, e um trecho grego do mesmo texto sobrevive interpolado no manuscrito Koutloumousiou 39, do Monte Atos. Esses materiais mostram que pelo menos parte da tradição por trás dos Testamentos circulava em meio judaico antes do cristianismo. O que eles não resolvem é a questão do conjunto: uma fonte antiga sobre Levi não prova que os doze discursos, na forma grega em que os lemos, sejam judaicos.

A leitura mais comum hoje trabalha com uma base judaica retocada por mãos cristãs, sem pretender separar as camadas com precisão. A tradução usada neste site marca com colchetes vários trechos que os editores consideram acréscimos, o que dá ao leitor uma amostra de onde a suspeita recai.

Estrutura e conteúdo

Cada testamento liga um patriarca a uma virtude ou a um vício, tomados como tema do discurso. Rúben fala da devassidão, Simeão da inveja, Levi do sacerdócio, Judá do vinho e da luxúria, Issacar da simplicidade, Zabulom da compaixão, Dã da ira, Naftali da ordem da natureza, Gade do ódio, Aser dos dois caminhos, José da castidade e Benjamim da mente pura. A estrutura típica se repete: o patriarca recorda a própria história, expõe o pecado ou a virtude, exorta os filhos e termina com uma previsão sobre o futuro de Israel, quase sempre seguida da ordem de levar seus ossos para Hebrom.

A obra está organizada aqui em cento e quarenta e dois capítulos sequenciais, que reúnem os doze testamentos nesta ordem: Rúben (1 a 7), Simeão (8 a 16), Levi (17 a 35), Judá (36 a 61), Issacar (62 a 68), Zabulom (69 a 78), Dã (79 a 85), Naftali (86 a 94), Gade (95 a 102), Aser (103 a 110), José (111 a 130) e Benjamim (131 a 142).

Rúben: a devassidão e os sete espíritos

Simeão: a inveja e o ciúme de José

Levi: as visões celestes e a investidura sacerdotal

Levi: a denúncia do sacerdócio e o sacerdote novo

Judá: as guerras da juventude

Judá: o vinho, o dinheiro e o cetro

Issacar: a simplicidade e a lavoura

Zabulom: a compaixão e a venda de José

Dã: a ira e a mentira

Naftali: a ordem da natureza e as duas visões

Gade: o ódio e o perdão

Aser: a dupla face e os dois caminhos

José: a provação na casa do egípcio

José: escravidão, venda e a visão final

Benjamim: a mente pura e o homem bom

Os dois espíritos e os dois caminhos

A obra descreve a vida moral como um conflito entre duas forças que disputam a mente. Aser desenvolve a doutrina dos dois caminhos, Judá fala de dois espíritos que aguardam o homem, e vários testamentos atribuem os vícios a espíritos nomeados: o do ciúme, o da ira, o do ódio, os quatro que habitam o vinho. O adversário aparece com o nome Beliar, e um anjo intercessor ou anjo da paz aparece do lado oposto. Essa mesma gramática moral, com dois caminhos e dois espíritos, aparece na Regra da Comunidade de Qumran e na Didaqué, o que situa a obra num ambiente judaico do período do Segundo Templo em que essas categorias eram correntes.

A doutrina dos dois caminhos ao longo da obra

Saibam, portanto, meus filhos, que dois espíritos aguardam o homem: o espírito da verdade e o espírito do erro.

Testamentos dos Doze Patriarcas 55:1

Ética que antecipa o Novo Testamento

Vários temas dos Testamentos reaparecem no Novo Testamento. O texto resume a lei no duplo amor a Deus e ao próximo, próximo do mandamento que Jesus apresenta em Mateus. O Testamento de Dã manda guardar-se da ira, ideia que ecoa o "não se ponha o sol sobre a vossa ira" de Efésios. O Testamento de Gade insiste no amor mútuo e no perdão de coração de quem peca contra você, e o Testamento de José recomenda fazer o bem a quem procura fazer o mal. O Testamento de Aser, como a Didaqué, desenvolve a doutrina dos dois caminhos. Esses contatos indicam um ambiente ético comum entre o judaísmo do período e o cristianismo nascente. Como parte da obra passou por mãos cristãs, é difícil dizer, caso a caso, se a semelhança é herança judaica compartilhada ou retoque posterior.

Passagens de contato com o ensino cristão

Amem, portanto, uns aos outros de coração; e se um homem pecar contra você, lance fora o veneno do ódio e fale em paz com ele, e na sua alma não guarde engano; e se ele confessar e se arrepender, perdoe-o.

Testamentos dos Doze Patriarcas 100:3

Enoque citado como escritura

Um detalhe importante para quem estuda a formação do cânon: os Testamentos citam repetidamente "o escrito de Enoque" ou "o livro de Enoque, o justo" como autoridade. Isso mostra que a literatura enóquica circulava com estatuto de texto sagrado em parte do judaísmo do período, o mesmo pano de fundo que explica a citação de Enoque na carta de Judas. As referências não permitem identificar com certeza qual porção do corpus enóquico o autor tinha em mãos, e alguns dos conteúdos atribuídos a Enoque não são encontrados no 1 Enoque que sobreviveu.

Onde Enoque e os Vigilantes aparecem

Profecias messiânicas e camadas cristãs

Dois eixos atravessam a obra: o sacerdote novo anunciado no Testamento de Levi e o rei que se levanta no Testamento de Judá. Esse par, um messias sacerdotal e um messias régio, lembra a expectativa de dois ungidos atestada em Qumran, um de Aarão e um de Israel. No plano judaico isso reflete uma esperança real do período, e a insistência da obra em mandar as demais tribos obedecerem a Levi e a Judá aponta na mesma direção.

Outras passagens, porém, são difíceis de ler como judaicas. O Testamento de Benjamim fala de um sem culpa entregue por homens sem lei e levantado sobre uma árvore, e do véu do templo que se rasga; o Testamento de José descreve uma virgem da qual sai um Cordeiro. Nesses trechos a tradução usada aqui marca colchetes, sinalizando o que os editores consideram acréscimo cristão. Convém tratar essas profecias com cautela e não usá-las isoladas como prova de uma tese ou de outra, porque a datação de cada frase depende justamente da questão em disputa.

As passagens messiânicas

Então o Senhor levantará um novo sacerdote. E a ele todas as palavras do Senhor serão reveladas.

Testamentos dos Doze Patriarcas 34:2

Relação com Gênesis

Os Testamentos pressupõem a narrativa de Gênesis e a ampliam. O leitor reconhece o episódio de Rúben com Bila, a vingança de Siquém, o caso de Judá com Tamar, a venda de José e a resistência de José à mulher do egípcio. Mas o texto acrescenta muito: guerras inteiras entre os filhos de Jacó e reis cananeus, diálogos internos, motivações psicológicas, e uma cronologia detalhada da vida de cada patriarca. Em pontos concretos a obra diverge do texto bíblico, por exemplo ao dar o preço da venda de José como trinta peças de ouro, enquanto Gênesis fala de vinte peças de prata. Esse tipo de ampliação narrativa aproxima a obra do Livro dos Jubileus e da literatura judaica de reescrita bíblica do período.

Manuscritos e transmissão

O texto completo sobreviveu em grego, em manuscritos cristãos medievais, distribuídos pelos editores em duas famílias textuais. Há ainda versões antigas em armênio, com numerosos manuscritos, e em eslavo. Nenhum manuscrito grego é anterior à Idade Média, o que é um dado central do debate sobre autoria: tudo o que temos por inteiro nos chega por mãos cristãs.

No Ocidente latino a obra ficou conhecida por um caminho documentado. O cronista Mateus Paris conta que João de Basingstoke havia visto em Atenas, na biblioteca de Miguel Coniates, um manuscrito grego dos Testamentos. Roberto Grosseteste, bispo de Lincoln, mandou buscá-lo e concluiu em 1242 uma tradução latina, feita com a ajuda de Nicolau, o Grego. O códice usado por ele, hoje na Biblioteca da Universidade de Cambridge (MS Ff.1.24), traz anotações de sua própria mão. Grosseteste e seus contemporâneos acreditavam estar diante da tradução de um original hebraico com as palavras autênticas dos filhos de Jacó, e a versão latina teve grande circulação na Europa medieval.

A edição crítica de referência do texto grego é a preparada por Marinus de Jonge e colaboradores, publicada pela Brill em 1978. A tradução em português deste site parte da versão inglesa de domínio público de R. H. Charles, publicada em 1908 a partir do seu próprio texto grego, modernizada para o leitor brasileiro.

Recepção e por que não é canônica

Orígenes cita os Testamentos pelo nome nas suas Homilias sobre Josué, o que atesta a circulação da obra entre cristãos já no terceiro século. Não há, porém, uso litúrgico estável nem inclusão em lista canônica de tradição alguma: nem judaica, nem católica, nem ortodoxa, nem etíope, nem protestante. Pesaram contra a obra a pseudepigrafia declarada, a presença reconhecida de interpolações cristãs sobre um fundo judaico e a transmissão por vias secundárias.

Sua importância hoje é histórica e não canônica. Os Testamentos documentam a ética, a demonologia e a expectativa messiânica de parte do judaísmo do período do Segundo Templo, ajudam a explicar o ambiente em que nasceu o cristianismo e servem de caso exemplar do problema de separar camadas judaicas e cristãs num texto transmitido por copistas cristãos.

Comparativo com a Bíblia

A tabela abaixo alinha trechos dos Testamentos com passagens bíblicas de tema semelhante, para o leitor comparar diretamente. O alinhamento é temático e não afirma dependência de um texto sobre o outro.