Capítulos
A Cidade de Deus - Livro XVI
A Cidade de Deus, de Agostinho
A Cidade de Deus foi escrita por Agostinho de Hipona (354-430) entre cerca de 413 e 426, em 22 livros, e nasceu como resposta ao saque de Roma por Alarico em 410. Pagãos acusavam o cristianismo de ter causado a queda da cidade ao afastá-la dos deuses ancestrais. Agostinho inverte a acusação e organiza a história inteira em torno de duas cidades misturadas no tempo: a terrena, fundada no amor de si, e a celeste, fundada no amor de Deus. Os livros I a X refutam o paganismo; os livros XI a XXII descrevem a origem, o curso e o fim das duas cidades.
O Livro XVI na obra
O Livro XVI pertence à segunda metade da obra, a que segue o curso histórico das duas cidades. Ele se divide em dois blocos. A primeira parte (caps. 1 a 11) acompanha as duas cidades de Noé a Abraão: a linhagem de Sem preservando a cidade de Deus, a dispersão das nações e a confusão das línguas em Babel, identificada com a Babilônia como cidade terrena. A segunda parte (caps. 12 a 43) abandona a cidade terrena e segue só a celeste, de Abraão até os primeiros reis de Israel, lendo as promessas e os episódios do Gênesis como figuras que Agostinho vê cumpridas em Cristo e na Igreja.
O método: leitura figural do Gênesis
Boa parte do livro é exegese tipológica. Agostinho lê os filhos de Noé, a bênção de Jacó, o sacrifício de Isaque e a páscoa como prenúncios de Cristo. Ele reconhece que sua interpretação é discutível e que nem todo detalhe do texto carrega significado, comparando a narrativa a um arado em que só a relha fende o solo enquanto as outras peças apenas sustentam o conjunto (
“Nem todos aceitarão a nossa interpretação com igual confiança, mas todos têm por certo que estas coisas não foram feitas nem registradas sem algum prenúncio de acontecimentos futuros.”Agostinho de Hipona, A Cidade de Deus - Livro XVI 2:11
As digressões apologéticas
Antes de chegar a Abraão, Agostinho enfrenta objeções à universalidade da descendência humana. Discute se as raças monstruosas que os historiadores antigos relatam (ciclopes, pigmeus, cinocéfalos) descendem de Adão, e conclui que, se de fato existem e são racionais e mortais, então são humanas e descendem do primeiro homem (
Babel, as setenta e duas nações e o hebraico
Agostinho identifica a torre de Babel com a fundação da Babilônia por Nimrode, lendo o nome "Babilônia" como "Confusão" (
Conteúdo do Livro
- Se, depois do dilúvio, de Noé a Abraão, é possível encontrar famílias que viveram segundo Deus — (A Cidade de Deus - Livro XVI 1)
- O que foi profeticamente prefigurado nos filhos de Noé — (A Cidade de Deus - Livro XVI 2)
- Das gerações dos três filhos de Noé — (A Cidade de Deus - Livro XVI 3)
- Da diversidade das línguas e da fundação de Babilônia — (A Cidade de Deus - Livro XVI 4)
- Da descida de Deus para confundir as línguas dos construtores da cidade — (A Cidade de Deus - Livro XVI 5)
- O que devemos entender pela fala de Deus aos anjos — (A Cidade de Deus - Livro XVI 6)
- Se também as ilhas mais remotas receberam suas espécies de animais do dilúvio — (A Cidade de Deus - Livro XVI 7)
- Se certas raças monstruosas de homens descendem da linhagem de Adão ou dos filhos de Noé — (A Cidade de Deus - Livro XVI 8)
- Se devemos crer nos antípodas — (A Cidade de Deus - Livro XVI 9)
- Da genealogia de Sem, em cuja linhagem se preserva a cidade de Deus até o tempo de Abraão — (A Cidade de Deus - Livro XVI 10)
- Que a língua original dos homens foi a depois chamada hebraica, de Héber, em cuja família se preservou na confusão das línguas — (A Cidade de Deus - Livro XVI 11)
- Da época na vida de Abraão a partir da qual começa um novo período na sucessão sagrada — (A Cidade de Deus - Livro XVI 12)
- Por que, na migração de Tará dos caldeus à Mesopotâmia, não se menciona seu filho Naor — (A Cidade de Deus - Livro XVI 13)
- Os anos de Tará, que completou sua vida em Harã — (A Cidade de Deus - Livro XVI 14)
- Do tempo da migração de Abraão, quando, por mandamento de Deus, saiu de Harã — (A Cidade de Deus - Livro XVI 15)
- Da ordem e da natureza das promessas de Deus feitas a Abraão — (A Cidade de Deus - Livro XVI 16)
- Dos três reinos mais famosos das nações, dos quais o Assírio já era muito eminente quando Abraão nasceu — (A Cidade de Deus - Livro XVI 17)
- Do repetido pronunciamento de Deus a Abraão, prometendo a terra de Canaã a ele e à sua descendência — (A Cidade de Deus - Livro XVI 18)
- Da preservação da castidade de Sara no Egito, quando Abraão a chamou não de esposa, mas de irmã — (A Cidade de Deus - Livro XVI 19)
- Da separação entre Ló e Abraão, com a qual concordaram sem quebra de caridade — (A Cidade de Deus - Livro XVI 20)
- Da terceira promessa de Deus, que assegurou a Abraão e à sua descendência a terra de Canaã para sempre — (A Cidade de Deus - Livro XVI 21)
- Como Abraão venceu os inimigos de Sodoma, libertou Ló do cativeiro e foi abençoado pelo sacerdote Melquisedeque — (A Cidade de Deus - Livro XVI 22)
- Da palavra do Senhor a Abraão, prometendo posteridade como as estrelas; ao crer, foi justificado ainda incircunciso — (A Cidade de Deus - Livro XVI 23)
- Sobre o significado do sacrifício que Abraão recebeu ordem de oferecer ao pedir ser instruído acerca da promessa — (A Cidade de Deus - Livro XVI 24)
- Sobre Agar, a serva de Sara, que a própria Sara quis que fosse concubina de Abraão — (A Cidade de Deus - Livro XVI 25)
- Do testemunho de Deus a Abraão, prometendo filho da estéril Sara, constituindo-o pai das nações e selando sua fé pela circuncisão — (A Cidade de Deus - Livro XVI 26)
- Do varão que perderia a alma se não fosse circuncidado ao oitavo dia, por ter rompido a aliança de Deus — (A Cidade de Deus - Livro XVI 27)
- Da mudança de nome em Abraão e Sara, que receberam o dom da fecundidade já incapazes de gerar — (A Cidade de Deus - Livro XVI 28)
- Dos três homens ou anjos em quem o Senhor apareceu a Abraão junto ao carvalho de Manre — (A Cidade de Deus - Livro XVI 29)
- Da libertação de Ló e da destruição de Sodoma pelo fogo do céu; e de Abimeleque, cuja luxúria não prejudicou a castidade de Sara — (A Cidade de Deus - Livro XVI 30)
- De Isaque, nascido segundo a promessa, cujo nome foi dado por causa do riso de ambos os pais — (A Cidade de Deus - Livro XVI 31)
- Da obediência e da fé de Abraão, provadas pelo oferecimento do filho em sacrifício; e da morte de Sara — (A Cidade de Deus - Livro XVI 32)
- Sobre Rebeca, neta de Naor, que Isaque tomou por esposa — (A Cidade de Deus - Livro XVI 33)
- O que significa Abraão ter desposado Quetura após a morte de Sara — (A Cidade de Deus - Livro XVI 34)
- O que foi indicado pela resposta divina acerca dos gêmeos ainda no ventre de Rebeca — (A Cidade de Deus - Livro XVI 35)
- Do oráculo e da bênção que Isaque recebeu, assim como seu pai, sendo amado por causa dele — (A Cidade de Deus - Livro XVI 36)
- Das coisas misticamente prefiguradas em Esaú e Jacó — (A Cidade de Deus - Livro XVI 37)
- Da missão de Jacó à Mesopotâmia para tomar esposa, da visão em sonho e de como obteve quatro mulheres buscando uma só — (A Cidade de Deus - Livro XVI 38)
- A razão pela qual Jacó também foi chamado Israel — (A Cidade de Deus - Livro XVI 39)
- Como se diz que Jacó entrou no Egito com setenta e cinco almas, sendo que a maioria dos mencionados nasceu depois — (A Cidade de Deus - Livro XVI 40)
- Da bênção que Jacó prometeu a Judá, seu filho — (A Cidade de Deus - Livro XVI 41)
- Dos filhos de José, a quem Jacó abençoou cruzando profeticamente as mãos — (A Cidade de Deus - Livro XVI 42)
- Dos tempos de Moisés, de Josué, filho de Num, dos juízes e dos reis, dos quais Saul foi o primeiro e Davi o principal — (A Cidade de Deus - Livro XVI 43)
De Noé a Babel: as nações e a confusão das línguas (caps. 1 a 11)
Abraão: vocação, promessas e aliança (caps. 12 a 28)
Sodoma, Isaque e o sacrifício (caps. 29 a 34)
Isaque, Jacó e José: a descendência eleita (caps. 35 a 43)
Das idades do mundo até os reis de Israel
O livro fecha emendando o relato dos patriarcas com o resumo do êxodo, da lei no Sinai, da conquista sob Josué (cujo nome Agostinho liga a Jesus), dos juízes e dos primeiros reis, de Saul a Davi (
Texto e Tradução
O texto é apresentado aqui em português ao lado do inglês da tradução clássica de Marcus Dods (1871, domínio público), feita a partir do latim de De Civitate Dei. A citação segue a divisão tradicional por livro, capítulo e seção, adotada nas edições críticas modernas.