A Cidade de Deus - Livro XVI 32

Livro XVI: de Noé a Abraão e aos reis, e a linhagem terrena da cidade de Deus

Da obediência e da fé de Abraão, provadas pelo oferecimento de seu filho em sacrifício; e da morte de Sara

Entre outras coisas, das quais seria longo demais mencionar a totalidade, Abraão foi tentado acerca do oferecimento de seu filho dileto Isaque, para que se provasse a sua piedosa obediência e assim se tornasse ela conhecida ao mundo, não a Deus. Ora, nem toda tentação é repreensível; pode até ser louvável, porque proporciona prova.
E, na maior parte das vezes, a mente humana não pode chegar ao conhecimento de si mesma senão pondo à prova as suas próprias forças por meio da tentação, mediante uma espécie de interrogação de si experimental e não meramente verbal; quando, então, se reconheceu o dom de Deus, ela é piedosa, e consolida-se por uma graça constante e não se incha de jactância vã. É certo que Abraão jamais poderia crer que Deus se comprazia em sacrifícios humanos; contudo, quando o mandamento divino troou, cumpria obedecer-lhe, não disputá-lo.
Todavia, Abraão é digno de louvor, porque durante todo aquele tempo creu que seu filho, depois de oferecido, ressurgiria; pois Deus lhe dissera, quando ele relutava em satisfazer o desejo de sua esposa, lançando fora a escrava e o filho dela: "Em Isaque será chamada a tua descendência." Sem dúvida prossegue Ele dizendo: "E quanto ao filho desta escrava, dele farei uma grande nação, porque é tua descendência." Como, então, se diz "Em Isaque será chamada a tua descendência", se Deus chama também a Ismael sua descendência?
O apóstolo, explicando isto, diz: "Em Isaque será chamada a tua descendência, isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência." Para que, pois, os filhos da promessa sejam a descendência de Abraão, são chamados em Isaque, isto é, são reunidos em Cristo pelo chamamento da graça.
Por isso o pai, retendo firmemente desde o princípio a promessa que devia cumprir-se por meio deste filho que Deus lhe ordenara matar, não duvidou de que aquele que outrora julgara impossível jamais vir a receber lhe seria restituído depois de o haver oferecido. É deste modo que se de entender e explicar também a passagem da Epístola aos Hebreus.
"Pela fé", diz ele, "Abraão venceu, quando tentado acerca de Isaque: e aquele que recebera a promessa ofereceu o seu filho unigênito, a quem fora dito: Em Isaque será chamada a tua descendência: julgando que Deus era poderoso para o ressuscitar até dentre os mortos"; por isso acrescentou: "de onde também o recobrou em figura." Em figura de quem, senão daquele de quem o apóstolo diz: "Aquele que não poupou o seu próprio Filho, mas por todos nós o entregou?" E por esta razão o próprio Isaque levou também ao lugar do sacrifício a lenha sobre a qual havia de ser oferecido, assim como o próprio Senhor levou a sua própria cruz.
Por fim, visto que Isaque não devia ser morto, depois que se proibiu a seu pai que o ferisse, que carneiro era aquele cujo oferecimento completou aquele sacrifício com sangue figurativo? Pois, quando Abraão o viu, ele estava preso pelos chifres num espinheiro. Que representava, então, ele, senão Jesus, que, antes de ser oferecido, foi coroado de espinhos pelos judeus?
Mas ouçamos antes as palavras divinas proferidas por meio do anjo. Pois diz a Escritura: "E Abraão estendeu a sua mão para tomar o cutelo, a fim de matar o seu filho. E o anjo do Senhor lhe bradou desde o céu, e disse: Abraão. E ele respondeu: Eis-me aqui. E disse: Não estendas a tua mão sobre o menino, nem lhe faças coisa alguma: porque agora sei que temes a Deus, e não poupaste o teu filho amado por amor de mim." Diz-se "Agora sei", isto é, agora fiz que se tornasse conhecido; pois Deus não ignorava isto anteriormente.
Então, havendo oferecido aquele carneiro em lugar de Isaque, seu filho, "Abraão", como lemos, "chamou ao nome daquele lugar O Senhor vê: como se diz no dia de hoje, No monte o Senhor apareceu." Assim como se diz "Agora sei" por "Agora fiz que se tornasse conhecido", assim também aqui "O Senhor vê" por "O Senhor apareceu", isto é, fez-se ver.
"E o anjo do Senhor bradou a Abraão desde o céu pela segunda vez, dizendo: Por mim mesmo jurei, diz o Senhor; porquanto fizeste esta coisa, e não poupaste o teu filho amado por amor de mim; que em te abençoando te abençoarei, e em multiplicando multiplicarei a tua descendência como as estrelas do céu, e como a areia que está na praia do mar; e a tua descendência possuirá por herança as cidades dos adversários: e na tua descendência serão benditas todas as nações da terra; porquanto obedeceste à minha voz." Desta maneira aquela promessa acerca do chamamento das nações na descendência de Abraão é confirmada até pelo juramento de Deus, depois daquele holocausto que figurava a Cristo.
Pois muitas vezes Ele prometera, mas nunca jurara. E que é o juramento de Deus, o verdadeiro e fiel, senão uma confirmação da promessa, e certa repreensão aos incrédulos?
Depois destas coisas, morreu Sara, no ano cento e vinte e sete de sua vida, e no ano cento e trinta e sete de seu marido; pois ele era dez anos mais velho do que ela, como ele mesmo diz, quando lhe é prometido um filho por ela: "Nascer-me-á um filho a mim, que tenho cem anos? E Sara, que tem noventa anos, dará à luz?" Comprou então Abraão um campo, no qual sepultou a sua esposa. E então, segundo o relato de Estêvão, fixou-se ele naquela terra, entrando então na posse efetiva dela, isto é, depois da morte de seu pai, do qual se infere que morrera dois anos antes.