A Cidade de Deus - Livro XVI 26

Livro XVI: de Noé a Abraão e aos reis, e a linhagem terrena da cidade de Deus

Do testemunho de Deus a Abraão, pelo qual lhe assegura, já idoso, um filho da estéril Sara, o constitui pai das nações e sela sua fé na promessa pelo sacramento da circuncisão

Depois destas coisas, nasceu Ismael de Agar; e Abraão poderia pensar que nele se cumpria o que Deus lhe prometera, quando, desejando ele adotar o servo nascido em sua casa, disse: "Este não será o teu herdeiro; mas aquele que sair de ti, esse será o teu herdeiro." Portanto, para que não pensasse que o prometido se cumprira no filho da serva, "quando Abrão tinha noventa e nove anos, apareceu-lhe Deus e disse-lhe: Eu sou Deus; agradável à minha vista e sem reprovação, e estabelecerei a minha aliança entre mim e ti, e te multiplicarei sobremaneira."
Aqui promessas mais distintas acerca da vocação das nações em Isaque, isto é, no filho da promessa, pelo qual se assinala a graça, e não a natureza; pois o filho é prometido de um velho e de uma velha estéril. Porque, ainda que Deus opere mesmo o curso natural da procriação, todavia, onde a ação de Deus se manifesta através da decadência ou da falência da natureza, a graça se discerne mais claramente. E porque isto havia de realizar-se não pela geração, mas pela regeneração, foi então ordenada a circuncisão, quando se prometeu um filho de Sara.
E, ao ordenar que todos, não somente os filhos, mas também os servos nascidos em casa e os comprados, fossem circuncidados, atesta que esta graça pertence a todos. Pois que outra coisa significa a circuncisão senão uma natureza renovada com o despojar-se do velho homem? E que outra coisa significa o oitavo dia senão Cristo, que ressuscitou quando se completou a semana, isto é, depois do sábado? Os próprios nomes dos pais são mudados: todas as coisas proclamam novidade, e a nova aliança é prefigurada na antiga. Pois que implica o termo aliança antiga senão o ocultamento da nova? E que implica o termo aliança nova senão a revelação da antiga?
O riso de Abraão é o regozijo de quem se alegra, não o riso escarninho de quem desconfia. E aquelas palavras suas em seu coração: "Acaso nascerá um filho a mim, que tenho cem anos? E dará à luz Sara, que tem noventa anos?" não são palavras de dúvida, mas de admiração.
E quando se diz: "E darei a ti e à tua descendência depois de ti a terra em que és peregrino, toda a terra de Canaã, em possessão perpétua", se a alguém perturba se isto deve ter-se por cumprido, ou se ainda se pode esperar o seu cumprimento, visto que nenhuma espécie de possessão terrena pode ser perpétua para nação alguma, saiba ele que a palavra que os nossos escritores traduzem por "perpétua" é a que os gregos chamam aiónion, derivada de aión, que em grego significa saeculum, isto é, uma idade.
Mas os latinos não ousaram traduzir esta palavra por "secular", para não mudarem o sentido em algo bastante diverso. Pois muitas coisas se chamam seculares, as quais acontecem neste mundo de tal modo que passam ainda em breve tempo; mas o que se denomina aiónion ou não tem fim, ou dura até o próprio fim deste mundo.