A Cidade de Deus - Livro XVI 27

Livro XVI: de Noé a Abraão e aos reis, e a linhagem terrena da cidade de Deus

Do varão que perderia a alma se não fosse circuncidado ao oitavo dia, por haver rompido a aliança de Deus

Quando se diz: "O varão que não for circuncidado na carne de seu prepúcio, essa alma será eliminada de seu povo, porque rompeu a minha aliança", alguns podem se inquietar quanto ao modo como isso deve ser entendido, visto que não pode haver culpa alguma da criança, cuja vida se diz que deve perecer, nem foi por ela rompida a aliança de Deus, mas por seus pais, que não cuidaram de circuncidá-la. Mas até mesmo as crianças, não pessoalmente em sua própria vida, e sim segundo a origem comum do gênero humano, todas romperam a aliança de Deus naquele um em quem todos pecaram.
Ora, muitas coisas chamadas alianças de Deus além daquelas duas grandes, a antiga e a nova, as quais qualquer um que o queira pode ler e conhecer. Pois a primeira aliança, que foi feita com o primeiro homem, é justamente esta: "No dia em que dela comerdes, certamente morrereis." Donde está escrito no livro chamado Eclesiástico: "Toda carne envelhece como uma veste.
Pois a aliança desde o princípio é: De morte morrerás." Ora, como a lei foi dada mais claramente depois, e o apóstolo diz: "Onde não lei, não prevaricação", sob que suposição é verdadeiro o que se diz no salmo: "Tive por prevaricadores todos os pecadores da terra", senão que todos os que são tidos por réus de algum pecado são acusados de agir com fraude (prevaricar) contra alguma lei?
Se, portanto, por esta razão, até as crianças, segundo a verdadeira fé, nascem em pecado, não atual, mas original, de modo que confessamos terem elas necessidade da graça para a remissão dos pecados, certamente se de reconhecer que, no mesmo sentido em que são pecadoras, são também prevaricadoras daquela lei que foi dada no Paraíso, segundo a verdade de ambas as Escrituras: "Tive por prevaricadores todos os pecadores da terra" e "Onde não lei, não prevaricação". E assim, porque a circuncisão era o sinal da regeneração, e a criança, por causa do pecado original pelo qual a aliança de Deus foi primeiramente rompida, não imerecidamente havia de perder a sua geração, a menos que fosse libertada pela regeneração, estas palavras divinas devem ser entendidas como se houvera sido dito: Todo aquele que não nascer de novo, essa alma perecerá de seu povo, porque rompeu a minha aliança, visto que também ele pecou em Adão com todos os demais.
Pois, se Ele houvesse dito: Porque rompeu esta minha aliança, ter-nos-ia compelido a entender por ela somente esta da circuncisão; mas, visto que não disse expressamente que aliança a criança rompeu, somos livres para entendê-lo como se falasse daquela aliança cuja transgressão pode ser atribuída a uma criança.
Contudo, se alguém insistir que isso se diz de nada mais senão da circuncisão, ou seja, que nela a criança rompeu a aliança de Deus por não estar circuncidada, de buscar algum método de explicação pelo qual se possa entender, sem absurdo (como este), que ela rompeu a aliança, porque esta foi rompida nela, ainda que não por ela. Todavia, também neste caso se de observar que a alma da criança, não sendo culpada de nenhum pecado de negligência contra si mesma, pereceria injustamente, a menos que o pecado original a tornasse passível de punição.