A Cidade de Deus - Livro XVI 37
Livro XVI: de Noé a Abraão e aos reis, e a linhagem terrena da cidade de Deus
Das coisas misticamente prefiguradas em Esaú e Jacó
Os dois filhos de Isaque, Esaú e Jacó, cresceram juntos. A primazia do mais velho foi transferida para o mais novo por um trato e acordo entre eles, quando o mais velho cobiçou desmedidamente as lentilhas que o mais novo havia preparado para alimento e, por esse preço, vendeu-lhe o seu direito de primogenitura, confirmando-o com juramento. Disto aprendemos que se deve repreender uma pessoa não pela espécie de alimento que come, mas pela ganância desmedida. Isaque envelheceu, e a velhice o privou da visão.
Quis ele abençoar o filho mais velho e, em lugar do mais velho, que era peludo, abençoou sem o saber o mais novo, que se pôs sob as mãos do pai, tendo-se coberto com peles de cabrito, como se carregasse os pecados de outros.
Para que não pensássemos que esse ardil de Jacó fosse um ardil fraudulento, em vez de buscarmos nele o mistério de uma grande coisa, a Escritura predisse nas palavras imediatamente anteriores: "Esaú era hábil caçador, homem do campo; e Jacó era homem simples, que habitava em tendas." Alguns dos nossos escritores interpretaram isto como "sem ardil". Mas, quer o grego ἄπλαστος signifique "sem ardil", ou "simples", ou antes "sem fingimento", no receber daquela bênção, que ardil há no homem sem ardil? Que ardil há no homem simples, que ficção há no homem que não mente, senão um profundo mistério da verdade?
Mas qual é a bênção em si? "Eis", diz ele, "o cheiro de meu filho é como o cheiro de um campo cheio que o Senhor abençoou: portanto, Deus te dê do orvalho do céu, e da fertilidade da terra, e abundância de trigo e de vinho: sirvam-te os povos, e adorem-te os príncipes: sê senhor de teus irmãos, e adorem-te os filhos de teu pai: maldito seja o que te amaldiçoar, e bendito o que te abençoar." A bênção de Jacó é, portanto, uma proclamação de Cristo a todas as nações. É isto que aconteceu e que agora se está cumprindo.
Isaque é a lei e a profecia: até mesmo pela boca dos judeus é Cristo abençoado pela profecia, como por quem não sabe, porque ela mesma não é compreendida. O mundo, como um campo, está cheio do odor do nome de Cristo: dele é a bênção do orvalho do céu, isto é, das chuvas das palavras divinas; e da fertilidade da terra, isto é, do ajuntamento dos povos: dele é a abundância de trigo e de vinho, isto é, a multidão que recolhe pão e vinho no sacramento do seu corpo e do seu sangue. A ele servem as nações, a ele adoram os príncipes. Ele é o Senhor de seus irmãos, porque o seu povo domina sobre os judeus.
A ele adoram os filhos de seu Pai, isto é, os filhos de Abraão segundo a fé; pois ele mesmo é filho de Abraão segundo a carne. Maldito é o que o amaldiçoa, e o que o abençoa é bendito. Cristo, digo eu, que é nosso, é abençoado, isto é, verdadeiramente proclamado pelas bocas dos judeus, quando, ainda que errando, cantam todavia a lei e os profetas, e julgam estar abençoando outro, em quem erradamente esperam.
Assim, quando o filho mais velho reclama a bênção prometida, Isaque se enche de grande temor e se admira ao saber que abençoou um em lugar do outro, e pergunta quem ele é; contudo não se queixa de haver sido enganado; antes, quando o grande mistério lhe é revelado, em seu íntimo coração logo afasta a ira e confirma a bênção.
"Quem foi então", diz ele, "que me caçou caça e ma trouxe, e eu comi de tudo antes que viesses, e o abençoei, e ele será bendito?" Quem não teria antes esperado aqui a maldição de um homem irado, se estas coisas tivessem sido feitas de maneira terrena, e não por inspiração do alto? Ó coisas realizadas, e todavia realizadas profeticamente; na terra, e todavia celestialmente; por homens, e todavia divinamente! Se tudo o que é fecundo de tão grandes mistérios devesse ser examinado com cuidado, muitos volumes seriam preenchidos; mas a medida moderada fixada para esta obra nos obriga a apressar-nos para outras coisas.