A Cidade de Deus - Livro XVI 28
Livro XVI: de Noé a Abraão e aos reis, e a linhagem terrena da cidade de Deus
Da mudança de nome em Abraão e Sara, que receberam o dom da fecundidade quando eram incapazes de gerar, por causa da esterilidade de uma e da velhice de ambos
Ora, quando foi feita a Abraão uma promessa tão grande e tão clara, na qual lhe foi dito de modo tão expresso: "Eu te constituí pai de muitas nações, e te multiplicarei sobremaneira, e farei de ti nações, e reis sairão de ti. E te darei um filho de Sara; e o abençoarei, e ele se tornará nações, e reis de nações virão dele", promessa que agora vemos cumprida em Cristo, desde então este casal já não é chamado na Escritura, como antes, Abrão e Sarai, mas Abraão e Sara, como nós os temos chamado desde o início, pois assim todos fazem agora.
A razão pela qual o nome de Abraão foi mudado é dada: "Pois", diz Ele, "eu te constituí pai de muitas nações." Há de se entender, portanto, que este é o sentido de Abraão; mas Abrão, como ele se chamava antes, significa "pai exaltado". A razão da mudança do nome de Sara não é dada; mas, segundo dizem os que escreveram interpretações dos nomes hebreus contidos nestes livros, Sara significa "minha princesa", e Sarai "força". Por isso está escrito na Epístola aos Hebreus: "Pela fé também a própria Sara recebeu força para conceber semente." Pois ambos eram idosos, como a Escritura testemunha; mas ela também era estéril, e tinha cessado de menstruar, de modo que já não podia ter filhos, ainda que não fosse estéril.
Além disso, se uma mulher é avançada em anos, mas ainda conserva o costume das mulheres, ela pode ter filhos de um homem jovem, mas não de um homem velho, embora esse mesmo homem velho possa gerar, mas somente de uma mulher jovem; assim como, após a morte de Sara, Abraão pôde gerar de Quetura, porque a encontrou em sua idade vigorosa. Isto, pois, é o que o apóstolo menciona como admirável, dizendo, além disso, que o corpo de Abraão já estava amortecido; porque naquela idade ele já não era capaz de gerar filhos de qualquer mulher que agora conservasse apenas uma pequena parte de seu vigor natural.
Sem dúvida devemos entender que o seu corpo estava amortecido somente para alguns fins, não para todos; pois, se o estivesse para todos, já não seria o corpo idoso de um homem vivo, mas o cadáver de um homem morto.
Embora aquela questão, de como Abraão gerou filhos de Quetura, costume resolver-se deste modo, que o dom de gerar que ele recebeu do Senhor permaneceu mesmo após a morte de sua esposa, todavia penso que a solução da questão que eu segui é preferível, porque, ainda que em nossos dias um homem velho de cem anos não possa gerar filhos de mulher alguma, não era assim naquele tempo, quando os homens ainda viviam tanto que cem anos ainda não lhes traziam a decrepitude da velhice.