A Cidade de Deus - Livro XVI 25

Livro XVI: de Noé a Abraão e aos reis, e a linhagem terrena da cidade de Deus

Sobre Agar, a serva de Sara, que a própria Sara quis que fosse concubina de Abraão

E aqui se seguem os tempos dos filhos de Abraão, um por Agar, a escrava, o outro por Sara, a mulher livre, dos quais falamos no livro anterior.
Quanto a esse procedimento, Abraão de modo algum deve ser tachado de culpado a respeito dessa concubina, pois dela se serviu para a geração de prole, não para a satisfação da concupiscência; e não para ultrajar, mas antes para obedecer à sua esposa, que supunha ser um consolo de sua esterilidade se pudesse fazer uso do ventre fecundo de sua serva para suprir o defeito de sua própria natureza, e por aquela lei da qual diz o apóstolo: "Da mesma maneira também o marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas a mulher", podia ela, como esposa, servir-se dele para gerar filhos por meio de outra, quando não o podia fazer em sua própria pessoa.
Aqui não concupiscência desregrada, nem torpe lascívia. A serva é entregue ao marido pela esposa em vista da prole, e é recebida pelo marido em vista da prole, buscando cada um, não o excesso culpável, mas o fruto natural.
E quando a escrava grávida desprezou a sua senhora estéril, e Sara, com ciúme de mulher, antes lançou a culpa disso sobre o marido, mesmo então Abraão mostrou que não era um amante servil, mas um livre gerador de filhos, e que, ao usar de Agar, guardara a castidade de Sara, sua esposa, e satisfizera a vontade dela e não a sua própria: recebera-a sem a buscar, fora a ela sem se apegar, engravidara-a sem amá-la; pois diz ele: "Eis que a tua serva está em tuas mãos: faze dela como te aprouver"; homem capaz de usar das mulheres como um homem deve, de sua esposa com temperança, de sua serva com docilidade, de nenhuma com intemperança!