A Cidade de Deus - Livro XVI 15
Livro XVI: de Noé a Abraão e aos reis, e a linhagem terrena da cidade de Deus
Do tempo da migração de Abraão, quando, segundo o mandamento de Deus, saiu de Harã
Quando, depois do registro da morte de Terá, pai de Abraão, lemos em seguida: "E disse o Senhor a Abrão: Sai da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai", etc., não se deve supor, pelo fato de isto vir a seguir na ordem da narrativa, que também se tenha seguido na ordem cronológica dos acontecimentos. Pois, se assim fosse, surgiria uma dificuldade insolúvel. Com efeito, depois destas palavras de Deus ditas a Abraão, diz a Escritura: "E partiu Abrão, como o Senhor lhe havia falado; e Ló foi com ele.
Ora, tinha Abraão setenta e cinco anos quando saiu de Harã." Como pode isto ser verdadeiro, se ele partiu de Harã após a morte de seu pai? Pois, quando Terá tinha setenta anos, conforme se indica acima, gerou Abraão; e, se a este número acrescentarmos os setenta e cinco anos que Abraão contava quando saiu de Harã, obtemos cento e quarenta e cinco anos. Portanto, esse era o número dos anos de Terá quando Abraão partiu daquela cidade da Mesopotâmia; pois ele havia alcançado o septuagésimo quinto ano de sua vida, e assim seu pai, que o gerara no septuagésimo ano de sua própria vida, havia chegado, como se disse, ao seu centésimo quadragésimo quinto.
Portanto, ele não partiu dali após a morte de seu pai, isto é, depois dos duzentos e cinco anos que seu pai viveu; mas o ano de sua partida daquele lugar, visto que era o seu septuagésimo quinto, infere-se sem dúvida alguma ter sido o centésimo quadragésimo quinto de seu pai, que o gerara no seu septuagésimo ano.
E assim se há de entender que a Escritura, segundo o seu costume, voltou atrás ao tempo que a narrativa já havia ultrapassado; tal como acima, quando havia mencionado os netos de Noé, disse que estavam em suas nações e línguas; e contudo depois, como se também isto se houvesse seguido na ordem do tempo, diz: "E era toda a terra de uma só linguagem, e de uma só fala para todos." Como, então, poderiam ser ditos estar em suas próprias nações e segundo as suas próprias línguas, se havia uma só para todos, a não ser porque a narrativa volta atrás para recolher o que havia omitido?
Aqui também, do mesmo modo, depois de dizer: "E foram os dias de Terá em Harã duzentos e cinco anos, e morreu Terá em Harã", a Escritura, voltando ao que havia sido omitido a fim de completar o que se começara a respeito de Terá, diz: "E disse o Senhor a Abrão: Sai da tua terra", etc. Depois destas palavras de Deus, acrescenta-se: "E partiu Abrão, como o Senhor lhe falara; e Ló foi com ele. Mas tinha Abrão setenta e cinco anos quando saiu de Harã." Portanto, isto se deu quando seu pai estava no centésimo quadragésimo quinto ano de sua idade; pois era então o septuagésimo quinto do próprio Abraão.
Mas esta questão também se resolve de outra maneira: que os setenta e cinco anos de Abraão, quando saiu de Harã, se contam a partir do ano em que foi libertado do fogo dos caldeus, e não a partir do de seu nascimento, como se ele antes devesse ser tido por nascido naquele momento.
Ora, o bem-aventurado Estêvão, ao narrar estas coisas nos Atos dos Apóstolos, diz: "O Deus da glória apareceu a Abraão, nosso pai, quando estava na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã, e disse-lhe: Sai da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai, e vem para a terra que eu te mostrarei." Segundo estas palavras de Estêvão, Deus falou a Abraão não depois da morte de seu pai, que certamente morreu em Harã, onde também seu filho habitou com ele, mas antes de habitar naquela cidade, ainda que já estivesse na Mesopotâmia. Portanto, ele já havia partido dos caldeus.
De modo que, quando Estêvão acrescenta: "Então saiu Abraão da terra dos caldeus, e habitou em Harã", isto não aponta o que sucedeu depois que Deus lhe falou (pois não foi após estas palavras de Deus que ele saiu da terra dos caldeus, visto que diz que Deus lhe falou na Mesopotâmia), mas a palavra "então", que ele emprega, refere-se a todo aquele período desde a sua saída da terra dos caldeus até habitar em Harã.
Igualmente no que segue: "E dali, morto seu pai, Deus o estabeleceu nesta terra em que agora habitais vós e vossos pais", ele não diz: depois de morto seu pai, saiu de Harã; mas: dali Deus o estabeleceu aqui, depois de morto seu pai. Há de se entender, portanto, que Deus havia falado a Abraão quando este estava na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã; mas que ele veio a Harã com seu pai, conservando na memória o preceito de Deus, e que dali saiu no seu próprio septuagésimo quinto ano, que era o centésimo quadragésimo quinto de seu pai.
Mas ele diz que o seu estabelecimento na terra de Canaã, e não a sua saída de Harã, se deu após a morte de seu pai; porque seu pai já estava morto quando ele comprou a terra e pessoalmente tomou posse dela. Mas quando, já estando ele estabelecido na Mesopotâmia, isto é, já tendo saído da terra dos caldeus, diz Deus: "Sai da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai", isto significa não que ele devesse lançar dali o seu corpo, pois isto já o havia feito, mas que devesse arrancar dali a sua alma.
Pois não havia saído dali em espírito, se ainda era retido pela esperança e pelo desejo de voltar, esperança e desejo que haviam de ser cortados pelo mandamento e auxílio de Deus, e pela própria obediência de Abraão. Não seria, na verdade, suposição inverossímil que, mais tarde, quando Naor seguiu seu pai, Abraão tenha então cumprido o preceito do Senhor, saindo de Harã com Sara, sua mulher, e Ló, filho de seu irmão.