A Cidade de Deus - Livro XVI 9

Livro XVI: de Noé a Abraão e aos reis, e a linhagem terrena da cidade de Deus

Se devemos crer nos antípodas

Mas quanto à fábula de que existem antípodas, isto é, homens que habitam no lado oposto da terra, onde o sol nasce quando para nós se põe, homens que caminham com os pés voltados contra os nossos, isso de modo algum é digno de crédito. E, na verdade, não se afirma que tal tenha sido conhecido por meio do saber histórico, mas por conjectura científica, sob o fundamento de que a terra está suspensa dentro da concavidade do céu, e que tem tanto espaço de um lado quanto do outro: daí dizerem que a parte que está por baixo também deve ser habitada.
Mas não advertem que, ainda que se suponha ou se demonstre cientificamente que o mundo tem forma redonda e esférica, nem por isso se segue que o outro lado da terra esteja despido de água; nem mesmo, ainda que esteja despido dela, se segue imediatamente que esteja povoado.
Pois a Escritura, que comprova a verdade de suas afirmações históricas pelo cumprimento de suas profecias, não nenhuma informação falsa; e é demasiado absurdo dizer que alguns homens pudessem ter tomado um navio e atravessado todo o vasto oceano, e passado deste lado do mundo para o outro, e que assim até os habitantes daquela região distante descendessem daquele único primeiro homem. Por isso, busquemos, se for possível encontrá-la, a cidade de Deus que peregrina sobre a terra entre aquelas raças humanas que se enumeram como tendo sido divididas em setenta e duas nações e em outras tantas línguas.
Pois ela perdurou até o dilúvio e a arca, e prova-se que ainda existia entre os filhos de Noé pelas bênçãos deles, e principalmente no filho mais velho, Sem; pois Jafé recebeu esta bênção: que habitasse nas tendas de Sem.