A Cidade de Deus - Livro XVI 11

Livro XVI: de Noé a Abraão e aos reis, e a linhagem terrena da cidade de Deus

Que a língua originalmente em uso entre os homens foi a que depois se chamou hebraica, de Héber, em cuja família se preservou quando ocorreu a confusão das línguas

Portanto, assim como o fato de todos usarem uma língua não garantiu a ausência, na raça humana, de homens infectados pelo pecado (pois também antes do dilúvio havia uma língua, e contudo todos, exceto a única família do justo Noé, foram julgados dignos de destruição pelo dilúvio), assim também, quando as nações, por uma impiedade mais soberba, mereceram o castigo da dispersão e da confusão das línguas, e a cidade dos ímpios foi chamada Confusão ou Babilônia, ainda assim subsistia a casa de Héber, na qual sobreviveu a língua primitiva da raça humana.
E por isso, como mencionei, quando se faz a enumeração dos filhos de Sem, que cada um fundou uma nação, Héber é mencionado em primeiro lugar, ainda que fosse da quinta geração a partir de Sem. E porque, quando as demais raças se dividiram por suas próprias línguas peculiares, a família dele preservou aquela língua que não sem razão se crê ter sido a língua comum da raça humana, foi por esse motivo que dali em diante ela se chamou hebraica.
Pois então se tornou necessário distinguir esta língua das demais por um nome próprio; embora, enquanto havia apenas uma, ela não tivesse outro nome senão a língua do homem, ou a fala humana, sendo ela a única falada por todo o gênero humano. Alguém dirá: se a terra foi dividida pelas línguas nos dias de Pelegue, filho de Héber, aquela língua, que antes era comum a todos, deveria antes ter recebido o nome de Pelegue.
Mas devemos entender que o próprio Héber deu a seu filho este nome, Pelegue, que significa Divisão, porque ele nasceu quando a terra foi dividida, isto é, no exato tempo da divisão, e que este é o sentido das palavras: "Em seus dias foi dividida a terra." Pois, se Héber não estivesse ainda vivo quando as línguas se multiplicaram, a língua que se preservou em sua casa não teria recebido o nome dele.
Somos levados a crer que esta foi a língua primitiva e comum, porque a multiplicação e a mudança das línguas foram introduzidas como castigo, e convém atribuir ao povo de Deus uma imunidade a esse castigo. E não é sem significado que esta seja a língua que Abraão reteve, e que ele não pôde transmiti-la a todos os seus descendentes, mas somente aos da linhagem de Jacó, que de modo distinto e eminente constituíram o povo de Deus, e receberam as suas alianças, e foram os progenitores de Cristo segundo a carne.
Do mesmo modo, o próprio Héber não transmitiu aquela língua a toda a sua posteridade, mas somente à linhagem da qual Abraão descendeu. E assim, embora não se afirme expressamente que, quando os ímpios edificavam Babilônia, restava uma semente piedosa, essa indeterminação tem por fim estimular a pesquisa, e não iludi-la.
Pois, ao vermos que originalmente havia uma língua comum, e que Héber é mencionado antes de todos os filhos de Sem, embora pertencesse à quinta geração a partir dele, e que a língua que os patriarcas e profetas usaram, não somente em sua conversação, mas na linguagem autorizada da Escritura, se chama hebraica, quando se nos pergunta onde aquela língua primitiva e comum se preservou após a confusão das línguas, certamente, como não pode haver dúvida de que aqueles entre os quais ela se preservou estavam isentos do castigo que ela encerrava, que outra sugestão podemos fazer senão que ela sobreviveu na família daquele cujo nome tomou, e que esta não é pequena prova da retidão desta família: que o castigo com que as demais famílias foram visitadas não recaiu sobre ela?
Mas ainda se levanta outra questão: como Héber e seu filho Pelegue fundaram cada um uma nação, se tinham apenas uma língua? Pois sem dúvida a nação hebraica, propagada de Héber por meio de Abraão, e tornando-se por ele um grande povo, é uma nação. Como, então, todos os filhos dos três ramos da família de Noé são enumerados como fundando cada um uma nação, se Héber e Pelegue não o fizeram? É muito provável que o gigante Ninrode também tenha fundado a sua nação, e que a Escritura o tenha nomeado separadamente por causa das extraordinárias dimensões de seu império e de seu corpo, de modo que o número de setenta e duas nações permanece.
Mas Pelegue foi mencionado, não porque fundou uma nação (pois sua raça e sua língua são hebraicas), mas por causa do tempo crítico em que nasceu, estando então toda a terra dividida. Tampouco devemos surpreender-nos de que o gigante Ninrode tenha vivido até o tempo em que Babilônia foi fundada, e ocorreu a confusão das línguas, e a consequente divisão da terra. Pois, embora Héber fosse da sexta geração a partir de Noé, e Ninrode da quarta, não se segue que não pudessem estar vivos ao mesmo tempo.
Pois, quando as gerações são poucas, os homens vivem mais tempo e nascem mais tarde; mas, quando são muitas, vivem menos tempo e vêm ao mundo mais cedo. Devemos entender que, quando a terra foi dividida, os descendentes de Noé que estão registrados como fundadores de nações não somente haviam nascido, mas tinham idade para ter famílias imensas, dignas de serem chamadas tribos ou nações.
E portanto de modo algum devemos supor que eles nasceram na ordem em que foram registrados; do contrário, como poderiam os doze filhos de Joctã, outro filho de Héber e irmão de Pelegue, ter fundado nações, se Joctã nasceu, como está registrado, depois de seu irmão Pelegue, que a terra foi dividida ao nascer Pelegue? Devemos, pois, entender que, embora Pelegue seja nomeado primeiro, ele nasceu muito depois de Joctã, cujos doze filhos tinham famílias tão numerosas que admitiam serem divididas por línguas diferentes.
Não nada de extraordinário em o último nascido ser nomeado primeiro: dentre os filhos de Noé, os descendentes de Jafé são nomeados primeiro; depois os filhos de Cam, que foi o segundo filho; e por último os filhos de Sem, que foi o primeiro e o mais velho. Destas nações os nomes em parte sobreviveram, de modo que ainda hoje podemos ver de quem descendem, como os assírios de Assur, os hebreus de Héber, mas em parte foram alterados no decurso do tempo, de modo que os homens mais doutos, mediante profunda pesquisa em registros antigos, mal conseguiram descobrir a origem, não digo de todas, mas de algumas dessas nações.
Não há, por exemplo, nada no nome egípcios que mostre que descendem de Mizraim, filho de Cam, nem no nome etíopes que mostre uma conexão com Cuxe, ainda que se diga ser esta a origem dessas nações. E, se fizermos um levantamento geral dos nomes, descobriremos que mais foram mudados do que os que permaneceram iguais.