A Cidade de Deus - Livro XVI 23

Livro XVI: de Noé a Abraão e aos reis, e a linhagem terrena da cidade de Deus

Da palavra do Senhor a Abraão, pela qual lhe foi prometido que sua posteridade se multiplicaria conforme a multidão das estrelas; ao crer nisso, foi declarado justificado ainda em incircuncisão

A palavra do Senhor veio a Abraão também numa visão. Pois, quando Deus lhe prometeu proteção e galardão sobremaneira grande, ele, solícito quanto à posteridade, disse que certo Eliézer de Damasco, nascido em sua casa, seria o seu herdeiro. Imediatamente lhe foi prometido um herdeiro, não aquele servo nascido em casa, mas um que haveria de proceder do próprio Abraão; e, de novo, uma semente inumerável, não como o da terra, mas como as estrelas do céu, o que antes me parece uma promessa de uma posteridade exaltada na felicidade celestial.
Pois, no que toca à multidão, que são as estrelas do céu para o da terra, a menos que se diga que a comparação é semelhante na medida em que também as estrelas não podem ser contadas? Pois não se de crer que todas elas possam ser vistas. Com efeito, quanto mais agudamente alguém as observa, tanto mais delas vê. De modo que se de supor que algumas permanecem ocultas aos mais agudos observadores, para nada dizer daquelas estrelas que se diz nascerem e se porem em outra parte do mundo, a mais remota de nós.
Por fim, a autoridade deste livro condena aqueles como Arato ou Eudoxo, ou quaisquer outros que se gabam de haver descoberto e registrado o número completo das estrelas. Aqui, na verdade, está assentada aquela sentença que o apóstolo cita a fim de exaltar a graça de Deus: "Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça"; para que a circuncisão não se gloriasse, e não se recusasse a receber as nações incircuncisas à de Cristo. Pois, ao tempo em que creu, e a sua lhe foi imputada para justiça, Abraão ainda não havia sido circuncidado.