A Cidade de Deus - Livro XVI 21

Livro XVI: de Noé a Abraão e aos reis, e a linhagem terrena da cidade de Deus

Da terceira promessa de Deus, pela qual assegurou a Abraão e à sua descendência a terra de Canaã para sempre

Ora, depois que Abraão e se separaram e passaram a habitar à parte, em razão da necessidade de sustentar as suas famílias, e não por vil discórdia, e Abraão estava na terra de Canaã, mas em Sodoma, disse o Senhor a Abraão, num terceiro oráculo: "Levanta os teus olhos e olha desde o lugar onde agora estás, para o norte, e para a África, e para o oriente, e para o mar; pois toda a terra que vês, a ti a darei, e à tua descendência para sempre. E farei a tua descendência como o da terra: se alguém puder contar o da terra, também a tua descendência será contada.
Levanta-te e percorre a terra, no seu comprimento e na sua largura; pois a ti a darei." Não fica claramente manifesto se nesta promessa está também contido aquilo pelo qual ele é feito pai de todas as nações. Pois a cláusula "E farei a tua descendência como o da terra" pode parecer referir-se a isto, sendo dita por aquela figura a que os gregos chamam hipérbole, a qual de fato é figurada, não literal. Mas nenhuma pessoa de entendimento pode duvidar de que maneira a Escritura usa esta e outras figuras.
Pois aquela figura (isto é, modo de falar) é usada quando o que se diz é muito maior do que aquilo que por ela se quer significar; pois quem não quão incomparavelmente maior deve ser o número do do que pode ser o de todos os homens, desde o próprio Adão até o fim do mundo? Quão maior, então, deve ele ser do que a descendência de Abraão, não a que pertence à nação de Israel, mas também a que existe e existirá segundo a imitação da em todas as nações de todo o vasto mundo!
Pois essa descendência é de fato muito pequena em comparação com a multidão dos ímpios, ainda que mesmo esses poucos, por si mesmos, formem uma multidão inumerável, a qual por hipérbole é comparada ao da terra. Em verdade, aquela multidão que foi prometida a Abraão não é inumerável para Deus, embora o seja para o homem; mas para Deus nem mesmo o da terra o é. Além disso, a promessa aqui feita pode entender-se não da nação de Israel, mas de toda a descendência de Abraão, a qual pode com propriedade ser comparada ao pela multidão, porque também a seu respeito a promessa de muitos filhos, não segundo a carne, mas segundo o espírito.
Mas dissemos, portanto, que isto não fica claramente manifesto, porque a multidão até mesmo daquela única nação, que nasceu segundo a carne de Abraão por meio de seu neto Jacó, cresceu tanto a ponto de encher quase todas as partes do mundo. Por conseguinte, mesmo ela poderia, por hipérbole, ser comparada ao pela multidão, porque mesmo ela sozinha é inumerável para o homem. Certamente ninguém põe em questão que se entende apenas aquela terra que se chama Canaã.
Mas aquela palavra, "A ti a darei, e à tua descendência para sempre", pode perturbar alguns, se por "para sempre" entenderem "por toda a eternidade". Porém, se nesta passagem tomarem "para sempre" assim como firmemente sustentamos que significa, isto é, que o princípio do mundo vindouro de ordenar-se a partir do fim do presente, ainda assim não dificuldade, porque, embora os israelitas tenham sido expulsos de Jerusalém, permanecem todavia em outras cidades na terra de Canaã, e ali permanecerão até o fim; e, quando toda aquela terra for habitada por cristãos, também esses são a verdadeira descendência de Abraão.