A Cidade de Deus - Livro XVI 43
Livro XVI: de Noé a Abraão e aos reis, e a linhagem terrena da cidade de Deus
Dos tempos de Moisés e de Josué, filho de Num, dos juízes e, depois, dos reis, dos quais Saul foi o primeiro, mas Davi deve ser considerado o principal, tanto pelo juramento quanto pelo mérito
Mortos Jacó e também José, durante os 144 anos restantes até saírem da terra do Egito, aquela nação cresceu a um grau incrível, ainda que devastada por perseguições tão grandes que, em certa altura, as crianças do sexo masculino eram assassinadas ao nascer, porque os egípcios, admirados, ficavam aterrorizados com o crescimento excessivo daquele povo.
Então Moisés, sendo ocultamente preservado dos assassinos das crianças, foi levado à casa real, preparando Deus realizar grandes coisas por meio dele, e foi amamentado e adotado pela filha de Faraó (esse era o nome de todos os reis do Egito), e tornou-se homem tão grande que ele, ou antes, Deus, que havia prometido isto a Abraão, por meio dele, retirou aquela nação, tão maravilhosamente multiplicada, do jugo da mais dura e penosa servidão que ali suportara. A princípio, na verdade, fugiu dali (lemos que fugiu para a terra de Midiã), porque, defendendo um israelita, matara um egípcio, e teve medo.
Depois, sendo divinamente incumbido no poder do Espírito de Deus, venceu os magos de Faraó que lhe resistiam. Então, quando os egípcios não quiseram deixar partir o povo de Deus, dez memoráveis pragas foram por Ele trazidas sobre eles: a água transformada em sangue, as rãs e os piolhos, as moscas, a morte do gado, as úlceras, o granizo, os gafanhotos, as trevas, a morte dos primogênitos. Por fim, os egípcios foram destruídos no Mar Vermelho enquanto perseguiam os israelitas, a quem haviam deixado partir quando enfim foram quebrantados por tantas e tão grandes pragas.
O mar dividido abriu caminho para os israelitas que partiam, mas, voltando sobre si mesmo, soçobrou os perseguidores com suas ondas. Então, por quarenta anos, o povo de Deus atravessou o deserto, sob a liderança de Moisés, quando o tabernáculo do testemunho foi dedicado, no qual Deus era adorado por sacrifícios proféticos das coisas vindouras, e isto foi depois que a lei havia sido dada de modo terribilíssimo no monte, pois a sua divindade foi atestada de maneira clara por sinais e vozes maravilhosos.
Isto se deu logo após o êxodo do Egito, quando o povo havia entrado no deserto, no quinquagésimo dia depois de celebrada a páscoa pela oferta de um cordeiro, o qual é tão completamente figura de Cristo, prenunciando que, por meio de sua paixão sacrificial, Ele havia de passar deste mundo para o Pai (pois pascha, na língua hebraica, significa passagem), que, quando a nova aliança foi revelada, depois que Cristo, nossa páscoa, foi oferecido, o Espírito Santo veio do céu no quinquagésimo dia; e Ele é chamado no evangelho o Dedo de Deus, porque traz de volta à nossa memória as coisas feitas antes por meio de figuras, e porque se diz que as tábuas daquela lei foram escritas pelo dedo de Deus.
Com a morte de Moisés, Josué, filho de Num, governou o povo, e o conduziu à terra da promessa, e a repartiu entre eles. Por meio destes dois maravilhosos líderes, foram também conduzidas guerras com grande prosperidade e de modo admirável, tomando Deus por testemunha que eles haviam obtido essas vitórias não tanto por causa do mérito do povo hebreu quanto por causa dos pecados das nações que subjugavam.
Após esses líderes houve juízes, quando o povo se estabeleceu na terra da promessa, de modo que, nesse meio-tempo, a primeira promessa feita a Abraão começou a cumprir-se acerca de uma só nação, isto é, a hebraica, e acerca da terra de Canaã; mas ainda não a promessa acerca de todas as nações e do mundo inteiro, pois esta havia de cumprir-se não pelas observâncias da lei antiga, mas pela vinda de Cristo na carne e pela fé do evangelho.
E foi para prefigurar isto que não foi Moisés, que recebeu a lei para o povo no monte Sinai, quem conduziu o povo à terra da promessa, mas Josué, cujo nome também foi mudado por ordem de Deus, de modo que foi chamado Jesus. Mas, nos tempos dos juízes, a prosperidade alternava-se com a adversidade na guerra, conforme se manifestavam os pecados do povo e a misericórdia de Deus.
Chegamos a seguir aos tempos dos reis. O primeiro que reinou foi Saul; e, quando ele foi rejeitado e abatido em batalha, e rejeitada a sua descendência de modo que dela não se levantassem reis, Davi sucedeu no reino, e Cristo é chamado principalmente seu filho. Ele foi feito uma espécie de ponto de partida e início da juventude adiantada do povo de Deus, que havia passado uma espécie de idade da puberdade desde Abraão até este Davi. E não é em vão que o evangelista Mateus registra as gerações de tal maneira que resume este primeiro período, de Abraão a Davi, em catorze gerações.
Pois, a partir da idade da puberdade, o homem começa a ser capaz de gerar; portanto, ele inicia a lista das gerações a partir de Abraão, que também foi feito pai de muitas nações quando teve o seu nome mudado. De modo que, antes disso, esta família do povo de Deus estava na sua infância, de Noé a Abraão; e por essa razão a primeira língua foi então aprendida, isto é, o hebraico. Pois o homem começa a falar na infância, a idade que sucede à primeira infância, assim chamada porque então ele não pode falar. E essa primeira idade está totalmente afogada no esquecimento, assim como a primeira idade do gênero humano foi apagada pelo dilúvio; pois quem há que possa lembrar-se da sua primeira infância?
Por isso, neste progresso da cidade de Deus, assim como o livro anterior continha aquela primeira idade, este deve conter a segunda e a terceira idades, idade terceira na qual, como foi mostrado pela novilha de três anos, pela cabra de três anos e pelo carneiro de três anos, foi imposto o jugo da lei, e apareceu abundância de pecados, e surgiu o início do reino terreno, no qual não faltaram homens espirituais, dos quais a rola e o pombo representavam o mistério.