Capítulos

Confissões - Livro XIII

Autoria e Data de Composição

Agostinho de Hipona (354-430), bispo no norte da África romana, escreveu as Confissões por volta de 397-401, em treze livros. É a primeira grande autobiografia espiritual do Ocidente, redigida toda em forma de oração e endereçada diretamente a Deus. Os nove primeiros livros narram sua vida até a morte da mãe; os quatro últimos deixam a narrativa e passam à reflexão sobre a memória, o tempo e a criação. O Livro XIII é o último e fecha a obra.

Tema do Livro XIII

O Livro XIII é uma leitura alegórica e espiritual do primeiro capítulo do Gênesis. Depois de discutir, no Livro XII, a matéria informe e o sentido do "céu e terra" do princípio, Agostinho percorre aqui os dias da criação lendo-os como figura da vida espiritual e da Igreja. Logo no início ele lê o relato em chave trinitária: o Pai que cria, o Princípio em que tudo é feito (o Filho) e o Espírito que paira sobre as águas, tomado como o amor que eleva a criatura ao seu repouso. A seguir, a alegoria dos seis dias se aplica à Igreja e à conversão: o firmamento é a autoridade da Escritura estendida sobre os fiéis, o mar e a terra seca separam os que amam o mundo dos que dão fruto de boas obras, os luzeiros são os que brilham pela sabedoria, e as criaturas das águas figuram os sacramentos e os pregadores. A obra culmina no repouso do sétimo dia, sem tarde, lido como imagem do descanso eterno em Deus.

Conteúdo do Livro

    Invocação e graça preveniente

  • Invocação a Deus: a criatura nada tem que não tenha recebido, e o próprio existir depende da bondade divina que precede todo merecimento.(Confissões - Livro XIII 1)
  • Toda criatura, espiritual ou corpórea, só subsiste pela graça que a chama do informe para o ser e a forma.(Confissões - Livro XIII 2)
  • O "Faça-se a luz" aplicado à criatura espiritual: a conversão do que era informe e trevoso para Deus, sua fonte de luz.(Confissões - Livro XIII 3)
  • Deus não tinha necessidade da criatura: criou por bondade, não por carência nem por proveito próprio.(Confissões - Livro XIII 4)
  • O Espírito sobre as águas e a Trindade

  • Indícios da Trindade no relato da criação: o Pai que cria, o Princípio que é o Filho, e o Espírito que paira sobre as águas.(Confissões - Livro XIII 5)
  • Por que só do Espírito se diz que pairava sobre as águas: investigação do motivo dessa menção particular.(Confissões - Livro XIII 6)
  • O Espírito como dom que eleva: pela caridade derramada, a alma é levantada para o alto, contra o peso das paixões.(Confissões - Livro XIII 7)
  • O peso do amor: cada coisa tende para o seu lugar pelo peso, e o amor é o peso que conduz a alma a Deus, seu repouso.(Confissões - Livro XIII 8)
  • Só no Espírito Santo a alma encontra descanso, elevada acima das águas inconstantes do desejo.(Confissões - Livro XIII 9)
  • Conhecimento da Trindade e o vestígio na alma

  • A dificuldade de conhecer a Trindade: as criaturas servem de vestígio para distinguir as pessoas divinas.(Confissões - Livro XIII 10)
  • Vestígio da Trindade na própria alma: ser, conhecer e querer tomados como imagem das três pessoas.(Confissões - Livro XIII 11)
  • A Igreja iluminada e o firmamento da Escritura

  • A Igreja exortada a despertar e converter-se, iluminada pela luz divina depois das trevas do pecado.(Confissões - Livro XIII 12)
  • O homem renovado pela fé vive ainda na esperança, sob o gemido da peregrinação, até a manifestação da glória.(Confissões - Livro XIII 13)
  • A alma fiel busca a Deus em meio às tribulações, sustentada pela esperança e pela memória das misericórdias.(Confissões - Livro XIII 14)
  • O firmamento interpretado como a Escritura: o céu estendido como pele sobre os fiéis, autoridade firme acima de nós.(Confissões - Livro XIII 15)
  • Acima do firmamento da Escritura estão os anjos, que contemplam a Deus sem precisar de letras nem sílabas.(Confissões - Livro XIII 16)
  • As águas reunidas e a terra seca: o mar como a sociedade dos que amam o mundo, e a terra que dá frutos de obras boas.(Confissões - Livro XIII 17)
  • Luzeiros, frutos e os dons espirituais

  • A terra que produz a misericórdia e as obras: a alma fiel frutifica em compaixão para com o próximo.(Confissões - Livro XIII 18)
  • Exortação à conversão plena: lavar-se, fazer o bem e abandonar a malícia, para que a terra produza fruto.(Confissões - Livro XIII 19)
  • Os luzeiros do firmamento: os que brilham na Igreja pela sabedoria e pela ciência, distinguindo os dons espirituais.(Confissões - Livro XIII 20)
  • As águas produzem répteis e aves: os sacramentos e os pregadores que se multiplicam entre os povos do mundo.(Confissões - Livro XIII 21)
  • A alma renovada conforme a imagem de Deus, não mais imitando o mundo, mas julgando segundo o espírito.(Confissões - Livro XIII 22)
  • O homem espiritual que tudo julga

  • O homem espiritual julga todas as coisas e não é julgado por ninguém: o domínio sobre as obras e os movimentos da alma.(Confissões - Livro XIII 23)
  • O sentido de "crescei e multiplicai-vos": a fecundidade dos pensamentos e dos muitos modos de exprimir uma só verdade.(Confissões - Livro XIII 24)
  • A bênção da multiplicação aplicada apenas a certos seres: por que só a eles se diz crescei e multiplicai-vos.(Confissões - Livro XIII 25)
  • Os frutos da terra e o sustento dado a quem prega: distinção entre o dom oferecido e o fruto de quem o oferece.(Confissões - Livro XIII 26)
  • Tudo muito bom e o repouso do sétimo dia

  • Os peixes e os monstros marinhos: os sinais e milagres necessários aos não iniciados, no mar deste mundo.(Confissões - Livro XIII 27)
  • Deus viu que tudo era muito bom: cada coisa boa em si, e o conjunto ótimo na sua totalidade.(Confissões - Livro XIII 28)
  • O sentido das repetições de "Deus viu que era bom": não sucessão temporal em Deus, mas no conhecer humano.(Confissões - Livro XIII 29)
  • Refutação dos que rejeitam parte das obras de Deus, atribuindo-a a uma necessidade ou a outro princípio.(Confissões - Livro XIII 30)
  • Vemos as coisas porque existem, mas elas existem porque Deus as vê: a diferença entre o ver divino e o humano.(Confissões - Livro XIII 31)
  • Recapitulação das obras dos seis dias e do bem que Deus reconheceu em cada uma e no todo.(Confissões - Livro XIII 32)
  • Tudo foi feito do nada pela palavra de Deus, sem matéria coeterna: louvor ao Criador de toda a substância.(Confissões - Livro XIII 33)
  • Recapitulação alegórica: a Igreja, a Escritura, os sacramentos e os fiéis figurados na ordem da criação.(Confissões - Livro XIII 34)
  • Pedido da paz do repouso, a paz do sábado, a paz sem fim que não conhece entardecer.(Confissões - Livro XIII 35)
  • O sétimo dia sem tarde: figura do descanso eterno em Deus, depois de consumadas as obras.(Confissões - Livro XIII 36)
  • Deus repousará em nós como agora opera em nós: o descanso divino e o nosso descanso nele.(Confissões - Livro XIII 37)
  • Conclusão: só a Deus se pede o entendimento, pois quem pede recebe, quem busca encontra e a quem bate se abre.(Confissões - Livro XIII 38)