Confissões - Livro XIII 2
Livro XIII: a leitura alegórica dos dias da criação e o repouso do sétimo dia
Pois da plenitude da vossa bondade subsiste a vossa criatura, para que um bem, que em nada vos aproveitava, nem de vós era igual a vós, todavia, porque de vós pôde ser feito, não viesse a faltar. Que merecimento tiveram para convosco o céu e a terra, que fizestes no princípio? Digam que mereceram para convosco a natureza espiritual e a corporal, que fizestes na vossa Sabedoria, para que dela dependessem ainda as coisas iniciadas e informes, cada uma em seu gênero, quer espiritual quer corporal, indo para o desregramento e para a remota dessemelhança vossa; a espiritual informe mais excelente do que se fosse um corpo formado, e a corporal informe mais excelente do que se fosse de todo nada; e assim dependessem informes da vossa Palavra, se por essa mesma Palavra não fossem chamadas de volta à vossa unidade, e formadas, e por vós, único e sumo Bem, fossem todas elas bens muito bons. Que mereceram para convosco, para serem ao menos informes, elas que nem isso seriam senão de vós?
Que merecimento teve para convosco a matéria corporal, para ser ao menos invisível e desordenada, pois nem isso seria se não a tivésseis feito? E por isso, porque não existia, não podia merecer de vós que viesse a existir. Ou que mereceu para convosco o início da criatura espiritual, para ao menos fluir tenebrosa, semelhante ao abismo, dessemelhante de vós, se por essa mesma Palavra não fosse convertida àquele de quem foi feita, e, por ele iluminada, se fizesse luz, ainda que não igual, mas conforme à forma igual a vós? Pois assim como, para um corpo, não é o mesmo existir e ser belo (de outro modo não poderia ser disforme), assim também, para o espírito criado, não é o mesmo viver e viver sabiamente: de outro modo seria sábio imutavelmente. Mas é bom para ele aderir a vós sempre, para que não perca, pela aversão, a luz que alcançou pela conversão, e recaia numa vida semelhante ao tenebroso abismo. Pois também nós, que segundo a alma somos criatura espiritual, afastados de vós, nossa luz, fomos naquela vida outrora trevas, e nos resquícios da nossa obscuridade trabalhamos, até que sejamos a vossa justiça no vosso Unigênito, como os montes de Deus. Pois fomos os vossos juízos, como o grande abismo.