Confissões - Livro XIII 22
Livro XIII: a leitura alegórica dos dias da criação e o repouso do sétimo dia
Eis que, Senhor, Deus nosso, Criador nosso, quando as afeições forem refreadas do amor do século, pelas quais morríamos vivendo mal, e a alma começar a ser alma vivente vivendo bem, e se cumprir a vossa palavra com que pelo vosso apóstolo dissestes: "Não vos conformeis com este século", seguir-se-á também aquilo que logo acrescentastes e dissestes: "Mas reformai-vos na novidade do vosso entendimento", já não segundo a espécie, como que imitando o próximo que nos precede, nem vivendo da autoridade de um homem melhor. Pois não dissestes: "Faça-se o homem segundo a sua espécie", mas: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança", para que nós provemos qual seja a vossa vontade. Pois para isto aquele vosso dispensador, gerando filhos pelo evangelho, para que não tivesse sempre como pequeninos os que alimentava com leite e amparava como ama, diz: "Reformai-vos na novidade do vosso entendimento, para provardes qual seja a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito." E por isso não dizeis: "Faça-se o homem", mas: "Façamos", nem dizeis: "segundo a espécie", mas: "à nossa imagem e semelhança". Pois o homem, renovado na mente e contemplando a vossa verdade entendida, não precisa de homem que lha demonstre para imitar a sua espécie, mas, demonstrando-lha Vós, ele mesmo prova qual seja a vossa vontade, o que é bom, agradável e perfeito; e Vós o ensinais, já capaz, a ver a Trindade da Unidade ou a Unidade da Trindade. E por isso, dito no plural "Façamos o homem", infere-se contudo no singular: "E fez Deus o homem"; e dito no plural "à nossa imagem", infere-se no singular: "à imagem de Deus". Assim o homem é renovado no conhecimento de Deus, segundo a imagem daquele que o criou, e, feito espiritual, julga todas as coisas que devem ser julgadas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém.