Confissões - Livro XIII 17

Livro XIII: a leitura alegórica dos dias da criação e o repouso do sétimo dia

Quem congregou os amargos numa sociedade única? Pois um mesmo é o fim deles: a felicidade temporal e terrena, por causa da qual fazem tudo, ainda que flutuem numa inumerável variedade de cuidados. Quem, Senhor, senão Vós, que dissestes que se congregassem as águas numa única congregação e aparecesse a terra árida, sequiosa de Vós, porque vosso é o mar, e Vós o fizestes, e a terra árida vossas mãos a formaram? Pois não é a amargura das vontades, mas a congregação das águas, que se chama mar. Pois Vós refreais também as más concupiscências das almas e fixais os limites até onde se permita que as águas avancem, para que em si mesmas se quebrem as suas ondas, e assim fazeis o mar pela ordem do vosso império sobre todas as coisas.
Mas as almas que têm sede de Vós e que aparecem diante de Vós, separadas por outro fim da sociedade do mar, Vós as irrigais com uma fonte oculta e doce, para que também a terra o seu fruto. E o seu fruto, e, por vosso mandado, Senhor Deus seu, a nossa alma germina obras de misericórdia segundo a sua espécie, amando o próximo no socorro das necessidades carnais, tendo em si a semente segundo a semelhança, porque, a partir da nossa fraqueza, nos compadecemos para acudir aos necessitados, auxiliando-os de modo semelhante a como quereríamos que nos fosse trazido auxílio, se do mesmo modo estivéssemos necessitados; não apenas nas coisas fáceis, como na erva que semente, mas também na proteção de um auxílio de forte vigor, como a árvore frutífera, isto é, benfazeja para arrancar aquele que padece injúria da mão do poderoso e oferecer-lhe a sombra da proteção com o robusto vigor de um justo juízo.