Confissões - Livro XIII 11
Livro XIII: a leitura alegórica dos dias da criação e o repouso do sétimo dia
Quem compreenderá a Trindade onipotente? E quem não fala dela, se é que dela fala? Rara é a alma que, quando fala dela, sabe o que fala. E disputam e combatem, e ninguém vê essa visão sem paz. Quisera eu que os homens considerassem estas três coisas em si mesmos. Bem diversas são estas três daquela Trindade, mas digo onde os homens se exercitem, se ponham à prova e sintam quão longe estão dela. Digo, pois, estas três coisas: ser, conhecer, querer. Pois eu sou, e conheço, e quero. Sou conhecedor e volente, e sei que sou e que quero, e quero ser e conhecer. Nestas três coisas, portanto, quão inseparável é a vida, e uma só vida, e uma só mente, e uma só essência, e quão inseparável é, enfim, a distinção, e contudo distinção, veja-o quem o pode. Por certo diante de si está; atente em si, e veja, e me diga. Mas, quando nisto houver achado alguma coisa e a houver dito, não pense por isso já ter achado aquilo que está acima destas coisas, o Imutável, que é imutavelmente, e conhece imutavelmente, e quer imutavelmente. E se por causa destas três coisas há também ali Trindade, ou se em cada uma estão estas três, de modo que sejam ternas em cada uma, ou se ambas as coisas de modos admiráveis simples e multiplamente, sendo a si mesmo, em si, fim infinito, pelo qual é, e é a si conhecido, e a si basta imutavelmente, na copiosa grandeza da unidade, o mesmo que é, quem facilmente o pensaria? Quem de algum modo o diria? Quem de qualquer maneira o pronunciaria temerariamente?