Confissões - Livro XIII 1

Livro XIII: a leitura alegórica dos dias da criação e o repouso do sétimo dia

Eu vos invoco, ó meu Deus, minha misericórdia, que me fizestes e não vos esquecestes de mim, esquecido de vós. Eu vos invoco para dentro de minha alma, que preparais para vos receber, pelo desejo que lhe inspirastes. Não desampareis agora a quem vos invoca, vós que me antecedestes antes que eu vos invocasse, e insististes, multiplicando vossas vozes de muitos modos, para que eu vos ouvisse de longe, e me convertesse, e invocasse a vós que me chamáveis. Pois vós, Senhor, apagastes todos os meus maus merecimentos, para não retribuirdes às minhas mãos, com as quais me apartei de vós, e antecedestes todos os meus bons merecimentos, para retribuirdes às vossas mãos, com que me fizestes; porque, antes que eu fosse, vós éreis, e eu não era aquele a quem pudésseis conceder o ser; e, contudo, eis que sou, pela vossa bondade que antecedeu tudo isto que de mim fizestes e aquilo de que me fizestes. Pois nem precisáveis de mim, nem sou eu tal bem com que pudésseis ser ajudado, meu Senhor e meu Deus; não para vos servir como se houvésseis de vos fatigar no agir, ou para que vosso poder fosse menor por carecer do meu obséquio, nem para vos cultivar como a uma terra, de modo que ficásseis inculto se eu não vos cultivasse, mas para que eu vos sirva e vos cultue, a fim de que de vós me venha o bem, vós de quem me vem que eu seja capaz de bem.