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A montanha do Purgatório com as almas penitentes

A Divina Comédia: Purgatório

A segunda cantica (33 cantos): ainda com Virgílio, Dante sobe a montanha do Purgatório, onde as almas se purificam dos sete pecados capitais terraço a terraço, até o Paraíso Terrestre, onde reencontra Beatriz

Sobre a obra

O Purgatório é a segunda das três cantiche da Divina Comédia de Dante Alighieri (1265 a 1321), escrita no exílio entre cerca de 1308 e 1321. São 33 cantos em terza rima. Esta edição apresenta a tradução em português ao lado do texto italiano original, de domínio público.

Se o Inferno desce ao centro da Terra, o Purgatório sobe: é uma montanha no hemisfério sul, a única terra firme das águas do outro lado do globo, formada (na geografia imaginária do poema) pela queda de Lúcifer. É a cantica da esperança e da transformação, onde as almas sofrem para se purificar, não para sempre.

O que esta cantica narra

Ainda guiado por Virgílio, Dante chega à praia do Purgatório, guardada por Catão de Útica. A montanha tem um Antepurgatório (os que se arrependeram tarde) e sete terraços, um para cada pecado capital: soberba, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria. Em cada terraço as almas cantam salmos e bem-aventuranças, contemplam exemplos esculpidos da virtude oposta, e um anjo apaga da fronte de Dante um dos sete "P" (de peccatum).

No alto está o Paraíso Terrestre, o Éden. Ali Virgílio se despede, pois a razão natural não pode ir além; Matelda conduz Dante, e Beatriz desce em triunfo para repreendê-lo e guiá-lo dali em diante. Dante bebe dos rios Lete (esquecimento do pecado) e Eunoé (memória do bem) e fica pronto para subir às estrelas.

O reencontro com Beatriz, depois da morte dela e do desvio de Dante, é um dos ápices do poema:

Olha bem para mim! Sou eu, sou eu Beatriz. Como te dignaste a subir o monte?

Dante, Purgatório XXX, A Divina Comédia: Purgatório 30:25

Uma obra tecida de teologia, Bíblia e liturgia

O Purgatório é a cantica mais litúrgica do poema. As almas entram cantando o In exitu Israel de Aegypto (Salmo 114), recitam o Pai-Nosso parafraseado (canto 11, sobre Mt 6:9-13), o Miserere (Salmo 51), o Te lucis ante, o Agnus Dei. Os exemplos de virtude e de vício esculpidos nos terraços misturam de propósito a Bíblia e a história clássica: a Anunciação e Davi diante da Arca ao lado de Trajano; Caim e Saul ao lado de Nínive e Tróia.

As referências cruzadas desta edição ligam cada terraço aos textos que o sustentam: as bem-aventuranças do Sermão da Montanha (Mt 5), que os anjos cantam terraço a terraço; a procissão mística do Éden, montada sobre o Apocalipse (os 24 anciãos de Ap 4, os quatro viventes de Ez 1) e o Cântico dos Cânticos. A doutrina do Purgatório, ponto de divisão entre católicos e protestantes, aparece aqui na forma mais influente que a cultura ocidental lhe deu.

O comentário sinaliza, com honestidade, onde Dante inventa (a geografia da montanha, a figura de Matelda, o enigma profético do canto 33) e onde segue a teologia recebida. O poema é arte teológica, não catecismo: une Aristóteles, Tomás de Aquino, a liturgia e a poesia trovadoresca numa visão própria.

Para a abertura da segunda cantica, a "pequena nave do engenho" que alça velas em águas melhores, ver:

(A Divina Comédia: Purgatório 1:1)