A Divina Comédia: Purgatório 10
A segunda cantica (33 cantos): ainda com Virgílio, Dante sobe a montanha do Purgatório, onde as almas se purificam dos sete pecados capitais terraço a terraço, até o Paraíso Terrestre, onde reencontra Beatriz
A cornija dos soberbos: relevos de humildade no mármore e almas curvadas sob pedras
Depois que atravessamos o umbral da porta
que o amor torpe das almas faz evitar,
porque faz parecer reto o caminho tortuoso,
ouvi-a fechar com um som; e se eu tivesse
voltado os olhos para ela,
que desculpa seria digna de tal falta?
Subíamos por uma fenda na pedra
que se movia de um lado para o outro,
como a onda que recua e avança.
"Aqui é preciso usar um pouco de habilidade",
começou meu guia, "para nos aproximar
ora deste lado, ora daquele, conforme a passagem se abre".
E isso tornou nossos passos lentos,
de tal modo que a lua minguante
já havia voltado ao leito para se recolher,
antes que saíssemos daquele estreito;
mas quando estávamos livres e abertos
lá onde o monte se retrai atrás,
eu cansado e ambos incertos
do nosso caminho, paramos num planalto
mais solitário do que estradas no deserto.
Da sua borda, onde confina com o vazio,
até o pé da alta escarpa que segue subindo,
a largura seria de três corpos humanos;
e até onde meu olhar podia alcançar,
ora pelo lado esquerdo, ora pelo direito,
esta cornija me parecia assim.
Ainda não havíamos movido os pés lá em cima
quando percebi que aquela parede ao redor,
que não tinha subida direta,
era de mármore branco e adornada
de entalhes tão perfeitos que não só Policleto,
mas a própria natureza ficaria envergonhada ali.
O anjo que veio à terra com o decreto
da paz chorada por tantos anos,
que abriu o céu de seu longo interdito,
aparecia diante de nós tão verdadeiro,
ali entalhado numa atitude suave,
que não parecia uma imagem que permanece muda.
Qualquer um juraria que ele dizia 'Ave!';
pois ali estava gravada aquela
que girou a chave para abrir o amor supremo;
e em seu gesto estava impressa esta fala:
'Ecce ancilla Dei', precisamente
como uma figura se sela na cera.
"Não prenda a mente a um único lugar",
disse o doce mestre, que estava
do lado onde as pessoas têm o coração.
Por isso movi meu olhar, e vi,
atrás de Maria, do lado
de onde estava aquele que me guiava,
outra história entalhada na rocha;
então passei além de Virgílio e me aproximei
para que pudesse dispor-se aos meus olhos.
Ali estava entalhado no mesmo mármore
o carro e os bois arrastando a arca santa,
diante da qual se teme exercer função não delegada.
À frente parecia haver gente; e toda ela,
dividida em sete coros, fazia meus dois sentidos
dizerem um 'Não', o outro 'Sim, cantam'.
Da mesma forma com a fumaça do incenso
que ali estava representada, os olhos e o nariz
ficavam discordantes entre o sim e o não.
Ali o humilde salmista precedia a arca abençoada,
dançando exaltado,
e naquele instante era mais e menos que um rei.
Em frente, retratada numa janela
de um grande palácio, Mical observava
com o ar de mulher desdenhosa e triste.
Movi os pés do lugar onde estava,
para examinar de perto outra história
que branquejava atrás de Mical.
Ali estava narrada a alta glória
do principado romano, cuja virtude
moveu Gregório à sua grande vitória;
falo do imperador Trajano;
e uma pequena viúva estava ao seu freio,
com o semblante pleno de lágrimas e dor.
Ao seu redor parecia tudo apertado e cheio
de cavaleiros, e as águias no ouro
sobre eles pareciam mover-se ao vento.
A pobrezinha, entre todos esses,
parecia dizer: "Senhor, vinga-me
pelo meu filho que foi morto, e eu sofro";
e ele parecia responder-lhe: "Espera agora
até eu voltar"; e ela: "Meu senhor",
como alguém em quem a dor não espera,
"se você não voltar?"; e ele: "Quem estiver no meu lugar
o fará por você"; e ela: "O bem de outro
de que vai adiantar para você, se esquecer o seu?";
e ele: "Consola-te; é preciso
que eu cumpra meu dever antes de prosseguir:
a justiça o exige, e a compaixão me retém".
Aquele que nunca viu coisa nova
produziu essa fala visível,
nova para nós porque não se encontra aqui.
Enquanto me deleitava em contemplar
as imagens de tanta humildade,
preciosas de se ver também por seu artífice,
"Olhe aqui, mas seus passos são lentos",
murmurava o poeta, "muitas pessoas:
elas nos encaminharão aos degraus mais altos".
Meus olhos, que estavam contentes em contemplar
para ver novidades, do que tanto gostam,
não foram lentos em se voltarem para ele.
Mas não quero, leitor, que você perca
o bom propósito ao ouvir
como Deus quer que a dívida seja paga.
Não se detenha na forma do martírio:
pense na sucessão; pense que no pior caso
não pode ir além da grande sentença.
Comecei: "Mestre, o que vejo
se mover em nossa direção não me parecem pessoas,
e não sei o que são, tão confusa está minha visão".
E ele para mim: "A grave condição
de seu tormento os dobra até o chão,
de modo que meus olhos também tiveram dificuldade com eles a princípio.
Mas olhe fixo para lá, e desembarace
com o olhar o que vem sob aquelas pedras:
já pode ver como cada um se bate".
Ó cristãos soberbos, miseráveis e fatigados,
que, enfermos da visão da mente,
depositam confiança em passos que regridem,
não percebem que somos vermes
nascidos para formar a borboleta angélica
que voa rumo à justiça sem defesas?
Por que então o espírito de vocês se exalta,
se são como criaturas imperfeitas,
como o verme em quem a formação falhou?
Como para sustentar um soalho ou teto
às vezes se vê uma figura como mênsula
com os joelhos presos ao peito,
que faz nascer angústia verdadeira
em quem a vê, mesmo não sendo real: assim feitos
vi aqueles, quando prestei bem atenção.
É verdade que estavam mais ou menos dobrados
conforme tinham mais ou menos nas costas;
e aquele que mostrava mais paciência nos gestos,
chorando parecia dizer: 'Não aguento mais'.