A Divina Comédia: Purgatório 12
A segunda cantica (33 cantos): ainda com Virgílio, Dante sobe a montanha do Purgatório, onde as almas se purificam dos sete pecados capitais terraço a terraço, até o Paraíso Terrestre, onde reencontra Beatriz
Imagens dos soberbos entalhadas no chão e o anjo que apaga o primeiro P
Como bois debaixo do mesmo jugo,
eu caminhava ao lado daquela alma sobrecarregada,
enquanto o gentil mestre o permitiu.
Mas quando ele disse: "Deixa-o e avança;
aqui é bom que cada um empurre sua barca
com tudo que pode, com remos e velas",
endireitei o corpo como convém a quem caminha,
embora meus pensamentos continuassem
curvados e diminuídos.
Eu havia partido e seguia com prazer
os passos do meu mestre, e os dois
já mostrávamos como estávamos leves,
e ele me disse: "Olha para baixo;
será bom, para tranquilizar o caminho,
ver onde seus pés pisam."
Como, para que fique a memória deles,
as lápides planas sobre os sepultados
trazem gravada a imagem de quem foram,
e por isso muitos ali choram
ao ferrete da lembrança,
que só espicaça os piedosos,
assim vi eu ali, mas com mais beleza de arte,
talhado em relevo, tudo que avança
ao longo do caminho externo da montanha.
Via, de um lado, aquele criado mais nobre
do que qualquer outra criatura,
cair do céu como um raio.
Via Briareo, abatido pelo dardo celeste,
deitado do outro lado,
pesado sobre a terra pelo gelo da morte.
Via Timbreu, via Palas e Marte,
ainda armados, ao redor do pai,
contemplando os membros dispersos dos Gigantes.
Via Nemrod ao pé da grande obra,
quase perdido, olhando os povos
que em Sennaar foram soberbos com ele.
Ó Níobe, com que olhos cheios de dor
eu te via gravada no chão,
entre os teus sete e sete filhos mortos!
Ó Saul, como parecias morto ali,
caído sobre a tua própria espada em Gilboa,
que depois não sentiu chuva nem orvalho!
Ó louca Aracne, assim eu te via,
já meio aranha, triste sobre os trapos
da obra que tanto te custou.
Ó Roboão, ali a tua imagem
já não ameaça; mas cheio de espanto,
um carro te carrega sem que ninguém te persiga.
Mostrava ainda o duro pavimento
como Alcmeão fez sua mãe pagar caro
pelo infeliz adorno.
Mostrava como os filhos se lançaram
sobre Senaqueribe dentro do templo,
e como o deixaram ali, após matá-lo.
Mostrava a ruína e o cruel massacre
que Tamíris fez, quando disse a Ciro:
"Tiveste sede de sangue, e de sangue eu te encho."
Mostrava como os Assírios fugiram em debandada
após a morte de Holofernes,
e os vestígios do morticínio.
Via Troia em cinzas e em ruínas;
ó Ílion, como o entalhe ali
te mostrava baixa e vil!
Que mestre de pincel ou de buril
poderia ter reproduzido as sombras e os traços
que ali deixariam um espírito aguçado em admiração?
Os mortos pareciam mortos, os vivos pareciam vivos:
ninguém que viu o real viu melhor do que eu,
enquanto eu caminhava curvado.
Vão, sejam soberbos, andem com o rosto erguido,
filhos de Eva, sem curvar a cabeça
para ver o mísero caminho que trilham!
Já havíamos percorrido boa parte da montanha,
e muito mais do trajeto do sol havia passado
do que meu espírito ainda preso calculava,
quando aquele que sempre andava atento à frente
começou: "Levanta a cabeça;
já não é hora de andar assim curvado.
Veja ali um anjo que se prepara
para vir ao nosso encontro; veja como
a sexta serva do dia volta do seu serviço.
Orna o rosto e os gestos com reverência,
para que lhe agrade nos enviar para cima;
lembra que este dia não volta a amanhecer!"
Eu já estava bem acostumado
com suas advertências para não perder tempo,
de modo que sobre aquilo ele não precisava ser indireto.
Vinha em nossa direção a bela criatura,
vestida de branco, com um rosto
como o da estrela da manhã a tremer.
Abriu os braços e depois abriu as asas;
disse: "Venham: os degraus estão perto,
e daqui em diante se sobe com facilidade.
A esse convite pouquíssimos respondem:
ó gente humana, nascida para voar para cima,
por que cais com tão pouco vento?"
Ele nos conduziu onde a rocha estava cortada;
ali me bateu as asas na testa,
e depois me prometeu caminho seguro.
Como, à mão direita, para subir ao monte
onde fica a igreja que domina
a bem governada cidade acima do Rubaconte,
o ímpeto da subida se rompe
pelos degraus construídos numa época
em que o registro e a medida eram confiáveis,
assim se afrouxa a encosta que cai bem íngreme
aqui desde a outra cornija;
mas a pedra alta raspa de perto nos dois lados.
Ao nos voltarmos ali, vozes
cantaram "Beati pauperes spiritu!"
de um modo que nenhuma palavra descreveria.
Ah, como são diferentes essas entradas
das do Inferno, pois aqui se entra por cantos
e lá embaixo por lamentos furiosos.
Já subíamos pelos santos degraus,
e me parecia muito mais leve
do que na planície havia me parecido antes.
Então eu disse: "Mestre, diga, que coisa pesada
se levantou de mim, que ao andar
não sinto quase nenhum esforço?"
Respondeu: "Quando os P que ainda restam
no seu rosto, quase apagados,
forem todos raspados, como já foi o primeiro,
seus pés serão tão dominados pela boa vontade
que não só não sentirão cansaço,
mas terão prazer em ser impelidos para cima."
Então fiz como quem caminha
com algo na cabeça sem saber,
a não ser pelo que os gestos dos outros fazem suspeitar,
e assim a mão sobe para verificar,
tateia e encontra, cumprindo
o que a vista não consegue,
e com os dedos abertos da mão direita
encontrei apenas seis das letras
que o guardador das chaves me entalhara nas têmporas:
ao ver isso, meu guia sorriu.