A Divina Comédia: Purgatório 23
A segunda cantica (33 cantos): ainda com Virgílio, Dante sobe a montanha do Purgatório, onde as almas se purificam dos sete pecados capitais terraço a terraço, até o Paraíso Terrestre, onde reencontra Beatriz
Dante reencontra Forese Donati entre os penitentes da gula
Enquanto eu fixava os olhos na folhagem verde
como faz quem perde a vida
à caça de pássaros,
o que mais que pai me dizia: "Vem, filho,
apresenta-te, pois o tempo que nos foi dado
convém repartir com mais proveito."
Virei o rosto e o passo igualmente depressa,
seguindo os sábios que conversavam de tal modo
que andar não me custava nada.
E eis que se ouvia chorar e cantar
'Labia mea, Domine' de tal modo
que gerava ao mesmo tempo prazer e dor.
"Ó doce pai, o que é isso que ouço?",
comecei; e ele: "Almas que passam,
talvez solvendo o nó de sua dívida."
Como fazem os peregrinos pensativos
quando encontram no caminho gente desconhecida,
que se viram para olhar sem parar,
assim, atrás de nós, movendo-se mais rápido,
uma turba de almas silenciosa e devota
vinha passando e nos admirava.
Cada um tinha os olhos escuros e fundos,
pálido no rosto e tão descarnado
que a pele se moldava sobre os ossos.
Não creio que Erisíctone ficasse assim
ressequido até a casca pelo jejum,
mesmo quando o medo foi maior nele.
Eu dizia para mim mesmo pensando: 'É este
o povo que perdeu Jerusalém,
quando Maria picou no próprio filho!'
As órbitas dos olhos eram como anéis sem pedras;
quem lê 'omo' no rosto dos homens
teria reconhecido ali o 'm' com facilidade.
Quem acreditaria que o odor de um fruto
pudesse assim governar, gerando desejo,
e o de uma água, sem saber como?
Já me espantava do que assim os esfomeia,
estando ainda oculta a causa
de sua magreza e de sua triste casca,
quando do fundo de seu rosto
uma alma voltou os olhos para mim e olhou fixamente;
depois gritou forte: "Que graça é esta que me é dada?"
Nunca o teria reconhecido pelo rosto;
mas em sua voz me foi revelado
o que o aspecto havia consumido nele.
Essa centelha reacendeu todo meu reconhecimento
do rosto transformado,
e reconheci o rosto de Forese.
"Não me rejeites", pedia, "por esta casca seca
que descolore minha pele,
nem pela falta de carne que tenho;
mas diz-me a verdade sobre ti, diz quem são
essas duas almas que te acompanham;
não passes sem me falar!"
"Teu rosto, que eu chorei já como morto,
me dá agora não menor dor",
respondi-lhe, "ao vê-lo assim desfigurado.
Por isso me diz, por Deus, o que assim vos despe;
não me faça falar enquanto ainda estou admirado,
pois mal fala quem está cheio de outro desejo."
E ele para mim: "Do eterno conselho
desce poder na água e na planta
deixada atrás, e por isso fico assim magro.
Toda esta gente que chora enquanto canta,
por ter seguido a gula além da medida,
aqui se refaz santa na fome e na sede.
O desejo de comer e beber se acende
pelo odor que sai do fruto e da aspersão
que se estende por sua verdura.
E não apenas uma vez, girando este espaço,
nossa pena se renova:
digo pena, mas devia dizer alívio,
porque aquela vontade que nos leva às árvores
é a mesma que levou Cristo contente a dizer 'Elí',
quando nos libertou com seu sangue."
E eu para ele: "Forese, desde aquele dia
em que mudaste de mundo para vida melhor,
ainda não se passaram cinco anos até aqui.
Se o poder de pecar mais se esgotou em ti
antes que chegasse a hora
do bom arrependimento que nos reconcilia com Deus,
como já chegou cá em cima?
Eu pensava te encontrar lá embaixo,
onde o tempo se restaura com tempo."
E ele para mim: "Tão depressa me trouxe
a beber o doce absinto dos martírios
a minha Nella com seu choro torrencial.
Com suas preces devotas e seus suspiros
me tirou da encosta onde se espera,
e me libertou dos outros giros.
Tanto mais cara e querida a Deus
é a minha viuvinha, a quem muito amei,
quanto mais sozinha está no bem agir;
pois a Barbágia da Sardenha é muito mais pudica
em suas mulheres do que a Barbágia
onde a deixei.
Ó doce irmão, que queres que eu diga?
Um tempo futuro já está diante de mim,
do qual esta hora não estará muito distante,
no qual será proibido do púlpito
às mulheres desavergonhadas de Florença
andar mostrando o peito com os seios.
Que bárbaras houve jamais, que sarracenas,
que precisassem de disciplina espiritual
ou outra para andar cobertas?
Mas se as desavergonhadas soubessem
o que o céu veloz lhes prepara,
já teriam a boca aberta para uivar;
pois se o presságio aqui não me engana,
serão tristes antes que as bochechas criem pelos
daquele que agora se embala com canção de ninar.
Ora, irmão, não te escondas mais de mim!
Vê que não só eu, mas toda esta gente
fita o lugar onde o sol te faz sombra."
A isso eu para ele: "Se trazes à memória
o que foi comigo e o que fui contigo,
ainda será pesada a lembrança do presente.
Dessa vida me desviou quem vai à minha frente,
anteontem, quando sua irmã"
(e mostrei o sol) "se mostrou cheia para vós;
este me conduziu pela noite profunda
dos verdadeiramente mortos,
com esta carne viva que o segue.
Daqui seus encorajamentos me ergueram,
subindo e girando a montanha
que retifica a vós que o mundo entortou.
Ele promete me acompanhar
até onde estará Beatriz;
lá devo permanecer sem ele.
É Virgílio quem assim me diz", e o apontei;
"e este outro é aquela alma pela qual
todo vosso reino há pouco tremeu em cada encosta,
expulsando-o de si.