A Divina Comédia: Purgatório 25
A segunda cantica (33 cantos): ainda com Virgílio, Dante sobe a montanha do Purgatório, onde as almas se purificam dos sete pecados capitais terraço a terraço, até o Paraíso Terrestre, onde reencontra Beatriz
Estácio explica a origem da alma e os luxuriosos purificam-se no fogo
Era então a hora em que subir não sofria impedimento;
pois o sol deixara o círculo do meio-dia ao Touro
e a noite ao Escorpião:
assim como o homem que não hesita
mas segue seu caminho, seja o que for que apareça,
se o estímulo da necessidade o estimula,
assim entramos na passagem estreita,
um antes do outro tomando a escada
que pela estreiteza separa os que sobem.
E como o cegonhinho que levanta a asa
no desejo de voar, mas não se atreve
a abandonar o ninho e a recolhe;
assim fui eu, com vontade acesa e apagada
de fazer uma pergunta, chegando até o ato
daquele que se prepara para falar.
Meu doce pai, mesmo que o passo fosse rápido,
não se deteve, mas disse: "Solta
o arco da fala que puxaste até a ponta de ferro."
Então com segurança abri a boca
e comecei: "Como se pode emagrecer
lá onde não há necessidade de nutrir-se?"
"Se te lembrasses de como Meleagro
se consumiu ao consumir-se um tição,
não seria isto tão difícil para ti;
e se pensasses como, ao teu menor movimento,
estremece dentro do espelho tua própria imagem,
o que parece duro pareceria mole.
Mas para colocar-te à vontade em teu desejo,
eis aqui Estácio; e a ele chamo e peço
que seja agora o médico de tuas feridas."
"Se eu deslindo para ele a visão eterna,
onde você está", respondeu Estácio,
"que me desculpe não poder dizer não."
Então começou: "Se minhas palavras,
filho, tua mente guarda e acolhe,
elas te iluminarão sobre o 'como' que perguntas.
O sangue perfeito que jamais é absorvido
pelas veias sedentas mas fica,
como alimento retirado da mesa,
adquire no coração poder formador
para todos os membros humanos,
assim como aquele sangue que flui pelas veias para fazê-los.
Ainda digerido, desce aonde é melhor
calar do que falar; e depois flui
sobre o sangue do outro em vaso natural.
Lá o um se une ao outro,
um disposto a receber, o outro a agir,
pelo lugar perfeito de onde é pressionado;
e, unido a ele, começa a operar,
primeiro coagulando, depois dando vida
àquilo que por sua matéria fez firme.
A virtude ativa, tornada alma
como a de uma planta, diferindo na medida
em que esta ainda está a caminho e aquela já chegou,
então age de modo que já se move e sente,
como uma esponja marinha; e então começa
a organizar as faculdades de que é semente.
Agora se abre, filho, agora se estende
o poder que vem do coração do que gera,
onde a natureza atende a todos os membros.
Mas como de um animal se torna um ser que fala,
ainda não vês: este é tal ponto
que já pôs em erro alguém mais sábio que tu,
de modo que em seu ensinamento
separou da alma o intelecto possível,
pois não viu nenhum órgão assumido por ele.
Abre teu peito à verdade que chega;
e sabe que, assim que no feto
a articulação do cérebro está perfeita,
o Primeiro Motor volta-se para ele com alegria,
sobre essas tantas obras da natureza, e sopra
nele um espírito novo, cheio de virtude,
que atrai para sua substância o que lá encontra ativo,
e se torna uma única alma que vive e sente
e volta sobre si mesma.
E para que te espantes menos com o que digo,
olha o calor do sol que se torna vinho,
unido ao sumo que flui da videira.
Quando Láquesis não tem mais linha,
a alma se solta da carne, e carrega consigo
em potência tanto o humano quanto o divino:
todas as outras faculdades ficam mudas;
memória, inteligência e vontade
em ato muito mais agudas que antes.
Sem parar, cai por si mesma
maravilhosamente a uma das margens;
lá conhece primeiramente seus caminhos.
Assim que o lugar lá a circunscreve,
a virtude formativa irradia ao redor
assim e tanto quanto nos membros vivos.
E como o ar, quando está bem saturado,
torna-se adornado de diversas cores
pelo raio alheio que nele se reflete;
assim o ar vizinho ali se molda
na forma que virtualmente
a alma que se estabeleceu imprime nele;
e então, como a chama que segue o fogo
aonde quer que se mova,
sua nova forma segue o espírito.
Já que dela tem sua aparência,
é chamada sombra; e daí então organiza
cada sentido até a visão.
Daí falamos e daí rimos;
daí formamos as lágrimas e os suspiros
que pelo monte você pode ter ouvido.
Conforme os desejos e outras afeições nos afligem,
a sombra toma forma;
e esta é a razão do que te espanta."
E já tínhamos chegado à última curva
e virávamos para a direita,
atentos a outra preocupação.
Lá a borda dispara chamas para fora,
e a cornija sopra um hálito para cima
que as desvia e as afasta dela;
de modo que nos convinha ir pelo lado aberto,
um a um; e eu temia o fogo
de um lado, e do outro temia cair.
Meu guia dizia: "Por este lugar
convém manter os olhos bem refreados,
pois poderia errar-se com pouco."
'Summae Deus clementiae', no seio
do grande ardor ouvi então cantando,
que não menos me fez querer voltar-me;
e vi espíritos andando pela chama;
assim os observava e a meus próprios passos,
dividindo a visão de quando em quando.
Após o final daquele hino,
gritavam alto: 'Virum non cognosco';
depois recomeçavam o hino em voz mais baixa.
Terminado, gritavam de novo: "Diana se manteve no bosque,
e expulsou Hélice que havia provado
o veneno de Vênus."
Depois voltavam ao canto; depois gritavam
de mulheres e maridos que foram castos
como virtude e matrimônio impõe.
E creio que esse modo lhes baste
por todo o tempo em que o fogo os queima;
com tal cuidado e com tais alimentos
deve a última ferida por fim se fechar.