A Divina Comédia: Purgatório 7
A segunda cantica (33 cantos): ainda com Virgílio, Dante sobe a montanha do Purgatório, onde as almas se purificam dos sete pecados capitais terraço a terraço, até o Paraíso Terrestre, onde reencontra Beatriz
Sordello reconhece Virgílio e apresenta os reis negligentes no vale
Depois que os abraços honestos e alegres
foram repetidos três e quatro vezes,
Sordello se afastou e disse: "Vós, quem sois?"
"Antes que as almas dignas de subir a Deus
se voltassem para este monte,
meus ossos foram sepultados por Otaviano.
Sou Virgílio; e por nenhum outro mal
perdi o céu senão por não ter fé."
Assim respondeu então meu guia.
Como quem vê de repente diante de si
algo que o maravilha,
e acredita e não acredita, dizendo "É... não é...",
assim pareceu ele; e depois abaixou as sobrancelhas,
e humildemente voltou a ele
e o abraçou onde um inferior se agarra.
"Ó glória do Latim", disse ele, "por quem
se mostrou o que podia nossa língua,
ó eterno orgulho do lugar de onde vim,
que mérito ou que graça te apresenta a mim?
Se sou digno de ouvir tuas palavras,
diz-me se vens do Inferno, e de que círculo."
"Por todos os círculos do reino do sofrimento",
respondeu ele, "vim até aqui;
uma força do céu me moveu, e com ela venho.
Não por fazer, mas por não ter feito perdi
a chance de ver o Sol alto que tu desejas
e que foi tarde por mim reconhecido.
Há um lugar lá embaixo não triste de tormentos,
mas só de trevas, onde os lamentos
não soam como queixas, mas são suspiros.
Ali estou eu com as crianças inocentes
mortas pelos dentes da morte
antes de serem isentas da culpa humana;
ali estou eu com os que as três virtudes santas
não vestiram, e sem vício
conheceram as outras e as seguiram todas.
Mas se sabes e podes, dá-nos alguma indicação
para que possamos vir mais rápido
ao lugar onde o Purgatório propriamente começa."
Respondeu: "Não há um lugar fixo determinado;
é-me permitido ir para cima e ao redor;
até onde posso ir, me ponho a te guiar.
Mas vê como o dia já declina,
e subir à noite não é possível;
por isso convém pensar num bom abrigo.
Há almas aqui à direita, em local afastado;
se me consentes, levar-te-ei até elas,
e não sem prazer as conhecerás."
"Como é isso?", foi respondido. "Quem quisesse
subir de noite, seria impedido
por alguém, ou seria porque não poderia?"
E o bom Sordello esfregou o dedo no chão,
dizendo: "Vês? somente esta linha
não cruzarias depois que o sol se foi:
não porque outra coisa desse obstáculo,
senão as trevas noturnas, ao subir;
elas prendem a vontade com a impossibilidade.
Bem se poderia com ela descer
e passear pela encosta errando,
enquanto o horizonte mantém fechado o dia."
Então meu senhor, como admirado,
disse: "Leva-nos, então, onde dizes
que se pode ter prazer ficando."
Pouco nos havíamos afastado dali,
quando percebi que o monte estava rebaixado,
como os vales o rebaixam aqui.
"Lá", disse aquela sombra, "iremos
onde a encosta faz de si um regaço;
e ali esperaremos o novo dia."
Entre o íngreme e o plano havia uma trilha oblíqua,
que nos conduziu para o flanco do vale,
lá onde a borda vai morrendo além da metade.
Ouro e prata fina, carmesim e branco,
índigo, madeira clara e serena,
esmeralda fresca na hora em que perde o brilho,
pela erva e pelas flores naquele vale,
cada uma dessas cores seria superada,
como o menor é superado pelo maior.
Não havia pintado ali somente a natureza,
mas com a suavidade de mil odores
fazia ali um perfume desconhecido e indistinto.
"Salve, Regina" sobre o verde e as flores
ali sentadas cantando almas vi,
que pela encosta do vale não se viam de fora.
"Antes que o pouco sol agora se aninhe",
começou o mantuano que nos havia guiado,
"não queirais que eu vos guie entre eles.
Deste terraço conhecereis melhor
os gestos e os rostos de todos eles
do que se estivésseis acolhidos entre eles lá embaixo.
Aquele que senta mais alto e parece
ter negligenciado o que deveria ter feito,
e que não move a boca para os cantos dos outros,
foi o imperador Rodolfo, que podia
curar as feridas que têm a Itália morta,
de modo que tarde por outros ela se refaz.
O outro que com a vista o conforta
governava a terra onde nasce a água
que o Moldava leva ao Elba, e o Elba leva ao mar:
chamava-se Otakar, e ainda em fraldas
foi muito melhor do que seu filho Venceslau barbudo,
a quem a luxúria e a preguiça alimentam.
E aquele narigudo que parece
em estreito conselho com aquele de aspecto tão benigno,
morreu fugindo e maculando o lírio:
olhai como bate no peito!
O outro que vedes fez da sua palma
uma cama para a face, suspirando.
São pai e sogro da desgraça da França:
conhecem a vida viciada e suja dele,
e daí vem a dor que assim os fere.
Aquele que parece tão robusto e que canta
em harmonia com aquele do nariz viril,
trouxe cinto o cordão de todo valor;
e se depois dele tivesse ficado rei
o jovem que está sentado atrás,
o valor bem passaria de vaso em vaso,
o que não se pode dizer dos outros herdeiros;
Jaime e Frederico têm os reinos;
nenhum possui o melhor da herança.
Raramente a virtude humana ressurge
nos ramos de uma família; e assim quer
quem a dá, para que dela venha o reconhecimento.
Também ao narigudo vão minhas palavras
não menos do que ao outro, Pedro, que canta com ele,
pelo qual a Puglia e a Provença já choram.
Tanto é menor a planta de sua semente,
quanto, mais do que Beatriz e Margarida,
Constança ainda se orgulha do marido.
Vede o rei da vida simples
sentado lá sozinho, Henrique da Inglaterra:
este tem em seus ramos melhor descendência.
Aquele que mais baixo entre eles se prostra,
olhando para cima, é Guilherme marquês,
por quem Alessandria e sua guerra
fazem chorar o Monferrato e o Canavese."