Capítulos

A Rosa Mística dos bem-aventurados na luz do Empíreo

A Divina Comédia: Paraíso

A terceira cantica (33 cantos): guiado por Beatriz, Dante atravessa os céus planetários e as ordens dos bem-aventurados até a Rosa Mística e a visão final de Deus, em que o desejo e a vontade são movidos pelo amor que move o sol e as estrelas

Sobre a obra

O Paraíso é a terceira e última cantica da Divina Comédia de Dante Alighieri (1265 a 1321), concluída pouco antes da morte do autor, em 1321. São 33 cantos em terza rima. Esta edição traz a tradução em português ao lado do texto italiano original.

É a cantica mais difícil e mais luminosa: a subida pelos nove céus do modelo astronômico medieval (Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, as estrelas fixas e o Primo Móvel) até o Empíreo, fora do espaço e do tempo, onde Dante contempla Deus. O desafio declarado do poema é dizer o indizível: descrever uma experiência que, por definição, ultrapassa a linguagem.

O que esta cantica narra

Guiado agora por Beatriz, Dante sobe de céu em céu encontrando os bem-aventurados, que se mostram em diferentes esferas conforme o grau de sua glória, embora todos habitem o mesmo Empíreo. Encontra os que faltaram a votos, os ativos, os amantes, os sábios (Tomás de Aquino e Boaventura contam as vidas de São Francisco e São Domingos), os guerreiros da fé, os justos governantes, os contemplativos.

No mais alto, Dante é examinado por Pedro, Tiago e João sobre a fé, a esperança e a caridade. Vê o triunfo de Cristo e de Maria, as ordens dos anjos, e enfim a Rosa Mística, o anfiteatro dos santos. São Bernardo assume como último guia, dirige uma oração à Virgem, e Dante alcança a visão de Deus: três círculos de uma só luz, a Trindade, e dentro deles a imagem humana, a Encarnação. O poema termina no verso talvez mais famoso da literatura:

o amor que move o sol e as outras estrelas.

Dante, Paraíso XXXIII, A Divina Comédia: Paraíso 33:49

Uma obra tecida de teologia, Bíblia e escolástica

O Paraíso é o ponto em que a Comédia se torna mais abertamente teológica. Aqui Dante versifica a doutrina da Redenção (canto 7, sobre a queda de Adão e a Encarnação, em diálogo com a teoria da satisfação de Anselmo), a criação e a queda dos anjos, a ressurreição do corpo glorificado (sobre 1Co 15), a relação entre presciência divina e livre-arbítrio, e o problema da salvação do justo que nunca ouviu o Evangelho (canto 19).

As referências cruzadas desta edição mostram a densidade bíblica do texto: o "transumanar" do canto 1 ao lado do arrebatamento de Paulo ao terceiro céu (2Co 12); as ordens angélicas do canto 28 sobre Pseudo-Dionísio e Ef 1 / Cl 1; a Rosa dos santos sobre o Apocalipse; a oração final de Bernardo, que ecoa o Magnífico de Maria e a definição joanina de que Deus é amor (1Jo 4). O exame sobre a fé cita literalmente Hebreus 11:1.

É também a cantica mais clara sobre a dívida de Dante com a escolástica: Tomás de Aquino é personagem e voz doutrinal, e a obra inteira pressupõe a síntese medieval entre Aristóteles e a fé cristã. Ao mesmo tempo, Dante mantém sua independência: critica com aspereza a corrupção da Igreja (a invectiva de Pedro no canto 27) e defende seu próprio ideal político do Império. O comentário aponta, de modo factual, tanto a ortodoxia quanto os pontos em que Dante é singular.

Para a abertura da terceira cantica, a glória que penetra o universo, ver:

(A Divina Comédia: Paraíso 1:1)