A Divina Comédia: Paraíso 10
A terceira cantica (33 cantos): guiado por Beatriz, Dante atravessa os céus planetários e as ordens dos bem-aventurados até a Rosa Mística e a visão final de Deus, em que o desejo e a vontade são movidos pelo amor que move o sol e as estrelas
A esfera do Sol e a coroa dos sábios
Contemplando no seu Filho com o Amor
que um e outro eternamente respira,
o primeiro e inefável Valor
ordenou tudo que gira em mente e lugar
com tamanha ordem que ninguém pode
contemplar isso sem provar de Deus.
Ergue então, leitor, às esferas altas
comigo o olhar, direto àquela parte
onde um movimento e o outro se cruzam,
e ali começa a admirar a arte
daquele mestre que a ama dentro de si,
tanto que nunca desvia o olhar dela.
Vê como daí se ramifica
o círculo oblíquo que os planetas conduz,
para satisfazer o mundo que os chama.
Pois se o caminho deles não fosse inclinado,
muita virtude no céu seria em vão,
e quase todo poder cá embaixo morto.
E se do reto mais ou menos distante
fosse o desvio, muito faltaria
tanto abaixo quanto acima na ordem do mundo.
Agora fica, leitor, sobre teu banco,
pensando no que aqui se antegosta,
se queres estar alegre antes de cansar.
Pus isto à tua frente: agora te alimenta sozinho,
pois toda a minha atenção é puxada
pela matéria de que sou feito escriba.
O maior ministro da natureza,
que imprime no mundo o valor do céu
e com sua luz nos mede o tempo,
unido àquela parte que acima se menciona,
girava pelas espirais
onde mais depressa sempre se apresenta.
E eu estava com ele, mas da subida
não me dei conta, assim como alguém percebe
o pensamento antes de ele chegar.
É Beatriz quem assim conduz
de bem em melhor, tão de repente,
que seu ato não se estende no tempo.
Quão luminoso por si mesmo devia ser
aquilo que havia dentro do sol onde entrei,
visível não pela cor, mas pela luz!
Mesmo que eu chame o engenho, a arte e o hábito,
não saberia dizê-lo de modo a ser imaginado,
mas pode-se crer e ansiar por ver.
E se nossa imaginação é pequena
para tamanha altura, não é maravilha,
pois nunca houve olho que fosse além do sol.
Tal era ali a quarta família
do alto Pai, que sempre a sacia,
mostrando como respira e como gera.
E Beatriz começou: 'Dê graças,
dê graças ao Sol dos anjos, que a este
sensível o elevou por sua graça'.
Coração de mortal nunca esteve tão pronto
à devoção e a se entregar a Deus
com todo seu ardor, tão prontamente,
como me tornei eu àquelas palavras,
e tanto todo o meu amor nele se pôs
que Beatriz se eclipsou no esquecimento.
Ela não se aborreceu, mas riu de tal modo
que o esplendor de seus olhos risonhos
dividiu em muitas coisas minha mente unida.
Vi muitos clarões vivos e radiantes
fazerem de nós o centro e de si uma coroa,
mais doces na voz do que brilhantes à vista.
Assim vemos às vezes a filha de Latona
cingida, quando o ar está carregado,
retendo o fio que forma o halo.
Na corte do céu, de onde retorno,
encontram-se muitas joias caras e belas
que não podem ser retiradas do reino.
O canto daquelas luzes era uma delas,
e quem não cria asas para voar até lá
que espere as notícias do silêncio.
Depois, cantando assim, aqueles sóis ardentes
giraram ao redor de nós três vezes,
como estrelas próximas aos polos fixos,
pareceram-me damas, não libertas da dança,
mas que param em silêncio, escutando
até recolherem as novas notas.
E dentro de um ouvi começar: 'Quando
o raio da graça, que acende
o amor verdadeiro e que cresce amando,
multiplicado em você tanto resplende
que o conduz por aquela escada
que ninguém desce sem tornar a subir,
quem lhe negasse o vinho de sua ampola
para sua sede não seria livre,
assim como água que não desce ao mar.
Você quer saber de que plantas se adorna
esta grinalda que contempla ao redor
a bela senhora que ao céu o eleva.
Eu fui dos cordeiros do santo rebanho
que Domingos conduz pelo caminho
onde se engorda bem quem não devaneia.
Este que está mais próximo à minha direita
foi meu irmão e mestre: ele é Alberto
de Colônia, e eu sou Tomás de Aquino.
Se assim quer conhecer todos os outros,
siga meu falar com o olhar
girando pela bem-aventurada grinalda.
Aquele outro clarão vem do sorriso
de Graciano, que os dois foros
ajudou tanto que agrada no paraíso.
O outro que a seguir adorna nosso coro
foi aquele Pedro que, com a viúva pobre,
ofereceu à Santa Igreja seu tesouro.
A quinta luz, a mais bela entre nós,
respira de tal amor que o mundo inteiro
lá embaixo anseia por saber notícias dela.
Dentro dela está a mente elevada onde tão profundo
saber foi posto, que, se o verdadeiro é verdadeiro,
ninguém segundo surgiu para ver tanto.
Depois veja a luz daquela vela
que na carne mais a fundo viu
a natureza angélica e seu ministério.
Na outra luzinha pequena sorri
aquele defensor dos tempos cristãos
de cujo latim Agostinho se valeu.
Agora, se você leva o olho da mente
de luz em luz seguindo meu louvor,
já ficou com sede pela oitava.
Por ver todo bem, ali dentro se alegra
a alma santa que o mundo enganoso
torna manifesto a quem bem a ouve.
O corpo de onde foi expulsa jaz
lá embaixo em Cieldauro, e ela do martírio
e do exílio veio a esta paz.
Veja além flamejar o ardente espírito
de Isidoro, de Beda e de Ricardo,
que na contemplação foi mais que homem.
Este, ao qual seu olhar agora volta,
é a luz de um espírito para quem os pensamentos
graves faziam a morte parecer lenta.
É a luz eterna de Sigieri,
que, ensinando no Beco da Palha,
silogizou verdades que geraram inveja'.
Então, como um relógio que nos chama
na hora em que a esposa de Deus se levanta
a cantar matinas ao esposo para que ele a ame,
que puxa e impele uma parte e a outra,
tilintando com nota tão doce
que o espírito bem disposto se enche de amor,
assim vi eu a gloriosa roda
mover-se e dar voz a voz em harmonia
e em doçura que não pode ser conhecida
senão lá onde o gozo se eterniza.