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Dante e Virgílio diante da porta do Inferno

A Divina Comédia: Inferno

A primeira cantica (34 cantos): perdido na selva escura, Dante é guiado por Virgílio pelos nove círculos do Inferno, onde cada pecado recebe a pena que lhe corresponde, do limbo dos virtuosos pagãos ao fundo gelado em que Lúcifer tritura os traidores

Sobre a obra

A Divina Comédia é o poema de Dante Alighieri (1265 a 1321), poeta florentino, escrito no exílio entre cerca de 1308 e a morte do autor em 1321. É dividida em três cantiche (Inferno, Purgatório e Paraíso), de 33 cantos cada, mais um canto de abertura, somando cem cantos. O Inferno é a primeira cantica: 34 cantos que narram a descida pelos nove círculos do mundo dos condenados.

Dante a chamou apenas Comédia, no sentido medieval de uma narrativa que começa no sofrimento e termina bem; o adjetivo Divina foi acrescentado depois, na edição veneziana de 1555. O poema é escrito em terza rima, estrofes de três versos com rimas encadeadas, invenção do próprio Dante. Esta edição traz a tradução em português ao lado do texto italiano original.

O que esta cantica narra

Perdido numa selva escura na metade da vida, Dante é resgatado pela sombra do poeta romano Virgílio, enviado a pedido de Beatriz. Virgílio o guia pelo Inferno, um funil que desce até o centro da Terra. Cada círculo pune um tipo de pecado, do menos ao mais grave, segundo a estrutura moral que Virgílio expõe no canto 11: a incontinência, a violência e a fraude.

A viagem cruza o Limbo dos pagãos virtuosos, os luxuriosos arrastados pela tempestade (Paolo e Francesca), os gulosos, os avaros, os iracundos, a cidade de Dite com os hereges, os violentos no rio de sangue, os suicidas, os fraudulentos das Malebolge e, no fundo gelado do Cocito, os traidores. No centro está Lúcifer, que tritura Judas, Bruto e Cássio. Dante e Virgílio descem pelo corpo do diabo e saem a rever as estrelas.

O poema abre com os versos mais famosos da literatura italiana:

No meio do caminho da nossa vida me vi perdido dentro de uma floresta escura, porque eu havia saído do caminho certo.

Dante, Inferno I, A Divina Comédia: Inferno 1:1

A inscrição sobre a porta do Inferno é igualmente célebre:

Abandonem toda esperança, vocês que entram.

Dante, Inferno III, A Divina Comédia: Inferno 3:3

Uma obra tecida de teologia, Bíblia e filosofia

A Comédia é uma síntese poética de toda a cultura cristã medieval. Dante engaja a Escritura de propósito, do começo ao fim: a selva e o caminho perdido ecoam a parábola da ovelha perdida e o salmo do justo; a estrutura do pecado segue a Ética de Aristóteles relida por Tomás de Aquino; a descida de Cristo aos infernos (o Descensus ad inferos, base em 1Pe 3:19 e Ef 4:8) explica por que alguns patriarcas já não estão no Limbo.

As referências cruzadas desta edição ligam cada passagem à fonte bíblica que Dante tinha em mente: o terremoto da Paixão que rachou as pontes infernais (Mt 27:51), as três feras do canto 1 que ecoam Jeremias 5:6, a Caína dos traidores nomeada a partir de Caim (Gn 4), o Velho de Creta moldado sobre a estátua de Daniel 2. O comentário identifica essas alusões de forma factual, sem transformar o poema em sermão.

Vale a ressalva honesta: o Inferno é também um acerto de contas político. Dante povoa o abismo com papas (Bonifácio VIII, Nicolau III), inimigos florentinos e figuras de seu tempo, e a teologia do poema reflete a do século XIV, não um consenso eclesial fixo. A invectiva contra a corrupção da Igreja é tão dantesca quanto a doutrina.

Para a porta do Inferno e a descida que abre a viagem, ver:

(A Divina Comédia: Inferno 3:1)