A Divina Comédia: Inferno 12
A primeira cantica (34 cantos): perdido na selva escura, Dante é guiado por Virgílio pelos nove círculos do Inferno, onde cada pecado recebe a pena que lhe corresponde, do limbo dos virtuosos pagãos ao fundo gelado em que Lúcifer tritura os traidores
O Minotauro e o rio de sangue dos violentos
O lugar onde chegamos para descer a ribanceira
era áspero e, pelo que havia ali também,
tal que qualquer olhar se esquivaria dele.
Como aquela ruína que no flanco
aquém de Trento o Adige atingiu,
por terremoto ou por sustentação falha,
que do cume do monte, de onde se moveu,
até o plano a rocha está tão fraturada
que algum caminho daria a quem estivesse acima:
assim era a descida daquele precipício;
e sobre a ponta daquela escarpa quebrada
a infâmia de Creta estava estendida
que foi concebida na vaca falsa;
e quando nos viu, mordeu a si mesmo,
como alguém a quem a ira por dentro consome.
Meu sábio gritou na direção dele: "Talvez
você acredite que aqui está o duque de Atenas,
que lá no mundo lhe deu a morte?
Afaste-se, besta, que este não vem
adestrado pela sua irmã,
mas vai para ver as vossas penas".
Como aquele touro que se solta no momento
em que já recebeu o golpe mortal,
que não sabe andar, mas salta para cá e para lá,
assim vi o Minotauro fazer;
e aquele sagaz gritou: "Corra para a passagem;
enquanto ele enraivece, é bom que você desça".
Assim descemos pelo terreno escorregadio
daquelas pedras, que frequentemente se moviam
sob meus pés pelo peso novo.
Eu ia pensando; e aquele disse: "Você pensa
talvez nessa ruína, que é guardada
pela ira bestial que acabo de apagar.
Agora quero que saiba que da outra vez
que desci aqui abaixo no fundo Inferno,
essa rocha ainda não havia desabado.
Mas certamente pouco antes, se bem percebo,
de que viesse aquele que a grande presa
tirou a Dite do círculo superior,
de todos os lados o alto vale pestilento
tremeu tanto que pensei que o universo
sentisse amor, pelo qual há quem acredite
que o mundo foi convertido em caos muitas vezes;
e naquele momento essa velha rocha,
aqui e em outros lugares, assim desabou.
Mas fixe os olhos para o vale, pois se aproxima
o rio de sangue no qual ferve
todo aquele que pela violência prejudicou os outros".
Que cega cobiça e ira louca,
que tanto nos esporeiam na vida curta,
e na eterna depois assim nos mergulham no mal!
Vi uma vala ampla curvada em arco,
como aquela que abraça toda a planície,
como havia dito meu guia;
e entre o pé da ribanceira e ela, em fila,
corriam centauros armados de flechas,
como costumavam ir à caça no mundo.
Vendo-nos descer, cada um parou,
e da fileira três se separaram
com arcos e lanças escolhidas de antemão;
e um gritou de longe: "A qual martírio
vocês vêm que descem a encosta?
Digam daí; senão, disparo o arco".
Meu mestre disse: "A resposta
daremos a Quíron aí de perto:
sempre foi ruim essa vontade tão precipitada".
Depois me tocou e disse: "Aquele é Nesso,
que morreu por causa da bela Dejanira,
e de si mesmo fez a própria vingança.
E aquele do meio, que se observa no peito,
é o grande Quíron, que criou Aquiles;
aquele outro é Folo, que foi tão cheio de ira.
Em torno à vala vão aos milhares,
flechando toda alma que emerge
do sangue mais do que sua culpa permite".
Nos aproximamos daquelas feras ágeis:
Quíron tomou uma flecha e, com o cabo,
empurrou a barba para trás sobre as mandíbulas.
Quando descobriu a grande boca,
disse aos companheiros: "Vocês notaram
que aquele que vem atrás move o que toca?
Assim não costumam fazer os pés dos mortos".
E meu bom guia, que já estava junto ao peito dele,
onde as duas naturezas se unem,
respondeu: "É bem vivo, e assim, sozinho,
preciso mostrar-lhe o vale sombrio;
a necessidade nos leva aqui, não o prazer.
Alguém que parou de cantar aleluia
me confiou essa missão nova:
não é ladrão, nem eu sou alma fugitiva.
Mas por aquela virtude pela qual movo
meus passos por caminho tão selvagem,
dê-nos um dos seus, ao qual nos juntemos,
que nos mostre onde se pode vadear,
e que leve este aqui na garupa,
pois não é espírito que anda pelo ar".
Quíron voltou-se no flanco direito
e disse a Nesso: "Volte e assim os guie,
e faça-os parar se outra tropa cruzar com vocês".
Então nos movemos com o guia fiel
ao longo da margem do fervedor vermelho,
onde os que ferviam emitiam altos gritos.
Vi gente submersa até as sobrancelhas;
e o grande centauro disse: "São tiranos
que se lançaram ao sangue e às riquezas.
Aqui se chora pelos danos impiedosos;
aqui está Alexandre e o feroz Dionísio
que fez a Sicília passar por anos dolorosos.
E aquela frente que tem o cabelo tão negro
é Ezzelino; e aquele outro que é loiro
é Opizo d'Este, que verdadeiramente
foi morto pelo enteado lá no mundo".
Então me voltei ao poeta, e ele disse:
"Que este seja agora o primeiro, e eu o segundo".
Pouco mais adiante o centauro se deteve
sobre um grupo de gente que até a garganta
parecia emergir daquele bulício.
Mostrou-nos uma sombra de um lado, sozinha,
dizendo: "Aquele fendeu, no colo de Deus,
o coração que ainda escorre sobre o Tâmisa".
Depois vi gente que, fora do rio,
mantinham a cabeça e todo o tronco;
e desses muitos reconheci.
Assim, gradualmente, ia ficando mais raso
aquele sangue, até que apenas os pés queimava;
e ali foi nossa passagem pela vala.
"Assim como você vê deste lado
o bulício que sempre vai diminuindo", disse o centauro, "quero que acredite
que do outro lado o fundo vai
cada vez mais fundo, até encontrar
o lugar onde a tirania convém que gema.
A justiça divina aqui castiga
aquele Átila que foi o flagelo da terra,
e Pirro e Sexto; e por toda a eternidade exprime
as lágrimas que o fervimento extrai,
de Rinier de Corneto, de Rinier Pazzo,
que fizeram tanta guerra nas estradas".
Depois se voltou e atravessou de volta o vau.