A Divina Comédia: Inferno 7

A primeira cantica (34 cantos): perdido na selva escura, Dante é guiado por Virgílio pelos nove círculos do Inferno, onde cada pecado recebe a pena que lhe corresponde, do limbo dos virtuosos pagãos ao fundo gelado em que Lúcifer tritura os traidores

Avaros e pródigos no quarto círculo; Virgílio explica a Fortuna; o Estige com os irados

"Pape Satàn, pape Satàn aleppe!", começou Plutão com voz rouca; e o sábio gentil, que tudo soube,
disse para me consolar: "Não te machuques com teu medo; pois, que poder tenha ele, não nos impedirá de descer esse rochedo."
Depois se virou para aquele lábio inchado, e disse: "Cala a boca, lobo maldito! consome-te por dentro com tua raiva.
Não é sem razão que vamos ao fundo: assim é querido em cima, onde Miguel fez a vingança do bando soberbo."
Como as velas enfunadas pelo vento caem enroladas quando o mastro se quebra, assim caiu por terra a fera cruel.
Assim descemos ao quarto fosso, tomando mais da margem sofrida que encerra em si todo o mal do universo.
Ah, justiça de Deus! Quem amontoa tantos sofrimentos e penas quanto os que vi? E por que nosso pecado assim nos consome?
Como a onda faz sobre Caríbdis, que se quebra com a que encontra pela frente, assim é preciso que a gente aqui gire.
Aqui vi gente em número maior que em outros lugares, e de um lado e do outro, com grandes gritos, rolando pesos com a força das costas.
Chocavam-se de frente; e depois voltavam cada um ao mesmo ponto, recuando, gritando: "Por que acumulas?" e "Por que desperdiças?"
Assim voltavam pelo círculo sombrio de cada lado ao ponto oposto, gritando uns aos outros versos vergonhosos;
depois se virava cada um, quando chegava, em seu meio círculo para o outro encontro. E eu, com o coração quase comovido,
disse: "Meu mestre, agora me mostra que gente é essa, e se todos esses tonsurados à nossa esquerda foram clérigos."
E ele para mim: "Todos foram tão míopes de mente em sua vida primeira, que não fizeram nenhum gasto com medida.
A voz deles o mostra bem claramente, quando chegam aos dois pontos do círculo onde a culpa contrária os separa.
Esses foram clérigos, que não têm cobertura de cabelo na cabeça, e papas e cardeais, nos quais a avareza exerceu seu excesso."
E eu: "Mestre, entre esses deveria reconhecer alguns que foram manchados por esses vícios."
E ele para mim: "Reúnes pensamento vão: a vida sem reconhecimento que os tornou sujos agora os torna escuros para qualquer reconhecimento.
Para sempre virão aos dois choques: esses ressurgirão do sepulcro com o punho fechado, e esses com o cabelo cortado.
Dar mal e guardar mal tirou deles o belo mundo, e os pôs nessa briga: qual seja ela, não preciso embelezar com palavras.
Agora podes, filho, ver a breve farsa dos bens que estão entregues à fortuna, pela qual a gente humana se irrita;
pois todo o ouro que existe sob a lua e que existiu não poderia fazer descansar uma dessas almas cansadas."
"Meu mestre", disse eu, "me diz agora também: essa fortuna de que me falas, o que é, que tem os bens do mundo tão entre as garras?"
E ele para mim: "Oh, criaturas tolas, quanta ignorância é essa que vos fere! Agora quero que absorvas minha sentença.
Aquele cujo saber tudo transcende fez os céus e deu a eles quem os guia de modo que cada parte irradia para cada parte,
distribuindo igualmente a luz. Do mesmo modo, para as riquezas mundanas, ordenou uma ministra e guia geral
que mudasse no devido tempo os bens vãos de povo em povo e de sangue em sangue, além da defesa do juízo humano;
por isso um povo impera e o outro definha, seguindo o julgamento dela, que é oculto como a serpente na erva.
Vosso saber não tem luta contra ela: ela provê, julga e conduz seu reino como os outros deuses o deles.
Suas mudanças não têm trégua: a necessidade a faz ser veloz; tão frequentemente vem quem lhe sucede.
Esta é aquela que tanto é crucificada justamente por quem deveria lhe dar louvor, dando-lhe culpa injusta e fama;
mas ela está bem-aventurada e não ouve isso: feliz com as outras primeiras criaturas gira sua esfera e se regozija abençoada.
Agora desçamos a maior sofrimento; já cada estrela que subia quando parti está caindo, e não se pode demorar mais."
Atravessamos o círculo para a outra margem sobre uma fonte que ferve e transborda por uma vala que dela deriva.
A água era muito mais escura que cinza; e nós, na companhia das ondas acinzentadas, descemos por um caminho diferente.
Entra no pântano que tem o nome Estige esse triste riacho, quando desce ao das margens malignas e cinzas.
E eu, atento a observar, vi gente enlameada naquele pântano, todas nuas, com semblante ferido.
Essas se golpeavam não com a mão, mas com a cabeça e com o peito e com os pés, despedaçando-se com os dentes aos pedaços.
O bom mestre disse: "Filho, agora as almas dos que a ira venceu; e também quero que acredites com certeza
que sob a água gente que suspira, e faz borbulhar essa água à superfície, como o olho te diz, em tudo quanto gira.
Afundados no lodo dizem: 'Fomos tristes no ar doce que o sol alegra, carregando dentro uma névoa de preguiça:
agora nos entristecemos na lama negra.' Esse hino gorgolejam na garganta, pois não podem dizê-lo com palavra inteira."
Assim contornamos o charco sujo em grande arco, entre a margem seca e o meio, com os olhos voltados para quem engole lama.
Chegamos ao de uma torre no final.