Capítulos

Um rolo de papiro parcialmente desenrolado, lacrado com selo de cera vermelha, ao lado de um anel de sinete e um tinteiro

Cartas - Livro VI

Inclui as duas cartas a Tácito sobre a erupção do Vesúvio e a morte de Plínio, o Velho (79 d.C.)

Sobre a obra

As Cartas de Plínio, o Jovem (c. 61 a c. 113 d.C.), advogado, senador e governador, são uma das fontes mais vivas sobre o cotidiano da elite romana. Os nove primeiros livros reúnem cartas literárias que o próprio autor selecionou, poliu e publicou, cada uma sobre um assunto só. O Livro X, de natureza diferente, reúne a correspondência oficial com o imperador Trajano; a maioria dos estudiosos considera que ele veio a público depois da morte de Plínio, sem a sua revisão.

Este é o Livro VI, com 34 cartas, escritas por volta de 106 e 107 d.C. É o volume mais consultado da coleção, porque contém as duas cartas a Tácito sobre a erupção do Vesúvio de 79 d.C.: a única descrição de testemunha ocular do evento que sobreviveu da Antiguidade.

As duas cartas do Vesúvio

Tácito pediu material para a sua obra histórica, e Plínio respondeu duas vezes. A primeira carta narra a morte do tio, Plínio, o Velho, autor da História Natural, que comandava a frota em Miseno. A segunda, escrita depois de novo pedido, conta o que o próprio Plínio viveu ao ficar em Miseno com a mãe. Ele tinha dezessete anos na época e escreveu cerca de vinte e cinco anos depois.

A primeira carta é o documento do qual a vulcanologia tirou o vocabulário. Plínio descreve a nuvem que se ergueu do monte comparando o formato ao de um pinheiro: um tronco altíssimo que se abre em ramos no alto, ora branco, ora sujo conforme carregasse terra ou cinzas. É por causa dessa descrição que erupções explosivas com coluna alta de gás e cinza são chamadas até hoje de plinianas.

(Cartas - Livro VI 16:4-6)

O tio manda preparar uma embarcação para observar o fenômeno de perto. Recebe então um bilhete de Rectina, cuja villa ficava ao pé do monte e que só poderia escapar por mar. A viagem de estudo vira operação de resgate: ele põe quadrirremes no mar e navega na direção de onde os outros fogem, ditando anotações sobre o desastre enquanto avança. Cinza quente, pedras-pomes e destroços obstruindo a praia forçam o desvio para Estábias.

(Cartas - Livro VI 16:8-11)

Lá o tio janta, dorme e é acordado quando o pátio já se enche de cinza e pedra. Ao amanhecer, na praia, o cheiro de enxofre e as chamas põem o grupo em fuga. Ele se levanta apoiado em dois escravos, cai e morre. O corpo é encontrado dois dias depois, intacto. Plínio arrisca uma explicação médica, a respiração obstruída pela névoa densa num homem de estômago fraco, e a apresenta como conclusão sua, não como fato apurado. Ele não presenciou a cena e diz isso.

(Cartas - Livro VI 16:18-20)

A segunda carta é o relato em primeira pessoa. Tremores durante a noite, a mãe irrompendo no quarto, o adolescente pedindo um volume de Tito Lívio e fazendo extratos enquanto a casa balança. Depois a fuga a pé, o mar recuando e deixando animais marinhos na areia seca, a nuvem negra rasgada por jatos de fogo, e a escuridão total.

(Cartas - Livro VI 20:8-11)

O trecho mais citado é o da multidão no escuro: gemidos de mulheres, gritos de crianças, gente reconhecendo os seus pela voz, uns erguendo as mãos aos deuses e a maioria concluindo que já não havia deus algum em parte alguma e que aquela era a noite última do mundo. Plínio registra a reação religiosa da população sem endossá-la e sem tirar dela conclusão teológica.

(Cartas - Livro VI 20:14-16)

O que o texto estabelece e o que segue em aberto

O relato é usado por vulcanólogos porque as fases que Plínio descreve, coluna sustentada, queda de pomes, escuridão, recuo do mar, colapso e correntes densas, correspondem à sequência que a estratigrafia dos depósitos de Pompeia e Herculano registra. É um caso raro de texto antigo que a geologia confirma no essencial.

A data é o ponto em aberto. O texto transmitido diz nono dia antes das calendas de setembro, ou seja, 24 de agosto, e essa foi a data padrão por séculos. Mas os manuscritos divergem, e outras leituras propostas apontam para o outono. Em 2018, uma inscrição a carvão encontrada em Pompeia, datada do décimo sexto dia antes das calendas de novembro, equivalente a 17 de outubro, reforçou a hipótese de erupção no outono. O Parque Arqueológico de Pompeia sustenta que ainda não há elementos suficientes para descartar 24 de agosto. A questão não está resolvida.

Plínio também é explícito sobre os limites do que oferece. Diz que relatou o que presenciou e o que ouviu logo depois, e adverte que uma coisa é uma carta e outra é a história, deixando a Tácito a seleção. Na segunda carta, avisa que os detalhes não são dignos de história. A parte de Tácito que teria usado esse material não sobreviveu.

(Cartas - Livro VI 16:21-22)

O resto do livro

Fora do Vesúvio, o Livro VI é vida pública e privada de sempre. Há duas cartas curtas à esposa Calpúrnia, ausente na Campânia por doença, entre as poucas cartas conjugais da literatura latina. Há a visita à villa que fora de Vergínio Rufo, cujo túmulo continuava sem epitáfio dez anos depois da morte, e a indignação de Plínio com o descuido.

(Cartas - Livro VI 10:1-4)

Uma carta explica por que subiu o preço das terras em torno de Roma: proibidos os banquetes e as distribuições de dinheiro nas eleições, Trajano ainda obrigou os candidatos a investir um terço do patrimônio em imóveis na Itália, e todos correram a comprar. É evidência direta sobre política eleitoral e mercado de terras.

(Cartas - Livro VI 19:1-5)

Outra descreve Plínio convocado ao conselho do imperador em Centum Cellae, ouvindo causas de delação, adultério e falsificação. Ao lado disso ficam recomendações de candidatos, processos de provinciais contra governadores e o caso da mulher do lago de Como que se atirou na água amarrada ao marido doente, que Plínio compara ao gesto célebre de Árria.

(Cartas - Livro VI 31:1-3)

Relevância para a fé cristã

As cartas do Vesúvio não mencionam cristãos e não confirmam nada sobre o cristianismo. O que elas oferecem é outra coisa: uma medida do que uma testemunha ocular antiga escreve, e de como um autor romano cuidadoso separa o que viu, o que ouviu e o que deduz. Quem discute a confiabilidade de relatos antigos, incluindo os evangelhos, encontra aqui um caso de controle, com a vantagem rara de poder ser cotejado com evidência física independente.

Vale notar o que a comparação sustenta e o que não sustenta. Plínio escreve cerca de vinte e cinco anos depois do evento, distância parecida com a que se supõe entre a crucificação e os primeiros evangelhos, e a geologia confirma a estrutura do que ele conta, embora a data transmitida siga contestada. Isso mostra que memória de testemunha a essa distância pode ser boa em substância e imprecisa em detalhe. Não estabelece nada sobre a veracidade de nenhum outro texto: cada relato responde pela própria evidência.

A ponte direta com o cristianismo está no Livro X, escrito poucos anos depois, quando Plínio governava a Bitínia e escreveu a Trajano perguntando como julgar quem se declarava cristão. Aquele volume traz as cartas 96 e 97, a mais antiga descrição do culto cristão feita por um autor não cristão, e a resposta imperial que fixou a política por décadas.

(Cartas - Livro X 96:1-10)