Cartas - Livro VI 33

Inclui as duas cartas a Tácito sobre a erupção do Vesúvio e a morte de Plínio, o Velho (79 d.C.)

Caio Plínio ao seu Romano, saudações.

"Largai tudo", disse ele, "e abandonai os trabalhos começados!" Quer você esteja escrevendo algo, quer esteja lendo, mande largar e tirar tudo e receba este meu discurso, divino como aquelas armas (será que pude ser mais arrogante?), na verdade belo entre os meus; pois para mim basta competir comigo mesmo.
Este é o discurso em favor de Átia Víriola, notável tanto pela posição da pessoa quanto pela raridade do caso e pela importância do julgamento. Pois uma mulher de nascimento ilustre, casada com um homem de posição pretoriana, foi deserdada por seu pai octogenário dentro de onze dias depois que ele, dominado pela paixão, lhe trouxe uma madrasta; ela reivindicava os bens paternos num julgamento das quatro câmaras.
Sentavam-se cento e oitenta juízes (esse é o número reunido nos quatro conselhos), uma enorme presença de advogados de ambos os lados e bancos lotados; além disso, uma densa coroa de pessoas em cercava o amplíssimo tribunal num círculo múltiplo.
A isso somava-se o estrado apinhado, e até da parte superior da basílica tanto mulheres quanto homens se debruçavam, no desejo de ouvir (o que era difícil) e de ver (o que era fácil). Grande era a expectativa dos pais, grande a das filhas, grande também a das madrastas.
Seguiu-se um resultado variado; pois em dois conselhos vencemos, em outros tantos fomos vencidos. Notável e estranha foi, na mesma causa, com os mesmos juízes, os mesmos advogados, no mesmo momento, tamanha diversidade.
Aconteceu por acaso aquilo que não parecia acaso: a madrasta foi vencida, ela mesma herdeira de uma sexta parte, e foi vencido Suburano, que, deserdado pelo pai, com impudência singular reclamava os bens do pai alheio, sem ousar pedir os do próprio.
Expus isto a você, primeiro para que soubesse pela carta o que não podia saber pelo discurso, depois (pois vou revelar minhas artimanhas) para que lesse o discurso de melhor vontade, imaginando não que o lê, mas que está presente ao julgamento; e dele, por grande que seja, não desespero de obter a mesma acolhida de um discurso brevíssimo.
Pois ele se renova pela abundância de assuntos, pela divisão engenhosa, pelas muitas pequenas narrativas e pela variedade de estilo. muitas passagens (eu não ousaria dizer isto a ninguém senão a você) elevadas, muitas combativas, muitas sutis.
Pois àqueles trechos vigorosos e arrebatados se interpunha a frequente necessidade de calcular e quase de pedir fichas e tábua de contas, de modo que de repente o tribunal centunviral se transformava na forma de um julgamento privado.
Demos velas à indignação, demos à ira, demos à dor, e numa causa amplíssima fomos levados, como num grande mar, por muitos ventos.
Em suma, alguns dos meus companheiros costumam considerar que este discurso (vou dizer de novo) está entre os meus como o "Em defesa de Ctesifonte": se é verdade, você julgará com a maior facilidade, pois guarda na memória todos com tanta precisão que pode compará-lo com este enquanto apenas este. Adeus.