Cartas - Livro VI 2

Inclui as duas cartas a Tácito sobre a erupção do Vesúvio e a morte de Plínio, o Velho (79 d.C.)

Caio Plínio ao seu caro Arriano, saudações.

Às vezes, nos tribunais, dou por mim sentindo falta de Marco Régulo; não quero dizer que tenha saudade dele.
Por que então sinto falta dele? Ele honrava a profissão; ficava nervoso, empalidecia, escrevia os discursos com antecedência, ainda que não conseguisse decorá-los. Aquele próprio hábito de passar pomada ora no olho direito ora no esquerdo (o direito se fosse atuar pelo autor, o outro se fosse pelo réu), de transferir o emplastro branco de uma sobrancelha para a outra, de sempre consultar os arúspices sobre o desfecho da causa, vinha de uma superstição excessiva, mas também de um grande respeito pela profissão.
E havia aquilo que era muito agradável para quem atuava na mesma causa: ele pedia que o tempo fosse livre e convocava ouvintes. Pois o que é mais agradável do que falar à vontade quanto se quiser, sob a impopularidade de outro, e falar comodamente diante de um auditório alheio, como se você tivesse sido pego ali por acaso?
Mas seja como for, Régulo fez bem em morrer; teria feito melhor se tivesse morrido antes. Agora, na verdade, podia muito bem viver sem prejuízo para o público, sob um príncipe sob o qual não podia causar dano.
Por isso é justo às vezes sentir falta dele. Pois, depois que ele morreu, espalhou-se por toda parte e ganhou força o costume de conceder e pedir duas ou uma clepsidra, às vezes até meia. Os que falam preferem ter feito o discurso a fazê-lo, e os que ouvem preferem terminar a julgar. Tamanha é a negligência, tamanha a indolência, tamanho enfim o desrespeito pela profissão e pelos riscos que corremos.
Será que somos mais sábios que nossos antepassados, mais justos que as próprias leis, que concedem tantas horas, tantos dias, tantos adiamentos? Eles eram obtusos e lentos além da medida; nós falamos com mais clareza, entendemos mais rápido, julgamos com mais escrúpulo, porque atropelamos as causas em menos clepsidras do que se costumava levar dias para resolvê-las?
Ó Régulo, você que com sua ambição obtinha de todos o que pouquíssimos concedem à boa-fé! Eu, sempre que julgo, o que faço até mais vezes do que advogo, dou tanta água quanto cada um pedir, por maior que seja.
De fato, considero temerário adivinhar quão extensa será uma causa ainda não ouvida, e fixar um tempo para um assunto cuja duração você ignora, sobretudo porque o primeiro dever que um juiz deve à sua consciência é a paciência, que é grande parte da justiça. Mas, dizem, fala-se muita coisa supérflua. Sim, mas é melhor que essas coisas sejam ditas a que se omita o que é necessário.
Além disso, você não pode saber se são supérfluas senão depois de ouvi-las. Mas é melhor tratar disso pessoalmente, junto com muitos outros vícios da cidade. Pois você também, por amor ao bem comum, costuma querer corrigir o que é difícil de consertar.
Agora voltemos os olhos para nossas casas. Está tudo bem na sua? Na minha, nada de novo. Para mim, as coisas boas são ainda mais agradáveis porque perduram, e os inconvenientes mais leves porque me acostumei. Adeus.