Cartas - Livro VI 22

Inclui as duas cartas a Tácito sobre a erupção do Vesúvio e a morte de Plínio, o Velho (79 d.C.)

Caio Plínio a seu Tirão, saudações.

Decidiu-se uma grande questão, importante para todos os que vão governar províncias, e para todos os que confiam ingenuamente em seus amigos.
Lustrício Bruciano, tendo flagrado Montânio Aticino, seu acompanhante, em muitos crimes, escreveu a César. Aticino acrescentou aos crimes o de acusar aquele que enganara. O processo foi aceito; participei do conselho. Cada um defendeu a própria causa, mas de modo resumido e por tópicos, gênero pelo qual a verdade logo se revela.
Bruciano apresentou seu testamento, que dizia ter sido escrito de próprio punho por Aticino; com isso se demonstrava tanto a intimidade secreta entre eles quanto a necessidade de se queixar daquele que tanto amara.
Enumerou crimes torpes e manifestos; e, como Aticino não conseguia refutá-los, reagiu de tal modo que, ao se defender, ficou provado vergonhoso, e, ao acusar, criminoso. Pois, corrompendo o escravo do secretário, interceptara os registros e cortara passagens deles, e, por máxima impiedade, usava contra o amigo o próprio crime.
César agiu da forma mais nobre: não pôs em votação o caso de Bruciano, mas imediatamente o de Aticino. Este foi condenado e desterrado para uma ilha; a Bruciano foi dado o mais justo testemunho de integridade, e ainda o seguiu a glória da firmeza.
Pois, depois de se defender com toda facilidade, acusou com veemência, e mostrou-se não menos enérgico do que bom e sincero.
Escrevi isso a você para adverti-lo, agora que recebeu por sorteio uma província, de que confie ao máximo em si mesmo e não deposite confiança plena em ninguém; e, depois, para que saiba que, se por acaso alguém o enganar, o que eu detesto pensar, vingança preparada. Mas, para que ela não seja necessária, fique muito atento;
pois não é tão agradável vingar-se quanto é desgraçado ser enganado. Adeus.