Capítulos
Confissões - Livro XII
Autoria e Data de Composição
Agostinho de Hipona (354-430), bispo no norte da África romana, escreveu as Confissões por volta de 397-401. A autoria é certa: Agostinho cita a obra em outros escritos seus, e ela aparece já na lista das suas "Retratações", redigida perto do fim da vida. São treze livros, a primeira grande autobiografia espiritual do Ocidente, toda endereçada a Deus em forma de oração, alternando narrativa, exame de consciência e meditação filosófica.
O Livro XII nas Confissões
Os três últimos livros das Confissões abandonam a narrativa autobiográfica e passam à exegese das primeiras linhas do Gênesis. O Livro XII fixa-se em "no princípio Deus fez o céu e a terra" e em "a terra era invisível e desordenada, e havia trevas sobre o abismo", na versão dos Setenta que Agostinho usava. Dois temas o estruturam. O primeiro é o "céu do céu" (caelum caeli): uma criatura intelectual, identificada em geral com a ordem angélica, que adere a Deus fora do tempo e participa de sua eternidade sem lhe ser coeterna. O segundo é a matéria informe, o "quase nada" que já existe por ter capacidade de receber forma, mas ainda não a tem, e do qual procedem as coisas distintas dos dias.
A humildade hermenêutica
A segunda metade do livro é uma longa reflexão sobre a interpretação da Escritura. Agostinho admite que de um mesmo texto se extraem vários sentidos, todos verdadeiros, e que disputar qual deles Moisés realmente intentou costuma ser presunção. A verdade, argumenta, não é propriedade de quem a enuncia, mas comum a todos os que a amam, e a caridade deve unir os que divergem na leitura contanto que cada um sustente algo verdadeiro. No limite, sustenta que mesmo um sentido que Moisés não tenha conscientemente pensado, mas que seja verdadeiro, procede do mesmo Deus que inspirou o texto. Essa abertura, lida hoje como antecipação de uma hermenêutica plural, convive com a convicção firme de Agostinho de que há limites: nem todo sentido é verdadeiro, e a fonte de toda verdade é única.
Conteúdo do Livro
- A penúria do entendimento humano diante da Escritura: Agostinho pede a Deus que lhe abra o sentido das primeiras palavras do Gênesis. — (Confissões - Livro XII 1)
- Distinção entre o "céu do céu" (caelum caeli) e a terra: comparado a Deus, até o céu visível é terra. — (Confissões - Livro XII 2)
- A terra invisível e desordenada e o abismo coberto de trevas: a matéria ainda sem forma. — (Confissões - Livro XII 3)
- Como nomear a matéria informe a quem não a entende: o quase nada que está abaixo de toda forma sensível. — (Confissões - Livro XII 4)
- A matéria informe não pode ser captada pelos sentidos nem pela imaginação comum, apenas concebida por privação de forma. — (Confissões - Livro XII 5)
- O esforço de Agostinho para pensar a matéria sem forma: ora a imaginava com aspectos disformes, ora como o nada absoluto. — (Confissões - Livro XII 6)
- Deus criou tudo do nada por sua bondade: o céu e a terra, o que é grande e o que é quase nada. — (Confissões - Livro XII 7)
- Da matéria informe procede a obra distinta dos dias: o informe é o quase nada de onde vêm as coisas formadas. — (Confissões - Livro XII 8)
- O céu do céu, criatura intelectual que adere a Deus sem mudança de tempo, e a terra dada aos homens. — (Confissões - Livro XII 9)
- Súplica para que Deus seja a herança de Agostinho e o resgate de seus erros e dispersões. — (Confissões - Livro XII 10)
- A criatura intelectual participa da eternidade de Deus, mas não lhe é coeterna, pois permanece mutável. — (Confissões - Livro XII 11)
- Duas realidades não medidas pelo tempo: o céu do céu, quase formado, e a matéria informe, quase nada. — (Confissões - Livro XII 12)
- A casa de Deus que goza da luz divina e a obscuridade da matéria informe antes da distinção dos dias. — (Confissões - Livro XII 13)
- A profundidade da Escritura, que oferece sentido a quem a aborda com humildade e fere os soberbos. — (Confissões - Livro XII 14)
- Resposta aos que negam o céu do céu: a criatura intelectual adere a Deus por amor constante, sem ser coeterna ao Criador. — (Confissões - Livro XII 15)
- Agostinho recusa a contenda com os adversários e prefere recolher-se em Deus, repousando na verdade. — (Confissões - Livro XII 16)
- Objeções dos que leem de outro modo "no princípio", o céu, a terra, o informe e as trevas sobre o abismo. — (Confissões - Livro XII 17)
- A caridade deve unir os que divergem na interpretação, contanto que cada um sustente algo verdadeiro. — (Confissões - Livro XII 18)
- Verdades que ninguém nega: Deus criou tudo, sua sabedoria é eterna, e a matéria foi feita por ele. — (Confissões - Livro XII 19)
- Enumeração das várias interpretações verdadeiras de "no princípio Deus fez o céu e a terra". — (Confissões - Livro XII 20)
- As diversas explicações de "a terra era invisível e desordenada, e havia trevas sobre o abismo". — (Confissões - Livro XII 21)
- A matéria informe foi criada antes da distinção das formas ou ao mesmo tempo que elas? — (Confissões - Livro XII 22)
- Dois tipos de desacordo: sobre a verdade da coisa em si e sobre a intenção de quem escreveu o texto. — (Confissões - Livro XII 23)
- Contra os que afirmam, sem caridade, que Moisés pensava exatamente o que eles pensam. — (Confissões - Livro XII 24)
- A presunção de reivindicar uma só leitura como a única de Moisés: a verdade é comum a todos, não propriedade de ninguém. — (Confissões - Livro XII 25)
- Se fosse Moisés, Agostinho desejaria escrever de modo que cada leitor encontrasse a verdade que pudesse alcançar. — (Confissões - Livro XII 26)
- As palavras simples de Moisés alimentam tanto os pequenos quanto os que buscam sentidos mais profundos. — (Confissões - Livro XII 27)
- Os múltiplos sentidos verdadeiros de "no princípio Deus fez o céu e a terra" conforme cada grau de compreensão. — (Confissões - Livro XII 28)
- O sentido de "princípio": princípio de tempo, de origem, ou na Sabedoria, que é o próprio Verbo. — (Confissões - Livro XII 29)
- Exortação à concórdia: que cada um abrace a verdade que vê, sem disputas sobre qual sentido Moisés intentou. — (Confissões - Livro XII 30)
- Moisés pôde ver, num só texto, todos os sentidos verdadeiros que dele se extraem, iluminado pela verdade. — (Confissões - Livro XII 31)
- Conclusão: ainda que Moisés tenha pensado num só sentido, todo sentido verdadeiro vem de Deus, fonte de toda verdade. — (Confissões - Livro XII 32)
O céu do céu e a matéria informe
Criação do nada e as duas realidades fora do tempo
Réplica aos adversários sobre o céu do céu
A pluralidade de sentidos verdadeiros num mesmo texto
A intenção de Moisés e a fecundidade do texto
Texto e Tradução
O texto latino segue as edições clássicas das Confessiones e aqui é apresentado ao lado do português. A citação tradicional é por livro, capítulo (caput) e parágrafo numerado de modo contínuo dentro do livro: por exemplo, Confissões XII seguido do número do parágrafo correspondente.