Confissões - Livro XII 26

Livro XII: o céu do céu, a matéria informe e a criação a partir do nada

E contudo eu, Deus meu, altura da minha humildade e repouso do meu trabalho, vós que ouvis as minhas confissões e perdoais os meus pecados, porque vós me ordenais que ame o meu próximo como a mim mesmo, não posso crer de Moisés, vosso fidelíssimo servo, menos do que desejaria e ansiaria que me fosse dado por vós como dom, se eu tivesse nascido naquele tempo em que ele nasceu e me tivésseis colocado naquele lugar, para que, pelo serviço do meu coração e da minha língua, fossem dispensadas aquelas letras que tanto tempo depois haviam de aproveitar a todas as gentes e, por todo o orbe, haviam de superar, de tão alto cume de autoridade, as palavras de todas as falsas e soberbas doutrinas. Eu desejaria, na verdade, se então eu fosse Moisés (pois todos viemos da mesma massa; e que é o homem, senão porque vós vos lembrais dele?), eu desejaria, portanto, se então eu fosse o que ele era e me fosse imposto por vós escrever o livro do Gênesis, que me fosse dada tal faculdade de eloquência e tal modo de tecer o discurso, que nem aqueles que ainda não podem entender de que maneira Deus cria recusassem as palavras como excedendo as suas forças, nem aqueles que podem entender isto, qualquer que fosse a sentença verdadeira a que pelo pensamento tivessem chegado, deixassem de a encontrar não omitida nas poucas palavras do vosso servo; e se outro tivesse visto outra coisa na luz da verdade, tampouco essa deixasse de poder ser entendida nas mesmas palavras.